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domingo, 13 de abril de 2025

ALÉM DE TUDO

 

O homem que é feliz e puro
E aprecia a sua própria companhia
Colhe o fruto da sua prática
E o fruto da sabedoria.

O homem que conhece a verdade
Nunca está insatisfeito com o mundo.
Pois ele só preenche o universo.

Assim como o elefante adora
As folhas da bosvélia,
Mas evita as folhas de nim,
O homem que a si se ama
Sempre menospreza os sentidos.

É difícil encontrar
Um homem sem desejos
Por aquilo que ainda não provou,
Ou que saboreia o mundo
Mas pelo mundo não se deixa tocar.

Neste mundo
Alguns anseiam pelo prazer,
Outros procuram liberdade;
Mas é difícil encontrar
Um homem que não os queira.

É ele grande em espírito.

É difícil encontrar
Um homem que tenha uma mente aberta,
Que não procure nem evite
Riqueza ou prazer,
Dever ou libertação,
Vida ou morte.

Não pretende que o mundo acabe,
Não se importa se continuar o seu rumo.
O que quer que aconteça a um homem assim,
Ele vive feliz –
Pois é veramente abençoado.

Agora que compreende,
É um homem realizado.
A sua mente é atraída para dentro.
Observa e escuta,
Toca, cheira e saboreia
E é feliz.

O que quer que faça é sem propósito.
Os seus sentidos foram serenados.
Os seus olhos são vazios.
Ele não possui desejo ou aversão.
Para ele, as águas do mundo
Já secaram todas!

Ele não dorme
Nem está acordado.
Nunca fecha ou abre
Os seus olhos.
Esteja onde estiver,
Está além de tudo.
Ele é livre.

E o homem que é livre
Vive sempre no coração.
Tal coração é sempre puro.
Não importa o que acontece,
Ele está além de qualquer desejo.

O que vê ou escuta ou toca,
O que cheira ou prova,
O que adquire,
Permanece livre.
Livre do esforço
E da quietude.

É ele, sem dúvida, grande em espírito.

Sem culpa ou elogio,
Raiva ou júbilo.
Ele nada dá,
Ele nada toma para si.
Ele nada quer,
Nada quer em absoluto.

Quem quer que se aproxime,
Uma mulher exalando paixão
Ou a própria Morte,
Ele não se permite abalar.
Permanece no coração.
Em verdade, é livre!

Para ele, não há diferença:
Homem ou mulher,
Sorte ou azar,
Alegria ou tristeza.
Não há diferença.
Ele permanece sereno.

O mundo não mais o envolve.
Chegou além das amarras
Da natureza humana.
Sem compaixão
Ou desejo de magoar,
Sem orgulho ou humildade.
Nada o perturba,
Nada o surpreende.

Por ser livre,
Não anseia nem despreza
As coisas do mundo.
Recebe-as tal como lhe chegam.
A sua mente vive desapegada.

A sua mente está vazia.
Ele não está preocupado com a meditação
Ou a ausência de meditação,
Ou a luta entre bem e mal.
Só,
Está além de tudo.

Não existe um “eu”,
Não existe um “meu”,
Ele sabe que nada há.
Todos os seus desejos interiores desvaneceram-se.
O que quer que faça,
Ele nada faz.

A sua mente deixou de trabalhar!
Simplesmente diluiu-se…
E com ela
Os sonhos, as ilusões, a dormência.
Não há nome
Para aquilo em que se tornou.



Ashtavakra (? - ?)












(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)










(The Enlightened Journey..., de Archanain)




segunda-feira, 22 de maio de 2023

SABEDORIA

 
Conheces o Ser,
Por sua natureza uno
E sem fim.
Conheces o Ser,
E permaneces sereno.
Como poderás ainda desejar riquezas?
 
Quando em ignorância
Vês prata numa madressilva,
A cobiça desponta.
Da ignorância do Ser
O desejo desperta
Para o mundo onde os sentidos se agitam.
 
Conhecendo-te como Aquilo
Onde mundos erguem-se e desaparecem,
Quais ondas no oceano,
Porque te agitas tão miseravelmente?
 
Não escutaste ainda?
És consciência pura,
A tua beleza não tem fim!
Porque deixas a luxúria enganar-te?
 
O homem sábio
Sabe que se encontra em todas as coisas
E todas as coisas nele mesmo se encontram.
Mas, que estranho!,
Ele ainda diz, “Isto é meu.”
 
Determinado a ser livre,
Permanece na unidade,
Para além de todas as coisas.
Mas, que estranho!,
Entregando-se à paixão, ele fraqueja,
E a luxúria assim o domina.
 
Enfraquecido pela idade,
Ainda é tomado pelo desejo,
Sabendo, sem dúvida,
Que a luxúria é inimiga da consciência.
Que estranho, de facto!
 
Anseia ser livre…
Não tem qualquer interesse por este mundo
Nem pelo próximo,
E sabe aquilo que passa
E aquilo que permanece.
Mesmo assim, que estranho!,
Ainda teme a liberdade.
 
Mas aquele que é realmente sábio
Sempre vê o Ser absoluto.
Celebrando, não se deleita;
Rejeitando, não se enfurece.
 
Puro de coração,
Observa as suas próprias acções
Como se fossem doutra pessoa.
Como poderá o elogio ou a culpa perturbá-lo?
 
Com visão limpa e firme,
Observa como o mundo é uma miragem
E assim não mais se questiona sobre ele.
Como poderá temer a chegada da morte?
 
Puro de coração,
Nada deseja,
Mesmo em desespero.
Satisfaz-se
No conhecimento do Ser.
A quem poderei compará-lo?
 
Com visão limpa e firme,
Ele sabe que tudo o que vê
Nada é, por sua natureza.
Como poderá preferir uma coisa a outra?
 
Ele está além de toda a dualidade.
Livre do desejo,
Varreu de sua mente
Todo o anseio pelo mundo.
Venha o que vier,
Alegria ou pesar,
Nada o moverá.





Ashtavakra (? - ?)












(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)









 


"Pearl Of Wisdom"
Jean Filson



domingo, 12 de dezembro de 2021

SÊ O PRÓPRIO SOL

 
Aquele que é sincero na sua busca espiritual deverá transcender as alegrias e os prazeres, meros reflexos da glória divina. Não deverá permitir que coisas tais o satisfaçam; ainda que provenham de Deus, que existam pela graça divina e possuam a radiância da beleza divina, não são eternas. O que é domínio de Deus é eterno, o que é domínio do Homem efémero é.

Pensa nos raios de sol cintilando sobre as casas. São raios de sol, e por isso são luz, mas estão ligados ao sol, não às casas. Quando o sol se põe, a sua luz desvanece. O que temos a fazer, então, é ser o próprio sol, para que todo o medo, que nasce da separação, possa finalmente, e para sempre, cessar. 




Rumi (1207 - 1273),
in "Cartas".










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Andrew Harvey in "Teachings of Rumi" - Shambhala Pub., 1999.)














(Sem título - 
Nicki Geigert)





quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Cinco poemas de Hafiz, o místico poeta persa

 
I.

Um poeta é alguém
que verte luz para uma colher,
e depois ergue-a para nutrir
a tua boca ressequida, bela, sagrada.


II.

De manhã,
enquanto despertava,
aconteceu outra vez:

aquela sensação
que Tu, Amado,
havias permanecido
sobre mim, de vigia,
a noite inteira;

uma sensação dizendo
que assim que começasse
a ficar agitado
encostarias os Teus lábios
à minha testa,
e acenderias uma candeia
dentro do meu coração.


III.

Um dia, o sol admitiu:
sou apenas uma sombra.

Como desejaria mostrar-vos
a Eterna Incandescência
que projectou
a minha cintilante imagem!

Como desejaria revelar-vos,
quando estais sós
ou rodeados de sombras,
a deslumbrante luz
daquilo que em verdade são!


IV.

Raramente deixo a palavra não
escapar da minha boca,
pois para a minha alma é tão óbvio
que Deus disse sim! sim! sim!
a todo o luminoso movimento
que acontece na existência.


V.

Sou feliz, mesmo antes de ter motivo.

Estou cheio de luz, mesmo antes
do céu saudar o sol ou a lua.

Queridos amigos,
estamos enamorados de Deus
há muito, muito tempo.

Que pode Hafiz agora fazer,
se não dançar para sempre?





Hafiz (1320 - 1389)













(Versões de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Daniel Ladinsky in "I Heard God Laughing: Poems of Hope and Joy - Renderings of Hafiz", Penguin Books, 2006.)
















(Gravura de Hafiz,
por Abolhassan Sadighi
(1894 - 1995))


sábado, 4 de abril de 2020

CANÇÃO LXXVIII


Kabir diz: Ó sadhu¹, escuta
as minhas imortais palavras!
Se desejas o teu próprio bem,
examina-as atentamente.

Afastaste-te do Criador, donde brotaste
perdeste a tua razão, compraste a morte.

Todas as doutrinas e ensinamentos
Dele despontam, Dele crescem:
faz disto a tua certeza e não temas.

Escuta de minha boca
as novas desta grandiosa verdade!

De quem é o nome que cantas,
e em quem meditas?
Oh, sai dessa confusão!

Ele reside no coração de todas as coisas;
porquê tomar refúgio numa desolação vazia?

Se deixares o Guru² a certa distância de ti,
então será apenas a distância
que honrarás; se o Mestre, de facto,
longe estiver, então quem é esse
que vai criando este mundo?

Quando julgas que Ele aqui não está,
deambulas para longe, cada vez mais longe
procurando-O em vão, cheio de lágrimas.

Sempre que O achares longe,
será inatingível; quando perto está,
é Ele o êxtase. 

Kabir diz: Para que o Seu servo não sofra,
Ele o permeia vezes sem conta.

Conhece-te a ti mesmo, então, ó Kabir;
pois Ele está em ti da cabeça aos pés.
Canta com alegria e mantém imóvel
o teu lugar no coração.





Kabir (1440 - 1518)











(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore em "Songs of Kabir", 1915).











(1) Um termo bastante comum para designar um asceta, um praticante de ioga, um monge itinerante ou um místico. Em suma, alguém que percorre uma via de transcendência da matéria, visando assim a sua comunhão com o divino. De modo mais corrente poderá ser entendido como "aprendiz" ou "devoto". Devido à variedade de significados que lhe são atribuídos, opta-se por deixar o termo na sua forma original. 



(2) Vulgo "Mestre". Kabir utiliza muitas vezes esta palavra para se referir a Deus ou, de modo mais generalizado, extrapolando conceitos religiosos rígidos, ao Divino.













(Gravura ilustrando Kabir no seu tear - aut. desc.)



quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

CANÇÃO LXXVII


Oh, deixa que juntos rumemos 
ao país onde reside o Amado, 
o carrasco do meu coração!

Aí o Amor enche o seu vasilhame
com água do poço, embora
não possua corda para o fazer;

aí as nuvens não cobrem o céu,
porém a chuva tomba gentilmente.
Oh tu, que corpo não possuis! 
Não te sentes na soleira da porta, 
dá um passo em frente
e banha-te nessa chuva!

Aí há sempre luar, mas nunca escurece;
e quem fala dum sol apenas?
Essa terra ilumina-se 
por mil raios de mil sóis.





Kabir (1440 - 1518)










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore in "Songs of Kabir", 1915.) 














(Nirvana, de Andra Ponomarenco)





sexta-feira, 1 de novembro de 2019

O AVÔ E O NETO


A misteriosa Índia. Um entardecer cálido e alaranjado. As andorinhas traçavam arabescos sobre o firmamento ilimitado. Um avô sábio caminhava feliz junto do seu neto. Era um menino vivaz e esperto, cheio de inquietudes espirituais, ávido de respostas.

- Avô - disse ele, quebrando o perfeito silêncio da tarde. - Quero perguntar-te uma coisa: quando o corpo morre, o que acontece?
- O corpo morre, mas o Ser nunca morre. Ele é o Ser de todo o Universo. É a essência subtil de tudo o que existe.
- Ó avô! - exclamou o menino. - Não percebo... podes explicar melhor?

O avô disse:

- Vai buscar um fruto daquele castanheiro e traz-mo. 

O menino, desembaraçado, pegou numa castanha e manteve-a entre as suas mãos.

- Tira-lhe a casca - disse o avô - e diz-me o que vês.
- O fruto.
- Abre o fruto. O que vês?
- Grãos - disse o menino.
- Abre um grão. O que vês?
- Grãozinhos minúsculos.
- Abre um. O que vês?
- Nada querido avô, nada.

E o avô declarou:

- Essa essência subtil que tu não vês é o Ser. Mantém a grande árvore de pé. Mantém-nos vivos a ti e a mim. Faz com que o rio flua e o fogo arda. Anima todos os vastos espaços. Tu, meu muito querido, muito amado neto, não vês essa essência subtil, mas está aí. Ela respira em ti, pensa em ti, fala em ti. 

O menino, satisfeito, agarrou a mão trémula e envelhecida do seu querido avô. Caminhando aprazivelmente, fundiram-se com o horizonte como o açúcar se funde com a água.




Anónimo.







(Texto recolhido por Ramiro Calle e antologiado em "Os Melhores Contos Espirituais do Oriente" - A Esfera dos Livros, 4ª ed., setembro de 2010, tradução de Margarida Cardoso de Meneses.)












("Smiling Old Man" - Rozller)



domingo, 13 de outubro de 2019

ARUNI E SVETAKETU


Svetaketu era um jovem com muitos desassossegos espirituais e também com muita confusão mental. Ouvia muitas vezes falar da Consciência ou Ser, naquele em que os hindus crêem, mas ele continuava sem compreender quando lhe diziam que o Ser tudo permeia e em tudo se diversifica. Como é isso possível?, questionava-se inquieto e desorientado. 

Como Svetaketu tinha um óptimo relacionamento com o pai, Aruni, resolveu consultá-lo. O pai explicou-lhe: 

- Querido filho, assim como as abelhas preparam o mel recolhendo o néctar de diversas plantas para com ele fazer a sua essência, assim como o néctar não consegue discriminar e dizer: «eu sou desta planta e não sou daquela», também as criaturas não sabem que estão imersas no Ser Supremo. 

Quando Svetaketu fez doze anos foi enviado a um mestre para ser instruído nos Vedas¹ durante os doze anos seguintes. 

Depois desses doze anos terem passado, o jovem achava que era um sábio e por isso se tinha tornado arrogante e muito vaidoso. De regresso à casa paterna, Aruni logo se apercebeu do temperamento do filho e disse-lhe: 

- Por te julgares sábio, meu filho, tornaste-te arrogante. Que tristeza! Contudo, não sabes que o Ser Supremo é aquele pelo qual o que não se ouve é ouvido, o que não se pensa é pensado e o que não é conhecido se conhece. 

Era certo que o jovem não sabia nada disto. Como, sem dúvida, era inteligente, apercebeu-se da sua ignorância e com humildade disse: 

- Meu pai, ensine-me essas verdades. 

Aruni começou a falar: 

- Querido filho, da mesma forma que conhecendo um pedaço de argila se conhece tudo o que é feito de argila, pois todas as variantes não passam de nomes e cada nome não é mais do que uma palavra, enquanto a argila é a verdade, o real. Meu filho, da mesma forma que conhecendo um lingote de ouro, ou de cobre ou uma jóia se conhece tudo o que é feito com esses materiais, uma vez que todas as variantes não passam de nomes e cada nome não é mais do que uma palavra, e o ouro e o cobre são a verdade, o real. Da mesma forma, meu filho, que quando temos conhecimento de uma tesoura de ferro tudo o que é de ferro se conhece, pois todas as variantes não são mais que nomes e os nomes não são mais que palavras, e o ferro é a única realidade. 

Então o jovem apercebeu-se de quão grande mestre era o pai. Também compreendeu com lucidez que ele e o pai eram animados pelo mesmo Ser. Pai e filho abraçaram-se. A dualidade na realidade. 

--------- 

«Ainda que as pérolas do colar sejam inúmeras, o fio que as encadeia é um e o mesmo.»





Anónimo. 




("Contos Espirituais da Índia", A Esfera dos Livros, Maio de 2019 - Antologia organizada por Ramiro Calle.)










(1) Os Vedas são um conjunto de quatro livros que formam a base das sagradas escrituras do hinduísmo, tendo o mais antigo de todos, no mínimo, quatro mil anos de existência.














quarta-feira, 7 de agosto de 2019

CANÇÃO XXXIII


Para quê a palavra,
quando o amor tornou
ébrio o coração?

Embrulhei o diamante
no meu manto. Para quê
desenrolá-lo uma e outra vez?

Quando a carga era leve,
o prato da balança subia.
Agora que está cheio,
para quê pesá-lo?

O cisne levantou voo
rumo ao lago além-montanhas.
Por que deverá continuar
à procura de charcos e valas?

O teu Senhor habita em ti.
Para quê abrir os olhos exteriores?

Kabir diz: Escuta, irmão:
o meu Senhor, que o olhar me arrebata,
a mim se uniu. 





Kabir (1440 - 1518)








(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore - "Songs of Kabir", 1915).













(Golden Afternoon Meditation, 
de Laura Iverson.)




sábado, 20 de abril de 2019

CANÇÃO XL


É-me muito querido
aquele que consegue chamar
o vagabundo de volta a casa.

Na casa reside a verdadeira união,
o desfrutar da vida. Porque deverei
abandonar a minha casa
e deambular pela floresta?

Se Brahma me auxilia
a compreender a verdade, 
é certo que em casa encontrarei
tanto servidão como libertação.

É-me muito querido
aquele que tem o poder de mergulhar 
profundamente em Brahma,
cuja mente de si mesma brandamente 
se despega em sua contemplação.

É-me querido aquele que conhece Brahma
e pode residir na sua suprema verdade
em meditação; e aquele que pode tocar
a melodia do Eterno através da união,
em vida, do amor e da renúncia.

Kabir diz: A casa é o lugar da permanência;
em casa está a realidade; a casa auxilia 
a alcançar Aquele que é real.
Por isso, permanece onde estás
- e todas as coisas, no seu tempo, a ti virão.





Kabir (1440 - 1518)










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore em "Songs of Kabir", 1915).

















domingo, 30 de dezembro de 2018

MORRE AGORA PARA TI MESMO


Tens suportado imensos, terríveis lamentos,
mas ainda vives debaixo de um véu
- pois morrer para ti mesmo
é o princípio fundamental
que ainda não abraçaste.

O teu sofrimento não terminará
antes que esta morte se complete:
não poderás alcançar o telhado
até subires ao topo da escada.

Como poderás sequer experienciar
o completo naufrágio da tua embarcação 
antes de a teres carregado
com a carga final?

Esta carga derradeira é essencial;
é uma estrela que invoca a noite
e faz naufragar o barco do erro.
Quando o barco da autoconsciência 
estiver finalmente partido e afundado,
tornar-se-á assim como um sol
inundando um céu sem nuvens. 

Mas, uma vez que ainda não estás morto,
a tua angústia prevalece.
Oh, candeia de Taraz¹, morre ao amanhecer!
O sol deste universo esconde-se 
até que todas as estrelas estejam ocultas. 

Não poderás vir a conhecer Deus,
apenas negar o que se Lhe opõe.
Desejas a revelação da Realidade? Escolhe a morte!
Não aquela que te arrasta para o túmulo,
mas a morte que é transformação
- para que enfim sejas Luz. 





Rumi (1207 - 1273)










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Andrew Harvey in "Teachings of Rumi" - Shambhala Pub., 1999)









(1) Taraz é uma cidade situada no actual Cazaquistão. Diz contar com mais de dois mil anos de idade, tudo devido a uma fortaleza em ruínas que remonta ao tempo do domínio chinês na zona. O seu nome inicialmente seria Talas, embora na antiguidade a designação Taraz também surja amiúde, talvez por derivação. Desde então a cidade mudou várias vezes de nome, até se fixar na sua derivação antiga - mas apenas em 1997. Durante o século XIII, o tempo de vida de Rumi, a cidade, outrora próspera por ser um local de paragem da famosa Rota da Seda, encontrava-se em nítido declínio. 
Qual, portanto, a relevância desta referência no contexto do poema? O tradutor não a esclarece nem a nossa pesquisa foi muito produtiva nesse aspecto, embora se a referência for à cidade o seu significado e relevância torna-se muito diminuto. Acontece que em persa antigo, o dialecto em que Rumi escrevia, "taraz" é um adjectivo que poderá significar beleza ou harmonia. Existe uma referência a tal num poema da antiguidade, autoria de Nizami (1141 - 1209): "sham' i - taraz", traduzido por "bela ou harmoniosa candeia (ou vela)" (Metaphor and Imagery in Persian Poetry, Ali Asghar Seyed-Gohrab, Brill, Lieden - Boston, 2012 - Pág. 98). Assim sendo, tratar-se-á de um erro de tradução? Assumindo "Taraz" como nome ao invés de adjectivo? Sem criticar o trabalho realizado, há que admitir que assim nos parece, pelo que "candeia de Taraz" será assim "bela/harmoniosa candeia", significando, em contexto, uma referência ao próprio Homem. Para todos os efeitos, dada a incerteza, deixámos a versão portuguesa seguir o que na tradução inglesa se escreveu. 











(Fotografia de: Himalayan Institute)


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

PROCURA O BAIRRO DA ALEGRIA


O Sultão Valad, filho do nosso mestre, contou: "Um dia, disse a meu pai: 'Os amigos dizem que sempre que te não vêem sentem dor e a sua alegria interior desaparece'. 
O meu pai respondeu: 'Aquele que se não sentir alegre na minha ausência não me terá conhecido de todo; aquele que realmente me conhece sente-se feliz sem mim - esse será inundado pelo que sou, pelo pensamento de mim com o meu pensamento'. 
E acrescentou: 'Sempre que, meu filho, te encontrares num estado de serenidade mística, sabe que esse estado significa eu em ti' ".
O Sultão concluiu: "É por isto que o meu pai costumava dizer: 'Quando me procurares, procura no Bairro da Alegria. / Nós somos os habitantes do Mundo da Felicidade' ".




(Shams ud-Din Ahmad) Aflaki em Manāqib ul-Ārifīn, uma biografia de Rumi (Séc. XIV).








(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Andrew Harvey in "Teachings of Rumi" - Shambhala Pub., 1999)



















terça-feira, 7 de agosto de 2018

TORNA-TE MAR


Todas as formas que observas têm a sua origem no invisível mundo divino. Assim, o que importa se a forma desaparecer? A sua origem estava no Eterno. 

Não te lamentes por um dia desvanecer cada forma que vês, cada verdade mística que escutas. A Fonte está sempre a deitar água. Nem a Fonte nem a água irão cessar. Para quê o lamento? O teu espírito é uma fonte: dele flui um rio atrás do outro. Coloca todo o teu pesar fora da mente para sempre, e continua a beber de tais águas. Nada temas. A água não tem fim.

Quando chegaste a este mundo de coisas criadas, uma escada foi colocada junto de ti para que o pudesses transcender. (...) Então terás terminado a vivência neste mundo e a tua casa será o mundo-luz do Paraíso. Vai para além disso (...). Mergulha no vasto Oceano, para que a gota - tu próprio - possa tornar-se um Mar.






Rumi (1207 - 1273)









(Versão, em excerto, de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Andrew Harvey in "Teachings of Rumi" - Shambhala Pub., 1999)














sábado, 9 de junho de 2018

CANÇÃO XXXIV


Como poderá romper
o amor que há entre Tu e eu?

Como a folha do lótus
permanece sobre a água,
assim o meu Senhor 
- e eu sou um servo seu.

Como a perdiz¹ contempla
a noite inteira a lua,
assim o meu Senhor
- e eu sou um servo seu.

Desde o começo ao fim dos tempos,
vive o amor entre Ele e eu.
Como poderá extinguir-se?

Kabir diz: como o rio
entra no oceano, assim
meu coração O toca.





Kabir (1440 - 1518)








(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore em "Songs of Kabir", 1915).










(1) No inglês "chakor", isto é, a Alectoris Chukar, um género da família das Phasianidae, onde se incluem a nossa bem conhecida perdiz e também o faisão. É uma ave muito comum no Médio Oriente e no Sudeste Asiático, sendo inclusive um símbolo nacional do Paquistão. Apesar de poder ser vista no Leste da Europa, nos últimos anos esta espécie tem sido introduzida em regiões mais a ocidente, nomeadamente em países como França, Espanha e Portugal. 
No que toca à versão deste poema-canção, poderíamos optar pela tradução comummente aceite, a de Perdiz-chucar. Contudo, considerámos que a especificação do exemplar nada traria de relevante para a melhor compreensão da essência do poema, pelo que se optou pela generalização do termo.