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sábado, 3 de junho de 2023

AQUELE QUE É VERDADEIRO NA SUA BUSCA

 
O homem sábio conhece o Ser,
E joga o jogo da vida.
Já o tolo vive no mundo
Como um animal de carga.
 
Aquele que é verdadeiro na sua busca
Não sente euforia, mesmo no estado de êxtase
Que Indra¹ e todos os deuses, infelizes,
Tanto anseiam.
 
Ele entende a natureza das coisas.
O seu coração não está maculado
Pelo certo nem pelo errado,
Assim como o céu não se conspurca pelo fumo.
 
É puro de coração,
Sabe que o mundo inteiro é apenas o Ser.
Quem o poderá impedir
De agir conforme desejar?
 
Dos quatro tipos de ser,
De Brahma² a uma folha de erva,
Apenas o sábio é forte o bastante
Para abandonar o desejo e a aversão.
 
Quão raro um homem assim!
Sabendo que é o Ser,
Age de acordo com o que é
E nunca teme.
Pois ele sabe quem é,
Um sem espaço para Dois,
O Senhor de toda a criação.





Ashtavakra (? - ?)










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)








(1) O deus do céu no Hinduísmo. É associado ao clima e ao fluxo dos rios.


(2) O primeiro deus da santa trindade do Hinduísmo. Representado por diversas faces, é o deus da música e das canções, sendo igualmente considerado uma expressão da força criadora do universo. 












The Seeker,
de Tyler Robbins




terça-feira, 2 de maio de 2017

CANÇÃO XIV


O rio e as suas ondas
são um só movimento.
Onde está a diferença
entre o rio e as suas ondas?

Quando a onda se ergue,
é água que se levanta;
quando a onda tomba,
é água que cai.

Amigo: onde reside
a diferença?

Só porque foi nomeada onda
deverá não mais
ser considerada água?

Dentro do Brahma (*) supremo,
os mundos contam-se
como as contas dum rosário.

Observa esse rosário
com olhos de sábio.





Kabir (1440 - 1518)




(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore - "Songs of Kabir", 1915).







(*) Brahma é o primeiro deus da sagrada trindade do hinduísmo, a Trimurti, seguido de Vishnu e Shiva. Originalmente dotado de cinco cabeças e oito braços, representa a força criadora do Universo. À semelhança da noção católica de "Deus", Brahma é visto como o "Criador" por excelência, senhor de todo o conhecimento. Uma das possíveis traduções do seu nome é a de "Realidade Última", embora sobre este tema as opiniões sejam bastante divergentes.
Iconograficamente é representado por quatro cabeças, uma por cada Veda (os livros sagrados do hinduísmo), e em quatro dos seus oito braços ampara um rosário (note-se a referência no poema) simbolizando o tempo, um recipiente com água, uma espécie de colher e os sagrados textos dos Vedas.
Apesar de num passado remoto ter gozado de uma enorme popularidade, com o dobrar dos séculos foi perdendo-a para as outras divindades da mesma trindade. Restam actualmente poucos templos em sua honra. O mais emblemático situa-se em Pushkar.








(Fonte: Smithsonian Ocean Portal)