quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Cinco poemas de Hafiz, o místico poeta persa

 
I.

Um poeta é alguém
que verte luz para uma colher,
e depois ergue-a para nutrir
a tua boca ressequida, bela, sagrada.


II.

De manhã,
enquanto despertava,
aconteceu outra vez:

aquela sensação
que Tu, Amado,
havias permanecido
sobre mim, de vigia,
a noite inteira;

uma sensação dizendo
que assim que começasse
a ficar agitado
encostarias os Teus lábios
à minha testa,
e acenderias uma candeia
dentro do meu coração.


III.

Um dia, o sol admitiu:
sou apenas uma sombra.

Como desejaria mostrar-vos
a Eterna Incandescência
que projectou
a minha cintilante imagem!

Como desejaria revelar-vos,
quando estais sós
ou rodeados de sombras,
a deslumbrante luz
daquilo que em verdade são!


IV.

Raramente deixo a palavra não
escapar da minha boca,
pois para a minha alma é tão óbvio
que Deus disse sim! sim! sim!
a todo o luminoso movimento
que acontece na existência.


V.

Sou feliz, mesmo antes de ter motivo.

Estou cheio de luz, mesmo antes
do céu saudar o sol ou a lua.

Queridos amigos,
estamos enamorados de Deus
há muito, muito tempo.

Que pode Hafiz agora fazer,
se não dançar para sempre?





Hafiz (1320 - 1389)













(Versões de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Daniel Ladinsky in "I Heard God Laughing: Poems of Hope and Joy - Renderings of Hafiz", Penguin Books, 2006.)
















(Gravura de Hafiz,
por Abolhassan Sadighi
(1894 - 1995))