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quarta-feira, 22 de maio de 2019

Quatro breves poemas de Kahlil Gibran



I. Cantando No Silêncio

A vida canta nos nossos silêncios
e sonha no nosso sonho.
Mesmo quando nos sentimos abatidos e derrotados,
a vida senta-se num trono nas alturas.
E quando choramos,
a vida sorri ao dia
e é livre mesmo que
arrastemos as nossas correntes.



II. Entre

Para sempre caminho nestas praias,
entre a areia e a espuma do mar.
A maré alta apagará as minhas pegadas
e o vento levará a espuma.
Mas o mar e a praia
aqui ficarão para sempre.


III. Olhos De Coruja

A coruja, cujos olhos adaptados à noite
são cegos para o dia,
é incapaz de desvendar o mistério da luz.
Se queres realmente ver o espírito da morte,
abre o teu coração para o corpo da vida.
Pois a vida e a morte são uma só coisa,
tal como o rio e o mar são um só.


IV. As Árvores São Poemas

As árvores são poemas
que a terra escreve sob o céu.
Nós as derrubamos
e com elas fazemos papel,
onde registamos todo o nosso vazio.






Kahlil Gibran (1883 - 1931)











("Kahlil Gibran: O Livro da Vida", Albatroz, 2018 - e
dição de Neil Douglas-Klotz; à excepção do quarto poema, uma versão de Pedro Belo Clara a partir do original.)











(Kahlil Gibran)


sábado, 8 de julho de 2017

Cinco haiku de Enomoto Seifu


I.

Ao romper do dia,
à conversa com as flores,
uma mulher só.


II.

Paz e silêncio - 
vinda da chuva, a borboleta
entra no meu quarto.


III.

Fim de Primavera - 
num conjunto de artemísias
há ossos humanos. ¹


IV.

Bonecas sempre iguais - 
eu não tive outro remédio
senão envelhecer.


V.

Grito de faisão - 
ressoando na montanha,
a voz do silêncio. ²





Enomoto Seifu (1732 - 1815) ³





(Versões de Luísa Freire in "O Japão no Feminino - Haiku, séculos XVII a XX", Assírio & Alvim, 2007)






(1) Este haiku terá sido escrito algures entre 1782 e 1787, durante um período de grave escassez de alimentos no Japão, o que originou o registo de diversas mortes, especialmente nas camadas socialmente mais expostas. 
No seu haiku, Enomoto dá a entender que durante um passeio dado no fim de uma primavera daquele período ter-se-á deparado com um conjunto de ossos humanos sob uns arbustos, provavelmente os restos mortais de alguém que, abandonado à sua sorte, não foi capaz de subsistir a um longo inverno.



(2) Enomoto compôs este haiku durante a sua estadia no templo Zen de Kamakura. 



(3) Enomoto Seifu nasceu no seio de uma família de samurais, recebendo desde sempre a melhor educação possível. Contudo, somente após a viuvez é que desenvolveu verdadeiramente a sua arte poética, e sob a orientação de Kaya Shirao. Após a morte do mentor, seguiu uma via monástica. 
Apesar da alta qualidade da obra que ia produzindo nesses anos, até à sua morte a mesma não era propriamente conhecida. Só depois do seu falecimento é que o filho de Enamoto decidiu publicá-la, e sob a epígrafe de "Os haiku da monja Seifu".
Para muitos críticos, Enomoto Seifu foi a mais importante poetiza do Japão pré-moderno no que à elaboração do haiku diz respeito, uma figura só capaz de rivalizar com a grandeza do mestre Bashô. Uma das suas principais inovações temáticas, segundo Makoto Ueda, é o intenso «desejo de um mundo transcendente de pureza e solidão», aspecto esse mais visível nos dois primeiros haiku aqui apresentados. 







(Imagem do templo Komyoji em Kamakura)




sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Cinco pensamentos de R. Tagore, considerando sobre o fim da sua vida


I.

O que o amor dá, não pode ser dado;
só é aceite.


II.

Deixo as minhas canções 
às flores da madressilva que sempre retornam
e à alegria do vento do sul.


III.

Quando a morte chegar e me sussurrar:
«Os teus dias chegaram ao fim»,
vou dizer-lhe: «Vivi em amor
e não no tempo.»
Se ela perguntar: «E as tuas canções sobreviverão?»
Responderei: «Não sei, mas de uma coisa tenho a certeza,
é que quando canto, encontro a minha eternidade.»


IV.

Quando a voz do Silêncio toca as minhas palavras,
conheço-te e, assim, conheço-me também.
As minhas últimas saudações são para aqueles
que me conheceram imperfeito e me amaram.


V.

Antes do fim da minha jornada,
que eu possa chegar dentro de mim mesmo
àquilo que é tudo,
deixando o invólucro da pele
ir flutuando à deriva com a multidão
na corrente do acaso e da mudança!



Rabindranath Tagore (1861 - 1941) 






(Selecção de Pedro Belo Clara a partir das traduções de Joaquim M. Palma in "A Asa e a Luz" (Assírio & Alvim, 2016)).