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quarta-feira, 18 de maio de 2016
Quatro poemas de Dogen
I.
As ondas recuam.
Nem mesmo o vento
segura um pequeno
barco abandonado.
A lua é um claro
sinal da meia-noite.
II.
Aves marítimas,
em constante partida e chegada.
Os rastos desaparecem,
mas jamais elas
esquecem o seu rumo.
III.
Ao vento da primavera,
flores de pessegueiro
começam por cair.
As dúvidas não se adornam
de ramos e folhas.
IV.
Uma garça-real,
branca, esconde-se
num campo coberto de neve,
onde nem as ervas de inverno
podem ser vistas.
Eihei Dogen (1200 - 1253)
(Tradução e adaptação de versões em inglês por Pedro Belo Clara).
terça-feira, 26 de abril de 2016
Quatro poemas espirituais de Dogen (Parte II)
I. O som das gotas de chuva em Ching-Ch'ing
Porque a mente é livre
- escutando a chuva
tombando pelos beirais,
as gotas e eu
tornamo-nos um só.
II. No ribeiro
No ribeiro,
correndo apressado
para o mundo poeirento,
a minha efémera forma
não deixa reflexo.
III. Como cabelo emaranhado
Como cabelo emaranhado:
a ilusão circular
de começo e fim.
Quando esticado,
o sonho cessa.
IV. O verdadeiro ser manifesta-se pelos dez quartos do mundo
O verdadeiro ser
não é alguém em particular.
Como o profundo azul
do céu infinito,
é toda a gente, em todo o lugar
do mundo.
Eihei Dogen (1200 - 1253)
(Tradução e adaptação de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa elaborada por Steven Heine - "The Zen Poetry of Dogen: Verses from the Mountain of Eternal Peace", 1997)
sábado, 16 de abril de 2016
Quatro poemas espirituais de Dogen
I. Indo ou vindo?
A ave migratória
não deixa rasto,
nem de guia necessita.
II. Zazen (1)
A lua reflecte-se
nas águas serenas:
até as ondas, quebrando-se,
espelham a sua luz.
Assim a mente silenciosa.
III. Prodigiosa mente-nirvana (2)
Porque as flores que brotam
no nosso lar de origem
são eternas,
mesmo com o suceder das primaveras
as suas cores jamais se desvanecerão.
IV. Impermanência
A que poderei eu
comparar o mundo?
Ao luar reflectido
em gotas de orvalho,
agitando-se num gerânio.
Eihei Dogen (1200 - 1253) (*)
(Tradução e adaptação de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa elaborada por Steven Heine - "The Zen Poetry of Dogen: Verses from the Mountain of Eternal Peace", 1997)
(1) Zazen: Prática do budismo zen que consiste essencialmente numa meditação sem foco em concreto e de imobilidade corporal absoluta, por forma a promover o relaxamento e a aquietação do fluxo mental do ser. Este modo de "simplesmente sentar" é encarado nesta filosofia como uma via extremamente válida para se alcançar o estado de iluminação, o satori, dado que estimula o desapego e a auto-vigilância naquele que o praticar, tornando-o assim um ser mais alerta e consciente.
(2) Nirvana: O mesmo que satori, a suprema transcendência do ego (a falsa identidade do ser) e do mundo da matéria - nos quais se inclui, como consequência, o desapego dos sentidos, emoções e pensamentos. Um estado superior da evolução humana, por outras palavras.
(*) Dogen foi um mestre da vertente zen do budismo e um poeta de excelência.
Nascido em Quioto, Japão, no seio de uma família nobre, cedo experimentou as cruas ocorrências da via material. Órfão desde tenra idade, aproveitou do melhor modo o impulso do profundo abalo emocional que sobre ele se abatera, e com apenas treze anos entra no mosteiro onde será ordenado monge budista.
O seu carácter indagador levou-o várias vezes em busca da verdade suprema, algo que fez com que entrasse e saísse de vários mosteiros, experimentando diversas escolas do budismo até instaurar ele próprio a sua, de nome Soto, após o contacto, na China, com o mestre que certamente mais lhe marcou: Rujing.
Naturalmente, o seu pensamento, fundado na tradição zen, bem como os ensinamentos que transmitia aos seus discípulos, acabou reflectido na poesia que amiúde escrevia. Chegam-nos assim diversos poemas de grande teor espiritual, cujas imagens esforçam-se muito serenamente por estimular no seu leitor vislumbres do Eterno - ou simplesmente evidências da vida material que atestem a sua efemeridade e, por isso, secretamente impulsionem uma busca por algo de maior constância.
Os exemplos seleccionados irão certamente atestar tal sentença.
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