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segunda-feira, 4 de maio de 2020

Três poemas de amor e de saudade de Al-Mu'tamid


I. (Ausência)

repeles-me!
porque deixas minh'alma abandonada?

se a tua ausência é uma longa noite
seja nosso abraço d'amor a alvorada.


II. (Separação)

só eu sei quanto me dói a separação!
na minha nostalgia fico desterrado
à míngua de encontrar consolação.

à pena, no papel, escrever não é dado
sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
linhas de amor na página da face.

se o meu grande orgulho não obstasse
iria ver-te à noite: orvalho apaixonado 
de visita às pétalas da rosa.


III. (Alma Prisioneira)

sinto-me triste com a tua ausência
e ébrio por ti com o vinho da paixão.
anseiam sangue e coração
querendo beijar-te e abraçar-te.

não me queixo! pra quê ocultares-te?
juraram minhas pálpebras não cerrar-se
até que nosso reencontro se consume.

vem amor, confia e não temas:
bem sabes que minh'alma em lume
é a prisioneira das tuas algemas.



Al-Mu'tamid (1040 - 1095) ¹









(Tradução de Adalberto Alves in "Al-Mu'tamid, Poeta do destino", Althum.com, 2016.)



(Nota: Os poemas originais não possuem título. Os que se apresentam foram escolhidos pelo seu tradutor.)








(1) Foi o terceiro e último rei dos Abádidas, uma dinastia que se formou após a queda e desmembramento do Califado de Córdoba, no então designado Al-Andaluz - hoje, Península Ibérica. Foi deles a governação da chamada "Taifa de Sevilha", a mais poderosa da época, destacada pela alta classe cultural da sua corte, e que albergava as actuais cidades de Silves, Faro e Huelva, por exemplo. (Na realidade, chegou a ocupar toda a região sul de Portugal e estendia-se até ao estreito de Gibraltar.) 
Al-Mu'tamid era filho do principal responsável pela expansão de tal Taifa e o seu respeitoso poderio, um rei sanguinário e temível. Nasceu em Beja, o que, à parte do curioso acaso, o torna o primeiro rei-poeta mais destacado a nascer em território agora português. No seguimento da sua existência, revelaria-se um rei ambicioso e um mecenas generoso, mas igualmente um dos poetas mais famosos e amados de todo o Al-Andaluz, reformador até, em diversos sentidos, da poesia árabe então vigente. Não nos espantará tais feitos tendo em conta a educação que recebeu no palácio e as mais distintas figuras que à época o frequentavam. Alguns versos seus foram compilados na magnífica antologia "As mil e uma noites", que nos dias de hoje é ainda amplamente conhecida e admirada.
À faceta de poeta, que partilhou com seu pai, juntaria a de temerário guerreiro. Com apenas treze anos liderará uma expedição militar enviada para combater uma revolta que surge na cidade de Silves (Xilb), e o seu sucesso é total. Graças a tão brilhante vitória, o seu pai nomeia-o governador da cidade. É neste local que vem a conhecer Ibn'Ammar, um poeta que também terá nascido no actual território português, e com o qual desenvolve uma relação de intensa cumplicidade, que o seu pai nunca aprovará. Ainda hoje se especula se entre ambos terá existido uma relação de índole homossexual, embora Al-Mu'tamid se tenha enamorado por várias mulheres ao longo da vida, dentre elas uma escrava marroquina (que acabaria imortalizada pela sua pena).
Quando sobe ao trono, em 1069, nomeia o seu amigo íntimo vizir do reino. E se no começo tudo corria de feição, auxiliando este dedicadamente na contínua expansão do território, culminada com a conquista de Múrcia, Ibn'Ammar, cego pela sua ambição, não tardará a conspirar contra o rei-poeta. Acabará, por isso, morto às suas mãos, a golpes de machado.
Com a crescente ameaça dos reinos cristãos, nomeadamente de Afonso VI de Leão e Castela, Al-Mu'tamid vai perdendo o controlo de um território vasto e rico, que chegou até a contar com a sedutora cidade de Córdoba, até acabar traído, uma vez mais, por aliados islâmicos do norte de África. É precisamente para essa região que será desterrado, ocupando os cinco derradeiros anos de vida com o seu amor de sempre: a poesia.
Faleceu em Agmate, no sul de Marrocos, onde ainda hoje é possível visitar o seu mausoléu, que alberga as sepulturas do poeta, sua esposa e filha. 






(O Rei-Poeta Al-Mu'tamid - 
Autor desconhecido.)

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

CANÇÃO IV (*)


Não vás ao jardim florido:
amigo, não vás.
Em ti mesmo reside esse jardim.

Toma o teu lugar no seio 
de milhares de pétalas de lótus,
e daí contempla a Beleza Infinda.




Kabir (1440 - 1518)




(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore, em "Songs of Kabir" - 1915).





(*) Apesar de breve, esta canção/poema de Kabir encerra uma enorme significância. Desde logo por se tratar de um apelo indirecto à meditação. Repare-se, portanto, como serenamente instiga o leitor a abandonar a busca exterior e a centrar-se dentro do seu próprio ser, a visitar o seu próprio jardim interior.  Depois, pelo recurso à imagem do lótus. Como é sabido, é uma imagem de enorme carga espiritual, utilizada tanto por budistas como por hindus, que representa, sumariamente, o florescimento espiritual do Homem ou, em alternativa, o seu potencial florescimento espiritual. Note-se que a dita flor finca as suas raízes na lama, muitas vezes considerada como uma metáfora do efémero ou do mundo da matéria, e ainda assim, quando desabrocha, brinda o mundo com a sua beleza ímpar. Ou seja, mesmo tendo um corpo, mesmo correndo o risco de se perder em ilusões (as armadilhas de Maya), o Homem encerra em si esse potencial extraordinário: a hipótese de se tornar um ser veramente iluminado, transcendente, uma janela aberta ao Divino. Sabemos que Kabir teve contacto directo com o pensamento e as práticas hindus e muçulmanas, mas é igualmente provável que a doutrina budista tenha chegado ao seu conhecimento. Pois a imagem que o último terceto sugere lembra uma em que o próprio Buda surge por diversas vezes ilustrado: em profunda meditação no centro de uma imensa flor de lótus (ver abaixo). A imagem não é exclusiva do budismo, diga-se, mas não deixa de ser possível a sua associação, pelo que agora se poderá interpretar toda esta canção/poema como um convite à vivência do próprio estado de Buda - o florescimento do lótus que em semente todo o Homem traz ao peito.








sexta-feira, 15 de julho de 2016

CANÇÃO I


Oh servo, onde me buscas?
Observa! Estou junto a ti.

Não me encontrarás no templo nem na mesquita;
não estou na Caaba nem no Kailash (1),
nem nos ritos e nas cerimónias, 
ou no Yoga e na renúncia.

Se fores um verdadeiro indagador
de pronto verás, encontrar-Me-ás 
num instante de tempo.

Kabir afirma: Oh, aprendiz! 
Deus é o sopro de todos os sopros.




Kabir (1440 - 1518)


(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore ("Songs of Kabir", 1915)).



(1) Caaba, "O Nobre Cubo", é uma construção ancestral que segue o rigor dessas formas geométricas. Encontra-se em Meca e é um objecto de veneração por parte dos devotos muçulmanos, já que alberga a "Pedra Negra", uma das relíquias mais sagradas do Islão. Por sua vez, Kailash é um monte situado no Tibete, local sagrado tanto para budistas como para hindus. O rio Ganges tem nele a sua nascente. Kabir, como se comprova, tenta aqui transcender os preceitos teóricos de ambas as religiões, com as quais privou de perto.