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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O tempo foge, a cascata flui


O tempo foge, a cascata flui.
O carro dos quatro corcéis desaparece.
O destino é sagaz.
Mas o que ele não consegue
é restituir-me a vida quando morto eu for.

Já vivi bastante.
Caem-me os dentes, caem-me os cabelos.
Sou como uma maçã murcha no Inverno.
É esta a lei dos homens.
De que serve revoltar-me?


Mao Heng (séc. III ? ) (*)



(Tradução de António Ramos Rosa).





(*) Sobre este poeta pouco se sabe, desde as suas exactas datas de vida como muito daquilo que empreendeu ao longo da mesma. No entanto, foi o fundador de uma escola poética denominada "Mao Shi", que durante a dinastia Han atingiu uma considerável relevância. O seu papel como anotador do "Livro das Odes" (Shi Jing), considerado um dos "Cinco Clássicos" da literatura chinesa, merece igual destaque.
Pela leitura do poema apresentado, podemos compreender a inclinação deste obscuro escolástico para temas como a impermanência dos elementos mundanos e a efemeridade da vida, factos existenciais que lhe alimentavam uma completa aceitação dos seus efeitos. Pelo que se demonstra, certas influências do pensamento Taoísta em sua poesia não serão de descartar. 










(reprodução da primeira ode do Shi Jing, transcrita pela própria mão do Imperador Qianlong (1711 - 1799))




segunda-feira, 13 de julho de 2015

CANÇÃO DOS CABELOS BRANCOS



O nosso amor, brioso como neve nas montanhas,
foi lustroso como a lua entre as nuvens.
Soube que irás deixar o velho pelo novo;
venho despedir-me de ti.

Hoje, bebemos um copo de vinho;
amanhã, cada um seguirá o seu rumo.
Pelo canal imperial iremos,
como águas fluindo para este ou oeste.

Porque me deverei sentir triste ou lúgubre
e como uma noiva chorar, lágrima após lágrima?
Tivesse casado com um homem de um só coração,
e mesmo de brancos cabelos não nos separaríamos.

Longas poderão ser as tuas linhas de pesca,
mas não apanharás as luzentes caudas dos peixes.
Se o teu amor fosse sólido e verdadeiro,
não te submeterias à tentação do dinheiro.





Zhuo Wenjun (século II a.C.) (*)



(Tradução da versão inglesa por Pedro Belo Clara).





(*) Zhuo Wenjun, nascida na província de Sichuan, China, durante a dinastia Han Ocidental, é considerada a primeira poetisa da história literária chinesa. 
Viúva desde muito cedo, protagonizou com o também poeta Sima Xiangru (179 a.C. - 117 a.C.) uma autêntica história de amor na antiguidade. 
Dizem as lendas que se tratou de "amor à primeira vista". Wenjun, que apreciava bastante os escritos de Xiangru, teve um vislumbre do seu amado na casa de Cho Wangsun, o magistrado da província de Lin Hong, na companhia de seu pai. Sima Xiangru interpretava um tema musical quando uma lufada de vento afastou a cortina que os apartava, permitindo assim o primeiro contacto entre os amantes. 
Trocadas as habituais juras, Wenjun e Xiangru fogem pela calada da noite para Sichuan, regressando apenas nove meses mais tarde. Renegada pela sua abastadíssima família, Wenju vê-se forçada a vender as suas jóias para abrir uma taberna com o seu novo marido.
Sima Xiangru teve uma vida atribulada, sendo inclusive vítima de diversos actos de inveja. Chegou, inclusive, a ser encarcerado durante um ano sem razão válida (valeu-lhe a amizade do próprio imperador). Após o seu casamento com Wenju, o imperador convoca-o para a capital. Caindo já nas graças do seu sogro, rapidamente se fatiga da vida na corte. Pede então transferência para Mounling, onde viria a conhecer uma jovem mulher pela qual se enamora. O desejo de a tomar por sua concubina torna-se incontrolável. 
É provavelmente nesse sentido que este poema foi escrito. Embora existam incertezas, ele é-lhe atribuído. Contudo, há quem defenda que o dito, sendo de Wenju ou não, somente exprime as flutuações do amor dos homens pelas mulheres. Pois, segundo a lenda, Wenju, sabendo do sucedido, escreve um poema ("Um Casal de Brancos Cabelos") e envia-o ao seu marido. Este, de tal modo tocado pelo sentimento exposto no escrito, abandona os seus planos e retorna a casa. 
Viveriam como nas histórias: felizes para sempre.









quarta-feira, 1 de julho de 2015

VIDA


Esta vida no meio de vinho e de canto,
Quanto tempo dura?
Momentânea como orvalho de madrugada,
Deixa-me o sofrer do seu passar. 



Cao Cao (155 - 220) (*)


(Tradução de Yao Feng, in "Quinhentos Poemas Chineses" (Nova Vega, 2014)).






(*) Cao Cao foi um dos grandes senhores de guerra durante os conflitos que originaram a queda da dinastia Han oriental. Mesmo tendo falecido no ano da sua instauração, é considerado uma figura central do conturbado período dos Três Reinos (220 - 280). Lançou as bases para a criação autónoma do Reino de Wei, sendo postumamente declarado Imperador Wu de Wei. Notável estratega militar, destacou-se pelo modo déspota do seu governar, não obstante o mesmo ter sido alvo de diversos elogios - um "déspota iluminado", portanto. Homem, apesar de tudo, de índole sensível, cultivou de modo sério os seus visíveis atributos poéticos. 








segunda-feira, 29 de junho de 2015

CANÇÃO DO SOFRIMENTO



A minha força sacudia as montanhas,
a minha alma sombreava o mundo.
Mas mudaram os tempos,
já não galopa o meu cavalo baio.
Se já não galopa o meu cavalo baio
que posso eu fazer?
Ah, minha pobre Yu,
qual será o teu destino?



Xiang Yu (232 a.C. - 202 a.C.) (*)



(Tradução de António Graça de Abreu, in "Quinhentos Poemas Chineses" (Nova Vega, 2014)).





(*) Xiang Yu lutou contra Liu Bang pelo trono da dinastia Han. Comandante das tropas rebeldes, acabou derrotado e naturalmente condenado à morte. Antes da sua execução, porém, escreveu este poema dedicado à sua concubina Yu - que acabaria por ser executada juntamente com o seu amante.