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quarta-feira, 31 de maio de 2017

Três de "Os cinquenta poemas do ladrão de amor"



Mesmo agora     assalta-me a recordação
Desses olhos de corça assustada
Dessa voz trémula     das lágrimas que lhe invadiam
A face     da cabeça vergada sob o peso da amargura
Quando escutou a minha sentença




Mesmo agora     por mais que me esforce
Não me recordo de alguma vez ter contemplado
Um rosto como o seu     A sua beleza
Eclipsa a da deusa do amor e a da lua




Mesmo agora     o meu coração sofre noite
E dia     por nunca mais poder voltar
A ver     nem que seja por um instante
Esse rosto belo como a lua cheia
Cuja frescura faz empalidecer os jasmins






Bilhana Kavi (séc. XI)






(Versões de Jorge Sousa Braga in "Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo (e outros poemas eróticos da Índia antiga)" - Assírio & Alvim, 2004)










("Lonely Lady on Terrace", Virahini Nayika)




quarta-feira, 19 de abril de 2017

Um de "Os cinquenta poemas do ladrão de amor"



Mesmo agora   se a visse de novo
A essa rapariga de olhos de lótus
O corpo soçobrando devido ao peso dos seios
Estreitá-la-ia entre os meus braços
E beberia da sua boca como um louco
Como uma abelha insaciável   sugando uma flor



Bilhana Kavi (séc. XI) (*)





(Versão de Jorge Sousa Braga a partir das traduções em línguas ocidentais da versão comum no norte da Índia, in "Os Cinquenta Poemas do Amor Furtivo (e outros poemas eróticos da Índia antiga)" - Assírio & Alvim, 2004)




(*) Trata-se de um poeta nascido em Caxemira, Índia, no século XI da nossa era, ao qual se atribui a autoria deste Caurapankasika, ou "Os cinquenta poemas do ladrão de amor", donde se retirou este que hoje aqui se partilha - o terceiro de cinquenta, conforme o organiza a versão portuguesa, dado que se trata, na verdade, da terceira estrofe de um só poema, composto por cinquenta estrofes. 
Segundo a lenda, o Rei Madanabhirama elegeu Bilhana como preceptor de sua filha, mas o relacionamento de ambos cedo escalou para algo de mais íntimo e intenso. Descoberto o crime, Bilhana foi encarcerado e condenado à morte por empalamento - embora neste ponto os relatos divirjam, pois em certas versões o poeta é condenado à forca e, noutras, ao exílio. Uma facção dessas histórias refere que a presente obra terá sido escrita em sânscrito na prisão, enquanto Bilhana aguardava o seu julgamento; outras, nitidamente carregadas de um maior fôlego poético, afirmam que as estrofes terão sido declamadas enquanto o poeta subia, um por um, os cinquenta degraus que o levariam ao cadafalso, compondo assim um poema (ou estrofe, como vimos) por degrau. Segundo esta versão, a beleza dos versos nascidos desse tão inspirado improviso era tal que a própria deusa Kali, uma manifestação da deusa Parvati, esposa de Shiva, intercedeu junto do Rei para que a condenação não fosse levada a cabo.
Independentemente do que terá realmente acontecido, já que a ausência de provas claras levou ao incremento de versões fantasiosas sobre o nascimento deste longo poema, a verdade é que o Caurapankasika é uma das obras mais populares da Índia antiga, preservada pela tradição oral, o que justifica os diversos manuscritos a respeito existentes, não só elaborados em diferentes línguas como com desenlaces distintos entre eles. 
Foi o primeiro trabalho literário de origem hindu a ser traduzido para uma língua europeia - no caso o francês, em 1848.











quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Quatro poemas japoneses dos períodos primitivo e Nara (até 794 d.C.) (*)


ELOGIO DO SAKÉ


Será que uma jóia
brilhando na noite
pode dar tanto prazer
como beber o saké
que afasta os nossos cuidados?


(Ôtomo no Tabito, 665 - 731)




ESQUECIMENTO


À charneca da primavera
eu fui
colher violetas:
era tão doce a charneca
que lá dormi toda a noite.


(Yamabe no Akahito, 700 - 736)




Mil anos, disseste,
quando os nossos corações se fundiram.
Olho para a mão que seguraste
e a dor é difícil de suportar.


(Sra. Heguri, ? - ?)




AS DUAS FLORAÇÕES


No jardim da primavera,
vermelha, exala o seu perfume
a flor do pessegueiro:
e na vereda que ela ilumina,
uma rapariga imóvel.


(Ôtomo no Yakamochi, 718 - 785)






(Traduções de Luís Pignatelli, in "A Pedra-que-mata, Poesia Japonesa" - Língua morta, 2016)




(*) É bem provável que as origens da poesia japonesa se percam no tempo, embora a mais antiga referência sua date apenas do século VIII da nossa era. Se tomarmos o caso da poesia chinesa, por exemplo, onde subsistem trabalhos datados de um tempo antes de Cristo, podemos concluir que a obra dos seus vizinhos não possui, em termos escritos, uma antiguidade propriamente impressionante. No entanto, crê-se que essa primeira obra, o Kojiki, que compila pedaços da história japonesa bem como da sua peculiar mitologia, contém trabalhos que por gerações terão sido transmitidos por via oral. Tal terá acontecido não graças ao analfabetismo dos seus transmissores, mas por se remeterem a um tempo anterior ao uso da própria escrita. O waka, ou poema, mais antigo que se conhece encontra-se, como é óbvio, registado nesse livro, cuja autoria é atribuída a um kami, ou deus, de nome Susanoo, poema esse que terá sido composto no dia do seu casamento com a princesa Kushinada. É clara a dose mitológica que se injecta na explicação deste poema, mas é graças a ela que, em tempos idos, os japoneses louvavam a poesia como uma criação de génese divina, uma arte fundada por um deus. Importa ainda referir que a antologia poética mais antiga que se conhece denomina-se Man'yoshu, e reúne poemas escritos entre os séculos VII e VIII. Além de versarem sobre o amor e as paisagens locais, surgem nela os primeiros poemas de crítica social.
O período seguinte, Nara, inicia-se quando a capital do país desloca-se para a cidade com esse mesmo nome, no ano de 710. O grande destaque deste período foi igualmente a maior influência recebida pelos poetas que o viveram: o contacto com a poesia chinesa, mais trabalhada e de maior rigidez formal do que aquela que à data os japoneses praticavam. Será escusado dizer que o impacto foi deveras considerável, elevando as matrizes da poesia japonesa para um novo patamar criativo. O primeiro poema que aqui partilhamos é da autoria de um dos poetas mais distintos deste período, pai daquele que assina o último poema dos quatro seleccionados. Se notarmos no elogio que faz às propriedades inebriantes do saké, e então nos recordarmos dos inúmeros poemas que os chineses dedicaram em louvor do vinho, com Li Bai à proa dessa inspirada multidão, não há como negar a concordância de um traçado claramente herdado de um povo um pouco mais desenvolto nas artes da escrita. O aprendiz, contudo, foi década após década abandonando o jugo suave do seu mentor, cuja ruptura acontece de modo completo aquando da chegada do haiku, prática poética da qual Bashô foi um mestre memorável.