domingo, 18 de junho de 2023

PERMITE-TE DISSOLVER



És puro.
Nada te toca.
O que há a renunciar?
Põe tudo de parte,
O corpo e a mente.
Permite-te dissolver.

Como as bolhas no mar,
Todos os mundos despontam em ti.
Sabe que és o Ser,
Sabe que és Um.
Permite-te dissolver.

Observas o mundo;
Mas, tal como um pedaço de corda
Pode ser confundido com uma serpente,
Ele, em verdade, não existe.
És puro.
Permite-te dissolver.

És sempre Um, imutável
Através da alegria e do pesar,
Da esperança e do desespero,
Da vida e da morte.
Já és completo.
Permite-te dissolver.






Ashtavakra (? - ?)














(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)














(autor desconhecido)



sábado, 3 de junho de 2023

AQUELE QUE É VERDADEIRO NA SUA BUSCA

 
O homem sábio conhece o Ser,
E joga o jogo da vida.
Já o tolo vive no mundo
Como um animal de carga.
 
Aquele que é verdadeiro na sua busca
Não sente euforia, mesmo no estado de êxtase
Que Indra¹ e todos os deuses, infelizes,
Tanto anseiam.
 
Ele entende a natureza das coisas.
O seu coração não está maculado
Pelo certo nem pelo errado,
Assim como o céu não se conspurca pelo fumo.
 
É puro de coração,
Sabe que o mundo inteiro é apenas o Ser.
Quem o poderá impedir
De agir conforme desejar?
 
Dos quatro tipos de ser,
De Brahma² a uma folha de erva,
Apenas o sábio é forte o bastante
Para abandonar o desejo e a aversão.
 
Quão raro um homem assim!
Sabendo que é o Ser,
Age de acordo com o que é
E nunca teme.
Pois ele sabe quem é,
Um sem espaço para Dois,
O Senhor de toda a criação.





Ashtavakra (? - ?)










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)








(1) O deus do céu no Hinduísmo. É associado ao clima e ao fluxo dos rios.


(2) O primeiro deus da santa trindade do Hinduísmo. Representado por diversas faces, é o deus da música e das canções, sendo igualmente considerado uma expressão da força criadora do universo. 












The Seeker,
de Tyler Robbins




segunda-feira, 22 de maio de 2023

SABEDORIA

 
Conheces o Ser,
Por sua natureza uno
E sem fim.
Conheces o Ser,
E permaneces sereno.
Como poderás ainda desejar riquezas?
 
Quando em ignorância
Vês prata numa madressilva,
A cobiça desponta.
Da ignorância do Ser
O desejo desperta
Para o mundo onde os sentidos se agitam.
 
Conhecendo-te como Aquilo
Onde mundos erguem-se e desaparecem,
Quais ondas no oceano,
Porque te agitas tão miseravelmente?
 
Não escutaste ainda?
És consciência pura,
A tua beleza não tem fim!
Porque deixas a luxúria enganar-te?
 
O homem sábio
Sabe que se encontra em todas as coisas
E todas as coisas nele mesmo se encontram.
Mas, que estranho!,
Ele ainda diz, “Isto é meu.”
 
Determinado a ser livre,
Permanece na unidade,
Para além de todas as coisas.
Mas, que estranho!,
Entregando-se à paixão, ele fraqueja,
E a luxúria assim o domina.
 
Enfraquecido pela idade,
Ainda é tomado pelo desejo,
Sabendo, sem dúvida,
Que a luxúria é inimiga da consciência.
Que estranho, de facto!
 
Anseia ser livre…
Não tem qualquer interesse por este mundo
Nem pelo próximo,
E sabe aquilo que passa
E aquilo que permanece.
Mesmo assim, que estranho!,
Ainda teme a liberdade.
 
Mas aquele que é realmente sábio
Sempre vê o Ser absoluto.
Celebrando, não se deleita;
Rejeitando, não se enfurece.
 
Puro de coração,
Observa as suas próprias acções
Como se fossem doutra pessoa.
Como poderá o elogio ou a culpa perturbá-lo?
 
Com visão limpa e firme,
Observa como o mundo é uma miragem
E assim não mais se questiona sobre ele.
Como poderá temer a chegada da morte?
 
Puro de coração,
Nada deseja,
Mesmo em desespero.
Satisfaz-se
No conhecimento do Ser.
A quem poderei compará-lo?
 
Com visão limpa e firme,
Ele sabe que tudo o que vê
Nada é, por sua natureza.
Como poderá preferir uma coisa a outra?
 
Ele está além de toda a dualidade.
Livre do desejo,
Varreu de sua mente
Todo o anseio pelo mundo.
Venha o que vier,
Alegria ou pesar,
Nada o moverá.





Ashtavakra (? - ?)












(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)









 


"Pearl Of Wisdom"
Jean Filson



sexta-feira, 12 de maio de 2023

CONSCIÊNCIA

 

Ontem,
Vivia confundido,
Vivia em ilusão.
Agora estou desperto,
Perfeito e sereno,
Para além do mundo.
 
A partir da minha luz,
O corpo e o mundo erguem-se.
Assim, todas as coisas são minhas,
Ou nada o é.
 
Agora que abdiquei
Do corpo e do mundo,
Possuo um dom especial:
Vejo o Ser infinito.
 
Como a onda,
Agitando-se espumosa,
É apenas água,
Assim toda a criação,
Fluindo a partir do Ser,
É somente o Ser.
 
Pensa num pedaço de tecido:
São apenas fios!
Assim toda a criação,
Se observares atentamente,
É somente o Ser.
 
Como o açúcar
Presente no suco da cana,
Eu sou a doçura
Presente em tudo o que fiz.
 
Quando se desconhece o Ser
O mundo desponta,
Não quando o Ser é conhecido.
Mas confundes
A corda com a serpente.
Quando vês realmente a corda,
A imagem da serpente desaparece.  
 
A minha natureza é luz,
E nada mais que luz.
Quando o mundo desponta,
Só eu brilho.
 
Quando o mundo brota em mim,
É apenas uma ilusão:
Água cintilando ao sol,
Um veio de prata em madrepérola,
A serpente na corda.
 
De mim o mundo flui
E em mim se dissolve,
Como a pulseira derrete-se em ouro,
O jarro desfaz-se em barro,
A onda reduz-se a água.
 
Eu adoro-me.
Quão maravilhoso sou!
Nunca poderei morrer.
O mundo inteiro poderá desaparecer,
De Brahma a uma folha de erva,
Mas eu permanecerei.
 
Quão maravilhoso, deveras!
Eu adoro-me.
Pois, tomando forma,
Ainda sou um.
Não vou nem venho,
E ainda assim estou em toda a parte.

Fantásticos
E grandiosos são os meus poderes!
Não possuindo forma,
Até ao fim dos tempos
Sustento o universo.
 
Maravilhoso!
Nada é meu
E, no entanto, é meu
Tudo o que seja pensado ou falado.
 
Não sou o conhecedor,
Nem o conhecido,
Nem o conhecer.
Estes três modos não são reais.
Apenas o aparentam ser
Quando o que sou não é conhecido.
Eu sou perfeito.
 
Dois a partir de um!
É esta a raiz do sofrimento.
Observa, apenas,
Que eu sou Um sem Dois,
Consciência pura, alegria pura,
E que o mundo inteiro é falso.
Não existe outro remédio!
 
Pela mão da ignorância
Imaginei, outrora, que estava preso.
Mas eu sou consciência pura;
Vivo além de todas as distinções,
Numa meditação inquebrável.
 
De facto,
Não estou nem preso nem livre.
O fim da ilusão!
É tudo infundado.
Pois a criação inteira,
Embora repouse em mim,
Existe sem fundamento.
 
O corpo é nada,
O mundo nada é.
Quando compreenderes isto verdadeiramente,
Como poderão eles ser inventados?
Pois o Ser é consciência pura,
Nada mais.
 
O corpo é falso,
E assim os seus medos,
O paraíso e o inferno, liberdade e escravidão.
Tudo não passa duma invenção.
O que poderão eles me importar?
Sou a própria consciência.
 
Vejo somente uma coisa:
Muitos Homens,
Uma só imensidão.
Então, a que poderei me apegar?
 
Não sou o corpo,
Nem o corpo me pertence.
Não sou algo separado.
Sou a própria consciência,
Preso apenas pela minha sede de vida.
 
Sou o oceano sem fim.
Quando os pensamentos irrompem,
O vento torna-se mais fresco,
E como ondas mil mundos despontam.
 
Mas quando o vento acalma,
O capitão afunda-se com o navio.
No oceano sem fim do meu ser
Ele naufraga,
E assim todos os mundos.
 
Mas, oh!, quão maravilhoso…
Eu sou as profundezas infinitas
Donde todas as coisas vivas
Despontam naturalmente,
Apressam-se, em alegria, umas contra as outras
E depois desvanecem.  





Ashtavakra (? - ?)













(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001)












"Aura",
de Bruce Rolff




domingo, 30 de abril de 2023

O SER

 

Oh, Mestre,
Diz-me como encontrar
Desapego, sabedoria e liberdade!
 
Meu filho,
Se desejas ser livre
Afasta-te do veneno dos sentidos.
Procura o néctar da verdade,
Do amor e do perdão,
Da simplicidade e da felicidade.
 
Terra, fogo e água,
O vento e o céu –
Nada disto tu és.
Se desejas ser livre,
Que saibas que és o Ser,
A testemunha de tudo,
O coração da consciência.
 
Põe de lado o teu corpo.
Senta-te na consciência de ti mesmo.
Irás de pronto ser feliz,
Para sempre sereno,
Para sempre liberto.
 
Não pertences a uma casta,
Nenhum dever te aprisiona.
Sem forma e livre,
Para além do alcance dos sentidos,
A testemunha de todas as coisas.
 
Então, sê feliz!
 
Certo ou errado,
Alegria ou pesar,
Estas coisas só à mente pertencem.
Não são posses tuas.
 
Em verdade, não és tu
Quem age ou desfruta.
Tu estás em toda à parte,
Para sempre livre;
Para sempre e verdadeiramente livre,
A única testemunha de todas as coisas.
 
Mas se te vês como separado de tudo,
Então aprisionas-te.
 
“Eu faço isto, eu faço aquilo”.
A grande e negra serpente do egoísmo
Mordeu-te!
“Eu nada faço”:
É este o néctar da fé.
Então, bebe-o e sê feliz!
 
Que saibas que és Um,
Consciência pura.
Com o fogo desta certeza,
Incendeia a floresta da ignorância.
 
Liberta-te das tristezas
E sê feliz.
Sê feliz!
Pois és alegria, uma alegria
Que não conhece limites.
 
És a própria consciência.
 
Assim como uma corda enrolada
Confunde-se com uma serpente,
Tu és confundido com o mundo.
 
Se pensas que és livre,
Livre és.
Se pensas que estás preso,
Preso estás.
Pois verdadeiro é o dizer:
És aquilo que pensas.
 
O Ser parece-se com o mundo,
Mas não passa duma ilusão.
 
O Ser está em toda a parte.
 
Uno.
Sereno.
Livre.
Perfeito.
 
A testemunha de todas as coisas,
Consciência
Sem acção, apego ou desejo.
 
Medita no Ser.
Indivisível,
Elevada consciência.
 
Abandona a ilusão
Dum ser separado.
Abandona o sentimento,
O dentro ou o fora,
Que és isto ou aquilo.
 
Meu filho:
Porque pensas ser o corpo,
Por muito tempo tens-te aprisionado.
Que saibas que és consciência pura.
 
Com este saber como tua espada
Corta as tuas correntes.
E sê feliz!
 
Pois já és livre,
Sem acção ou defeito,
Luminoso e radiante.
 
Estás preso
Somente pelo hábito da meditação.
A tua natureza é consciência pura.
Tu fluis em todas as coisas
E todas as coisas fluem em ti.
 
Mas acautela-te
Com a estreiteza da mente!
És sempre o mesmo,
Insondável consciência,
Sem limites e liberta,
Serena e imperturbável.
 
Deseja somente a tua própria consciência.
O que quer que tome forma, é falso.
Somente o informe perdura.
Quando compreenderes
A verdade deste ensinamento
Não nascerás de novo.
 
Pois Deus é infinito,
Dentro do corpo e fora do corpo,
Como um espelho,
E a imagem aparecendo no espelho.
 
Como o ar está em toda a parte,
Fluindo em redor duma jarra
E enchendo-a,
Assim Deus está em toda a parte,
Enchendo todas as coisas,
Fluindo através delas para sempre.



Ashtavakra (? - ?) ¹










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001)












(1) Um antigo sábio indiano, sobre o qual muito pouco se conhece. Não é identificável um lugar de nascimento, sequer o século em que viveu. O seu nome, a única pista, talvez, capaz de nos conceder um melhor vislumbre do indivíduo em causa, traduz-se por "oito deformidades", referindo-se àquelas que supostamente o seu corpo físico apresentava.
Mas a sua sábia presença perdurou nas escrituras sagradas do Hinduísmo, atravessando séculos, de geração em geração, além do conhecimento permitido pela obra onde se insere o texto aqui traduzido. Porém, importa esclarecer que também não é certo que Ashtavakra tenha sido o verdadeiro autor da mesma. Certos estudiosos colocam a composição de "A Canção de Ashtavakra" algures pelos anos 600 a 400 a.C; outros, defendem tratar-se duma criação posterior, datada do século VIII da nossa era. Dado o profundo e significativo conteúdo da mesma, é certo que tais pormenores pouco importarão.
Para se obter um melhor contexto sobre a exposição dos poemas, esclarece-se que a obra está escrita em forma de diálogo, entre o famoso sábio e Janaka, o Rei de Mithila - uma região situada no nordeste do actual território indiano. 








"Bloom and Blossom"
- Jaanika Talts -



quinta-feira, 14 de julho de 2022

OS DOIS ANÉIS



Havia um homem que tinha dois filhos. Faleceu e, entre os seus bens, deixou dois anéis. Um deles tinha um enorme diamante incrustado, enquanto o outro, mais simples, era feito de prata. O irmão mais velho, avaro, assim que viu os anéis disse: 

«Como sou o irmão mais velho, é óbvio que o nosso pai deixou o anel com o diamante para mim. Corresponde-me justamente.» 

O irmão mais novo respondeu: 

«Tudo bem, que seja para ti. Eu conformo-me com o anel de prata.»

Cada irmão pôs o respectivo anel no dedo e foi viver a sua vida em separado. Dias depois, o irmão mais novo encontrava-se sozinho, entretido a brincar com o anel, quando, de repente, algo no seu interior chamou a sua atenção. Examinou de perto o anel e deparou-se com a seguinte inscrição: «Também isto passará.»

Sem dar, no momento, muita importância ao achado, disse para si mesmo: «este devia ser o mantra¹ do meu pai, daí que o tenha mandado gravar no interior do seu anel.»

Como sempre acontece, o tempo não abrandou o passo. A vida seguiu o seu curso para ambos os irmãos: vieram os bons tempos e os maus tempos, a fortuna e o infortúnio, as situações favoráveis e desfavoráveis, o prazer e a dor.

O irmão mais velho, perante as vicissitudes e as mudanças da vida, começou a desequilibrar-se. Exaltava-se de mais com as situações que se desenrolavam a favor dos seus desejos e fraquejava diante daquelas que contrariavam as suas vontades. Ficava muito alterado à mínima coisa, de tal forma que começou a procurar refúgio nos vícios que então desenvolvera. O efeito inebriante que lhe concediam era o único modo de suportar a desarrumação da mente e o seu coração inquieto. De que lhe tinha servido, afinal, vender o fabuloso diamante do anel que recebera em herança? Toda a fortuna que então granjeara?

Naturalmente, também o irmão mais novo se viu sujeito às vicissitudes da vida. Querendo ou não, fora, como qualquer Homem que viva, obrigado a enfrentar bons e maus momentos, circunstâncias favoráveis e desfavoráveis, alegrias e tristezas. Mas as palavras inscritas no interior do anel que recebera do pai não lhe saíam da cabeça. Palavras simples, mas plenas de significado, que vinham sempre em seu auxílio nos tempos mais turbulentos, ajudando-o a permanecer firme na adversidade, certo de que esta acabaria por passar. Com o tempo, não mais se permitiu arrastar nem para estados de exaltação nem de depressão, pois havia compreendido a transitoriedade de tudo, a efemeridade do mundo material.

Que maravilhosa herança recebera. Assim, permaneceu em paz consigo mesmo e em harmonia com o fluir de todos os acontecimentos, sem apego ao prazer nem ódio à dor. Afinal, fosse quem fosse a assumir o trono da existência… sabia que tal reinado não duraria mais que um breve momento, que também ele haveria de passar.




Anónimo.








(Adaptação de Pedro Belo Clara do texto recolhido por Ramiro Calle e antologiado em "Os Melhores Contos Espirituais do Oriente" - A Esfera dos Livros, 4ª ed., setembro de 2010. A sua tradução portuguesa é de Margarida Cardoso de Meneses.)












(1) Expressão com origem no sânscrito, significando "controlo da mente". São, geralmente,  orações ditas ou cantadas de modo repetido, com o intuito de induzir estados de meditação e de calma interior, já que facilitam a concentração, mas poderá ser apenas uma palavra ou até uma sílaba, repetida várias vezes, em fala ou em canto. 













(Fonte: albertsjewelers.com)



sábado, 21 de maio de 2022

A HISTÓRIA DAS BORBOLETAS


Certa noite, as borboletas reuniram-se, atormentadas pelo desejo de se juntaram à vela. Disseram:

- Precisamos de mandar alguém à procura de informações sobre o objecto da nossa busca amorosa.

Em vista disto, uma delas partiu. Chegou a um castelo e, dentro dele, viu a luz de uma vela. Regressou e relatou, segundo a sua compreensão, tudo que vira. Mas, no entender da sábia borboleta que presidia à reunião, ela não percebera coisa alguma da vela. Assim sendo, outra mariposa seguiu o caminho do castelo. Fez tenção de tocar a chama com a ponta das asas, mas o calor fê-la recuar. Como o seu relatório não fosse mais satisfatório do que o da primeira, partiu uma terceira borboleta. Esta, bêbada de amor, atirou-se à chama; envolveu-a com as patas dianteiras e uniu-se alegremente a ela. Abraçou-a toda, e o seu corpo ficou vermelho como o fogo. A borboleta sábia, que observava a cena de longe, ao ver que a chama e a mariposa pareciam uma só, disse:

- Ela aprendeu o que desejava saber; mas só ela compreende, e nada mais se pode dizer. 



Farid Ud-Din Attar (1121? - 1229?) ¹







(Tradução de António Machado in "A Conferência dos Pássaros", Marcador, 2013.)










(1) Attar, de cuja vida pouco se sabe, terá nascido na cidade de Nishapur, no actual Islão, segundo algumas fontes em 1121, segundo outras em 1145. 
Foi um célebre Sufi poeta e biógrafo, além de farmacêutico. Ao abandonar essa profissão inicial, Attar viajou por diversas cidades e países, estudando o máximo possível em diferentes paragens. Terá sido durante esse período de busca que teve um encontro mais real e profundo com o sufismo. Quando regressou, já apregoava os seus preceitos. Apesar dos dados escassos e por vezes contraditórios, isto é certo: o seu trabalho exerceu uma influência tremenda na poesia persa e até no Sufismo em geral, onde hoje é visto como um dos seus maiores nomes. 
No entanto, em vida permaneceu discreto e sem grande influência na sociedade da época, além de na sua terra natal. Somente muito mais tarde, provavelmente no século XV, é que os seus dotes poéticos e prosaicos foram redescobertos e amplamente divulgados. O célebre poeta Rumi foi um dos seus maiores admiradores. 
A obra "A Conferência dos Pássaros" é sem dúvida alguma um dos seus trabalhos mais reconhecidos. 
Teria setenta e quatro ou setenta e cinco anos quando se dá a invasão mongol da cidade de Nishapur, em 1221. Attar é morto durante o impiedoso massacre. 
Actualmente, é possível visitar o seu mausoléu na dita cidade, um autêntico momento a um poeta e homem religioso ímpar. 










(Farid Attar,
autor desconhecido.)