segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Três poemas de Wang Fan-chih (Parte II)


I.

Será bom por fim contemplar a cidade do nirvana¹, 
e assim deixar estas terras dos tempos do fim.
O céu concedeu-me vida, mas a morte
é o derradeiro abraço quente da terra.
Finalmente, vida e morte nada significam para mim
- sou rio em eterno fluir.


II.

Não necessitas de espelho para observar o teu rosto,
não tens de ser abastado para fazer caridade.
Senta-te apenas, e ser-te-á descoberto o rosto
do Buda que vive em ti


III.

Escuta bem: desfruta do teu tempo.
Na verdade, não te sobra muito:
ainda há pouco nascias
e em breve já terás partido.




Wang Fan-chih (séc. IX)








(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções de J.P. Seaton, in "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)










(1) O conceito budista de "Nirvana" é amplamente divulgado e sumariamente conhecido, sendo em geral entendido como o último estágio de evolução espiritual. 
Trata-se, claro, de um estado de ser, alcançado após a transcendência do desejo e dos apegos materiais manifestados por aqueles que ainda vivem iludidos quanto à sua real identidade. Em suma, a compreensão profunda de que o ser é mais do que aquilo que a sua mente dita.
Contudo, o autor, ou autores por detrás do nome Wanh Fan-chih, concederam um toque poético ao conceito, adicionando a palavra "cidade", o que poderá induzir em erro o leigo, já que não se trata de um qualquer lugar físico, embora confira essa sensação. A referência é ao "estado de Nirvana", à iluminação da consciência, ao florir do divino no mundano. Aqueles que o experienciam, portanto, dir-se-ão, sob essa óptica, "cidadãos do Nirvana", título que o poeta (ou poetas, repetimos) sabia ser seu de direito, dada a transformação interior que nele entretanto ocorrera. 


(2) Para uma compreensão mais directa e clara por parte do leitor, este pequeno poema foi alvo duma determinada arrumação de palavras durante o seu processo de tradução, adicionando-se inclusivamente pontes que não constavam na versão inglesa, que por si só era algo confusa e repetitiva, a carecer de melhor ligação entre versos.
Mas não se pretende realizar uma avaliação crítica ao seu tradutor, que decerto se empenhou ao máximo no labor da decifração. O que importa para o caso em concreto é simplesmente referir a extrema aproximação entre o método sugerido pelo poeta e o meio mais comum de meditação no budismo zen: "sentar-se quieto e em silêncio". 
A lógica por detrás do acto prende-se com o facto de em silêncio e em quietude o fluxo mental do ser humano decrescer, tornando-o assim mais vazio de conteúdo e, como tal, próximo daquilo que na realidade ele é. Descobrir o «Buda que vive em ti» é, pois, encontrar o divino em nós, atingir o que se referiu antes como sendo a «cidade do nirvana». 










sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Três poemas de Wang Fan-chih (1)


I. 

Mendigar pode prover uma boa vida,
levar-te para além da fome e do frio.
As cabeçorras rapadas destes monges taoístas
vivem sobre belas e rechonchudas bochechas. 


II.

Nunca houve um pai e um filho tão próximos 
quanto aqueles dois. Mil moedas de oiro 
não compravam um olhar duvidoso 
ou uma palavra maldosa de um sobre o outro.
Ainda assim, quando um deles 
de súbito adoeceu, tendo morrido, o outro 
afastou-se e permaneceu bem longe,
temendo pela sua própria vida.


III.

Poderão algum dia voltar a casa?
Labuta sem fim:
esposas em trabalhos forçados,
maridos reunidos à força,
rumo à guerra.





Wang Fan-chih (séc. IX) 





(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções de J.P. Seaton, in "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)






(1) Conforme foi dito numa publicação anterior, regressa-se a este autor com uma breve selecção de poemas que espelham o seu lado mais crítico sobre a sociedade e o mundo, constantemente regado pela ironia que o caracterizada. Expõe o ridículo, a injustiça e a incoerência humana de modo simples e directo, sem lugar para desculpas ou hesitações. Graças a este olhar, uma imagem mais clara do tempo que viveu é-nos dada com uma limpidez louvável. Assim nasce a incómoda constatação que, à parte a era e o lugar, pouco terá mudado com o render dos tempos...
















sábado, 9 de setembro de 2017

Quatro poemas de Wang Fan-chih


I.

Vento e poeira entram 
por esta pequena cabana de palha.
Uma manta rasgada cobre a cama.
Se alguém vier, será convidado a entrar.
Posso fazer um monte de terra
para que nos sentemos.


II.

Muitos são os que desejam altos cargos.
Um trabalho que pague o suficiente
para encher duas tigelas de arroz
é o quanto me basta.
O fogo que brando aquece o pote do arroz
servirá também para aquecer meus pés.


III.

Sou pobre, então riem de mim.
Sou tão pobre que o riso alheio encanta-me.
Nenhum boi, nenhum cavalo,
nenhum bandido me preocupa.


IV.

Não desejo ser verdadeiramente rico,
não quero ser realmente pobre.
Deixa que o ontem se transforme em hoje
e que o hoje se torne no amanhã.
Se puderes aprender a nada querer,
talvez te tornes num homem verdadeiro.



Wang Fan-chih (séc. IX) ¹





(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções de J.P. Seaton, in "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)







(1) Eis mais um caso de uma figura que, por exemplo, a par de Han Shan e Shih Te, já merecedores da nossa atenção neste espaço de partilha, permanece envolta numa aura obscura e misteriosa. Tanto que, à semelhança dos outros nomes citados, muitos consideram o seu trabalho não o resultado de uma só pessoa, mas de várias. 
Na verdade, como o "Montanha Fria" e o "Orfão", Wang Fan-chih é um nome cuja tradução se decifra por "Sr. Wang, um leigo budista", tão bizarro que de pronto se aceita trocar a designação de nome pela de título. Embora seja possível alguém naquele tempo ter assinado um conjunto de poemas sob tal epígrafe, o mais provável será tratar-se de uma personagem fictícia, cuja produção poética se incrementou devido à contribuição de um certo número anónimo de poetas, para o caso nos finais da dinastia Tang. (Num aparte, note-se que o termo traduzido por "leigo" não significará o usual "ignorante", mas sim um monge secular, isto é, que não realizou votos religiosos. Apesar da inclinação budista, notada em diversos poemas, cuja partilha prometemos desde já realizar em publicações futuras, a figura de Wang, fictícia ou não, era a de um leigo assumido.)
Portanto, como já se referiu, o poeta real ou ficcional terá vivido algures no século IX da nossa era, nos derradeiros anos da dinastia Tang, um período terrivelmente assolado pela guerra e graves crises sociais e económicas, com os surtos de peste e a escassez de alimentos à cabeça do rol. A pobreza que neste primeiro conjunto de poemas tanto parece ser apregoada como um meio de vivência simples e humilde, não era decerto difícil de atingir naqueles negros anos. 
Os poemas de Wang seriam bastante populares na época em causa. Contudo, menos de uma dúzia sobreviveram, e graças à sua inclusão, por parte doutros poetas distintos, nas suas pessoais colecções de favoritos. Muitos outros, apesar de tudo, lhe são atribuídos. E com segura razão. Mas somente seriam descobertos séculos depois, nos primórdios do século XX, quando se procedeu à abertura da biblioteca monástica de Tun-huang, encerrada por volta do ano 1000, quando as tropas chinesas estariam a perder o controlo daquela região. Mais de três pergaminhos se outorgam a Wang, cuja tradução para uma língua ocidental se deveu a Paul Demiéville, algures por 1950. Longo tempo permaneceram dormentes essas e outras obras de provavelmente igual valor...
Mas não nos equivoquemos. Nem tudo o que se atribui a Wang Fan-chih é de extraordinária qualidade. Os próprios temas e modos de construção dos textos tendem a divergir um pouco, apesar de em linha geral se manterem os preceitos tipicamente budistas, um tom irónico e por vezes até cruel, um negrume de sentido algo lúgubre e uma moralidade corrosiva para com falsidades de diversos calibres. Dentro desta mostra, os poemas seleccionados para esta primeira apresentação até que primam por uma serenidade bastante discreta, dado que até vernáculo era comummente anexado aos versos dos seus poemas. 
Considerando tudo isto, e somando as peculiares experiências da desafiante época em que viveu, as vozes que de Wang Fan-chih emanam são deveras singulares, um testemunho claro e crítico de um tempo cruel e obscuro, decerto merecedoras da nossa melhor atenção, não obstante a imensidão temporal que agora nos separa. 










domingo, 6 de agosto de 2017

BANQUETE DE UMA NOITE DE PRIMAVERA NO JARDIM DOS PÊSSEGOS E DAS AMEIXAS



O céu e a terra são o albergue de passagem de todas as coisas. O tempo é o hóspede em trânsito de todas as gerações. Que alegrias podemos ter, se flutuamos na vida como num sonho?

Boas razões tinham os antigos para, empunhando tochas, até a noite aproveitarem para viajar. Quanto mais quando a primavera solarenga nos atrai com as suas paisagens esfumadas e a natureza nos seduz com o bordado da sua escrita!

Reunimo-nos no perfumado Jardim dos Pêssegos e das Ameixas para discorrer sobre as alegrias da divina fraternidade. Todos os meus irmãos são talentosos e belos, todos são Huì-lian (¹). Cantamos e recitamos as nossas poesias e sou eu o único que devo sentir vergonha perante Kàng Lè (²).

O gozo sereno da paisagem deste jardim nunca termina, discorrendo sobre temas elevados que se vão tornando cada vez mais transparentes.

Desenrolamos esteiras requintadas e, sentados entre as flores, passamos taças de vinho e embriagamo-nos sob a lua.

Se não fizermos boas obras, como poderemos revelar os nossos sublimes pensamentos?

Se alguém houver que não seja capaz de escrever um poema, terá de ser castigado segundo as regras do Jardim Jin-gu (³), pagando uma multa de três copos de vinho.




Li Bai (701 - 762).






(Traduções de Cláudia Ribeiro e de Zhang Zhèng-Chun in "O Rosto do Vento Leste - Doze textos de prosa clássica chinesa", Assírio & Alvim, 1993)




(1) Xiè Huì-lián foi um escritor precoce que viveu durante o período das Dinastias do Sul. Aos dez anos de idade já compunha poemas de considerável valor. Foi discípulo de Xiè Líng-yún.


(2) Outro nome pelo qual o mestre antes referido era conhecido.


(3) O nome do jardim onde Cháng-jián organizava banquetes para os convidados comporem versos. 








(Li Bai brindando à lua)


sábado, 8 de julho de 2017

Cinco haiku de Enomoto Seifu


I.

Ao romper do dia,
à conversa com as flores,
uma mulher só.


II.

Paz e silêncio - 
vinda da chuva, a borboleta
entra no meu quarto.


III.

Fim de Primavera - 
num conjunto de artemísias
há ossos humanos. ¹


IV.

Bonecas sempre iguais - 
eu não tive outro remédio
senão envelhecer.


V.

Grito de faisão - 
ressoando na montanha,
a voz do silêncio. ²




Enomoto Seifu (1732 - 1815) ³





(Versões de Luísa Freire in "O Japão no Feminino - Haiku, séculos XVII a XX", Assírio & Alvim, 2007)






(1) Este haiku terá sido escrito algures entre 1782 e 1787, durante um período de grave escassez de alimentos no Japão, o que originou o registo de diversas mortes, especialmente nas camadas socialmente mais expostas. 
No seu haiku, Enomoto dá a entender que durante um passeio dado no fim de uma primavera daquele período ter-se-á deparado com um conjunto de ossos humanos sob uns arbustos, provavelmente os restos mortais de alguém que, abandonado à sua sorte, não foi capaz de subsistir a um longo inverno.



(2) Enomoto compôs este haiku durante a sua estadia no templo Zen de Kamakura. 



(3) Enomoto Seifu nasceu no seio de uma família de samurais, recebendo desde sempre a melhor educação possível. Contudo, somente após a viuvez é que desenvolveu verdadeiramente a sua arte poética, e sob a orientação de Kaya Shirao. Após a morte do mentor, seguiu uma via monástica. 
Apesar da alta qualidade da obra que ia produzindo nesses anos, até à sua morte a mesma não era propriamente conhecida. Só depois do seu falecimento é que o filho de Enamoto decidiu publicá-la, e sob a epígrafe de "Os haiku da monja Seifu".
Para muitos críticos, Enomoto Seifu foi a mais importante poetiza do Japão pré-moderno no que à elaboração do haiku diz respeito, uma figura só capaz de rivalizar com a grandeza do mestre Basho. Uma das suas principais inovações temáticas, segundo Makoto Ueda, é o intenso «desejo de um mundo transcendente de pureza e solidão», aspecto esse mais visível nos dois primeiros haiku aqui apresentados. 







(Imagem do templo Komyoji em Kamakura)




sexta-feira, 30 de junho de 2017

Quatro poemas de Shih Te


I.

Se quiseres ser feliz,
não há outra via que não a do eremita. 
Nas matas, as flores crescem 
até se assemelharem a um brocado sem fim
- a cada nova estação renovadas cores.
Toma o teu lugar junto dum penhasco
e direcciona o rosto para poderes observar
a caminhada da lua.
E eu? Deveria permanecer numa alegria serena,
mas não consigo deixar de pensar
nas outras pessoas.


II.

Sempre fui Shih Te, o órfão.
Não é um nome acidental,
embora tenha família.
Han Shan é meu irmão.
Somos dois homens de coração idêntico
- entre nós não há a necessidade
dum amor vulgar.
Se desejares saber a nossa idade...
Tal como o Rio Amarelo, não é clara.


III.

Os meus poemas são poemas,
ainda que certas pessoas os chamem de sermões. 
Bem, poemas e sermões têm de facto algo em comum:
quando os lês, deverás ser cuidadoso.
Tem atenção a cada linha, mergulha em cada detalhe.
Não digas apenas que são fáceis.
Se viveres a tua vida deste modo,
imensas coisas curiosas poderão acontecer.


IV.

Ganância, ira, ignorância: 
bebe longamente destes vinhos envenenados 
e ébrio repousa na escuridão, nada sabendo...
Faz da riqueza o teu sonho: 
e o teu sonho será uma gaiola de ouro. 
A amargura é a causa de todo o azedume.
Desiste de tudo ou vive no seio da ilusão.
É bom que despertes rapidamente.
Desperta e retorna a casa.



Shih Te (séc. IX) ¹




(Versões de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por J. P. Seaton em "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)





(1) Mais um nome cuja história de vida permanece maioritariamente na obscuridade. Aliás, como o poema que nesta publicação surge em segundo lugar permite adivinhar, "Shih Te" nem sequer é um nome por si só, mas uma alcunha, podendo significar "órfão", como se optou, mas igualmente "abandonado", "sem tecto" e até "acolhido" ou "adoptado". 
Uma das histórias possíveis de serem aceites conta que, um dia, Feng Kan, um monge poeta do templo Kuo-ch'ing, nas montanhas T'ien-t'ai, passeando por uma povoação perto desse local, escutou o choro de uma criança. Teria ela aproximadamente dez anos de idade, e fora abandonada pelos seus pais. O monge acolheu a criança e levou-a para o seu templo, que o eremita Han-Shan costumava visitar em busca de trabalhos pontuais, ficando o jovem abandonado a desempenhar diversos papéis na cozinha do edifício religioso. 
Shih Te, Han Shan e Feng Kan formaram um trio célebre e uma amizade profunda, embora o nosso poeta de hoje fosse consideravelmente mais novo que os outros dois. Escreveram diversos poemas, espalhados por rochas e cercas, além do local tradicional de registar a palavra escrita, todos eles trabalhos com óbvias influências do pensamento budista, mas não só. De Shih Te terão sobrevivido cerca de cinquenta poemas, todos eles muito breves, não mais que dez linhas, em regra, compostos de modo bastante directo e simples. A influência de Han Shan nos seus escritos é inegável. 
O problema maior, no que toca à autenticação dos trabalhos, reside no facto de Shih Te ser um apelido que muito provavelmente foi adoptado por outros que escolheram «a via do eremita» na quietude da famosa montanha. Significando, entre outras coisas, "órfão", como já se sabe, muitos ter-se-ão visto e sentido em lugar idêntico, espiritualmente falando, começando a assinar os poemas que então escreviam com a mesma nomenclatura. De facto, dos poemas recolhidos que registavam tal nome as discrepâncias de género e estilo são notórias, o que levanta fundamentadas suspeitas. Não será, pensa-se, o caso dos poemas aqui apresentados, legitimados por uma maior lógica de traçado e conteúdo, não obstante a dificuldade de tal certificação. 






(Shih Te e seu "irmão" Han Shan)




quinta-feira, 22 de junho de 2017

Quatro Haiku de Kawai Chigetsu


I.

Sozinha na cama,
escuto um mosquito macho
murmurar uma triste canção. ¹


II.

Como espantalhos,
solitárias e encantadoras
- as minhas irmãs monjas. ²


III.

Um rouxinol do bosque ³
- minhas mãos no lava-loiça
repousam por instantes.


IV.

Chorando como se fosse 
dona de toda a solidão 
- uma pomba no outono. 




Kawai Chigetsu (1634? - 1718). ⁴





(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções em inglês de Makoto Ueda, em "Far Beyond The Field - Haiku by japanese women" (Columbia University Press, 2003))







1) Haiku provavelmente escrito por volta de 1686, pouco tempo após a morte do seu marido.


2) Refira-se que apesar do que o poema poderá sugerir, Chigetsu, ao contrário de outras viúvas suas conhecidas, nunca se internou em qualquer convento, apesar de muitas vezes surgir conotada como "monja", permanecendo nos derradeiros anos em sua casa, desfrutando da vida familiar, muito depois de ter rapado totalmente o seu cabelo. O haiku foi escrito em 1692, no sétimo aniversário da morte do marido, uma data significativa para os preceitos budistas. 


3) A versão inglesa propõe a forma "bush warbler", ou seja, "toutinegra do bosque". Contudo, no poema original surge a palavra uguisu, que em inglês corresponde literalmente a "rouxinol japonês do bosque", o Horornis diphone, exemplar típico do Japão e de outros países asiáticos. Ou seja, um tipo de rouxinol em concreto e não um tipo mais vago de ave que a tradução inglesa poderia sugerir. Naturalmente, compreende-se a omissão do termo que faz referência à sua terra nativa, pois a autora nunca o utilizaria. Transpondo tudo isto para o português, dado que a espécie não existe por cá, poder-se-ia utilizar a sua versão mais aproximada, que seria o rouxinol-bravo (Cettia cetti), dado pertencer, como o seu primo japonês, à alargada família dos Cittiidae e, como este, tratar-se de um exemplar mais facilmente escutado do que observado, um amante de densas matas. Contudo, uma vez que o espécime português não existe na Ásia, e considerando também a extensão desta família de aves canoras insectívoras, optou-se pela forma que mais fielmente indica o género de pássaro cujo canto mereceu por parte de Chigetsu uma pausa nas suas tarefas diárias - o rouxinol do bosque.


4) Muito pouco se sabe sobre os primeiros anos desta autora. Apenas que terá nascido em Usa, perto de Quioto, e que enquanto jovem serviu na corte imperial. Casou-se com Kawai Saemon, um importante mercador que geria um extenso negócio de transportação em Otsu, perto do lago Biwa. Após a sua morte, dado que nunca geraram filhos, Chigetsu acabou por adoptar o seu irmão mais novo e fazer dele o herdeiro do negócio da família. Curiosamente, seria este quem iria introduzir a autora no mundo da poesia. Tendo sido um dos discípulos de Basho, Otokumi e a irmã convidavam amiúde o grande poeta para visitar a sua casa, compondo poemas (haiku e renku) juntos. Na verdade, Basho e Chigetsu tornar-se-iam grandes amigos, além de mestre e discípula. Muitos estudiosos afirmam até que Basho, solteiro inveterado, nunca terá sido tão íntimo de outra mulher que não Chigetsu, dez anos mais velha que ele. Esta, com o auxílio de sua nora, teceram a roupa que Basho usou na sua famosa viagem. Existe, inclusive, uma história curiosa que terá ocorrido numa das vezes em que o mestre do haiku ficou em casa da poetiza, e esta, sabendo iminente a partida, lhe terá pedido uma recordação sua. Basho terá dito o seguinte: «Alguém que está prestes a completar sessenta anos pede-me uma recordação. Que deprimente! Deverá desejar que eu morra primeiro que ela!». Mas, rindo, Basho acedeu, oferecendo-lhe uma fotografia sua e a cópia de um dos seus manuscritos.
Chigetsu viria a falecer uma avó feliz, em 1718.










quarta-feira, 31 de maio de 2017

Três de "Os cinquenta poemas do ladrão de amor"



Mesmo agora     assalta-me a recordação
Desses olhos de corça assustada
Dessa voz trémula     das lágrimas que lhe invadiam
A face     da cabeça vergada sob o peso da amargura
Quando escutou a minha sentença




Mesmo agora     por mais que me esforce
Não me recordo de alguma vez ter contemplado
Um rosto como o seu     A sua beleza
Eclipsa a da deusa do amor e a da lua




Mesmo agora     o meu coração sofre noite
E dia     por nunca mais poder voltar
A ver     nem que seja por um instante
Esse rosto belo como a lua cheia
Cuja frescura faz empalidecer os jasmins






Bilhana Kavi (séc. XI)






(Versões de Jorge Sousa Braga in "Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo (e outros poemas eróticos da Índia antiga)" - Assírio & Alvim, 2004)










("Lonely Lady on Terrace", Virahini Nayika)




segunda-feira, 15 de maio de 2017

O convite de Han Shan


Deste o primeiro passo no caminho de Han Shan?

A estrada de Han Shan não tem fim!
O desfiladeiro é longo: rochedos, rochedos
e mais rochedos erguem-se por todo o lado.
A torrente do rio é vasta, e os juncos 
quase ocultam a grande distância da outra margem.
O musgo é escorregadio, mesmo num dia sem chuva.
Os pinheiros cantam: o vento é suficientemente real.

Quem se apronta a num salto se libertar 
dos rastros do mundo e comigo se sentar 
entre alvas nuvens?





Han Shan (circa 700 - 780)







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por J.P. Seaton, in "Cold Moutain Poems" - Shambhala Publications, 2013)








(O sorriso de Han Shan, o "Buda da Montanha Fria")



terça-feira, 2 de maio de 2017

CANÇÃO XIV


O rio e as suas ondas
são um só movimento.
Onde está a diferença
entre o rio e as suas ondas?

Quando a onda se ergue,
é água que se levanta;
quando a onda tomba,
é água que cai.

Amigo: onde reside
a diferença?

Só porque foi nomeada onda
deverá não mais
ser considerada água?

Dentro do Brahma (*) supremo,
os mundos contam-se
como as contas dum rosário.

Observa esse rosário
com olhos de sábio.





Kabir (1440 - 1518)




(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore - "Songs of Kabir", 1915).







(*) Brahma é o primeiro deus da sagrada trindade do hinduísmo, a Trimurti, seguido de Vishnu e Shiva. Originalmente dotado de cinco cabeças e oito braços, representa a força criadora do Universo. À semelhança da noção católica de "Deus", Brahma é visto como o "Criador" por excelência, senhor de todo o conhecimento. Uma das possíveis traduções do seu nome é a de "Realidade Última", embora sobre este tema as opiniões sejam bastante divergentes.
Iconograficamente é representado por quatro cabeças, uma por cada Veda (os livros sagrados do hinduísmo), e em quatro dos seus oito braços ampara um rosário (note-se a referência no poema) simbolizando o tempo, um recipiente com água, uma espécie de colher e os sagrados textos dos Vedas.
Apesar de num passado remoto ter gozado de uma enorme popularidade, com o dobrar dos séculos foi perdendo-a para as outras divindades da mesma trindade. Restam actualmente poucos templos em sua honra. O mais emblemático situa-se em Pushkar.








(Fonte: Smithsonian Ocean Portal)



quarta-feira, 19 de abril de 2017

Um de "Os cinquenta poemas do ladrão de amor"



Mesmo agora   se a visse de novo
A essa rapariga de olhos de lótus
O corpo soçobrando devido ao peso dos seios
Estreitá-la-ia entre os meus braços
E beberia da sua boca como um louco
Como uma abelha insaciável   sugando uma flor



Bilhana Kavi (séc. XI) (*)





(Versão de Jorge Sousa Braga a partir das traduções em línguas ocidentais da versão comum no norte da Índia, in "Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo (e outros poemas eróticos da Índia antiga)" - Assírio & Alvim, 2004)




(*) Trata-se de um poeta nascido em Caxemira, Índia, no século XI da nossa era, ao qual se atribui a autoria deste Caurapankasika, ou "Os cinquenta poemas do ladrão de amor", donde se retirou este que hoje aqui se partilha - o terceiro de cinquenta, conforme o organiza a versão portuguesa, dado que se trata, na verdade, da terceira estrofe de um só poema, composto por cinquenta estrofes. 
Segundo a lenda, o Rei Madanabhirama elegeu Bilhana como preceptor de sua filha, mas o relacionamento de ambos cedo escalou para algo de mais íntimo e intenso. Descoberto o crime, Bilhana foi encarcerado e condenado à morte por empalamento - embora neste ponto os relatos divirjam, pois em certas versões o poeta é condenado à forca e, noutras, ao exílio. Uma facção dessas histórias refere que a presente obra terá sido escrita em sânscrito na prisão, enquanto Bilhana aguardava o seu julgamento; outras, nitidamente carregadas de um maior fôlego poético, afirmam que as estrofes terão sido declamadas enquanto o poeta subia, um por um, os cinquenta degraus que o levariam ao cadafalso, compondo assim um poema (ou estrofe, como vimos) por degrau. Segundo esta versão, a beleza dos versos nascidos desse tão inspirado improviso era tal que a própria deusa Kali, uma manifestação da deusa Parvati, esposa de Shiva, intercedeu junto do Rei para que a condenação não fosse levada a cabo.
Independentemente do que terá realmente acontecido, já que a ausência de provas claras levou ao incremento de versões fantasiosas sobre o nascimento deste longo poema, a verdade é que o Caurapankasika é uma das obras mais populares da Índia antiga, preservada pela tradição oral, o que justifica os diversos manuscritos a respeito existentes, não só elaborados em diferentes línguas como com desenlaces distintos entre eles. 
Foi o primeiro trabalho literário de origem hindu a ser traduzido para uma língua europeia - no caso o francês, em 1848.











sexta-feira, 7 de abril de 2017

CANÇÃO XVII (excerto)


O mundo inteiro realiza as suas obras
e comete os seus erros,
mas poucos são os amantes
que conhecem o Amado.

O indagador devoto 
é aquele que em seu coração 
une o fluxo do amor e do desapego,
como se unem os rumos
do Ganges e do Jumna. (1)

No seu coração, a sacra água 
fluirá de dia e de noite.
E, assim, a sucessão 
de nascimentos e mortes
conhecerá o seu fim.





Kabir (1440 - 1518)



(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore in "Songs of Kabir", 1915).





(1) Dois dos sete rios sagrados da Índia, sendo o Jumna, ou Yamuna, um afluente do famoso Ganges.









(Gravura de Samsara, a "Roda de Nascimentos e Mortes")





sexta-feira, 24 de março de 2017

LEMBRANDO A SINOS DOIRADOS


Arruinado e doente: um homem de duas medidas.
Bela e inocente: uma menina de três.
Não nasceu rapaz, mas ainda assim 
foi melhor do que não ter nenhum.
Para acalmar um sentimento incómodo,
de tempos a tempos um beijo era dado.

Então o dia surgiu. Subitamente levaram-na de mim.
A sombra da sua alma vagueou nem sei por onde.
E quando recordo a hora em que morreu,
e como balbuciava estranhos sons,
estando ainda a aprender a falar, 
lembro como os laços de sangue e carne
apenas nos ligam a uma imensidão
de dor e sofrimento.

Por fim, evocando o tempo
anterior ao seu nascimento,
pelo pensamento e pela razão
pude afastar de mim os lamentos.

Desde que o meu coração a esqueceu
muitos dias se passaram,
e por três vezes o inverno
se transformou em primavera.
Esta manhã, por um momento,
o velho pesar regressou,
ao na estrada encontrar
quem enferma a acolheu
e dela então cuidou.



Bai Juyi (774-846)






(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Arthur Waley).







(Narcisos, os famosos "Sinos Doirados")