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sábado, 15 de janeiro de 2022

Três breves poemas de Li Bai

 
I. O pescador

A terra bebeu a neve,
as ameixeiras estão de novo em flor; 
as folhas novas do salgueiro doiradas ardem,
as águas do rio são prata.
Salpicadas de oiro, as borboletas
com suas bocas de veludo tocam o coração das flores.

Num barco parado,
o pescador puxa a sua rede prateada,
agitando as águas quietas. 

Pensa numa rapariga, em casa,
como andorinha no aconchego do ninho;
pensa na rapariga que, em casa,
como a andorinha espera o seu companheiro. 


II. Diz a rapariga de Ba¹

As águas do rio Ba são velozes como uma seta; 
o barco no rio desliza
como se asas tivesse. 
Em dez dias percorrerá três mil Li.²

E tu partes, amor.
Ah, quantos anos até ao teu regresso? 


III. A mulher de Yue³ (IVº poema duma série de V)

Ela, uma rapariga de Dongyang, está descalça na margem;
ele, um barqueiro de Kuaiji, permanece no seu barco.
A lua brilha ainda no céu. 
Olham um para o outro - de coração partido. 




Li Bai (701 - 762)








(Versões de Pedro Belo Clara a partir de:
I - tradução de R. T. Smith, revista Shenandoah (blogue), Fev. 2012;
II e III - tradução de Shigeyoshi Obata, em "The Works of Li Po", Tóquio, 1935.)







(1) Ba é a região mais oriental da província de Sichuan, atravessada pelas velozes águas do rio Yangtze, o maior de toda a Ásia.

(2) Antiga medida chinesa de distâncias. O valor não é muito exacto e tem variado ao longo do tempo, mas actualmente equivale a quinhentos metros.  

(3) Um estado da China antiga, correspondente à área onde hoje se encontram três províncias daquele país: Zhejiang, Xangai e Jiangsu. Quando Li Bai era vivo, tal estado era já considerado um vassalo da China imperial. 

(4) Cidade que nos dias de hoje pertence à província de Zhejiang, na zona oriental costeira da China.

(5) Localidade da mesma província, actualmente designada de Shaoxing. 












"Chinese fisherman with commarant"
de Lynn B. Blair



domingo, 6 de agosto de 2017

BANQUETE DE UMA NOITE DE PRIMAVERA NO JARDIM DOS PÊSSEGOS E DAS AMEIXAS



O céu e a terra são o albergue de passagem de todas as coisas. O tempo é o hóspede em trânsito de todas as gerações. Que alegrias podemos ter, se flutuamos na vida como num sonho?

Boas razões tinham os antigos para, empunhando tochas, até a noite aproveitarem para viajar. Quanto mais quando a primavera solarenga nos atrai com as suas paisagens esfumadas e a natureza nos seduz com o bordado da sua escrita!

Reunimo-nos no perfumado Jardim dos Pêssegos e das Ameixas para discorrer sobre as alegrias da divina fraternidade. Todos os meus irmãos são talentosos e belos, todos são Huì-lian (¹). Cantamos e recitamos as nossas poesias e sou eu o único que devo sentir vergonha perante Kàng Lè (²).

O gozo sereno da paisagem deste jardim nunca termina, discorrendo sobre temas elevados que se vão tornando cada vez mais transparentes.

Desenrolamos esteiras requintadas e, sentados entre as flores, passamos taças de vinho e embriagamo-nos sob a lua.

Se não fizermos boas obras, como poderemos revelar os nossos sublimes pensamentos?

Se alguém houver que não seja capaz de escrever um poema, terá de ser castigado segundo as regras do Jardim Jin-gu (³), pagando uma multa de três copos de vinho.




Li Bai (701 - 762).






(Traduções de Cláudia Ribeiro e de Zhang Zhèng-Chun in "O Rosto do Vento Leste - Doze textos de prosa clássica chinesa", Assírio & Alvim, 1993)




(1) Xiè Huì-lián foi um escritor precoce que viveu durante o período das Dinastias do Sul. Aos dez anos de idade já compunha poemas de considerável valor. Foi discípulo de Xiè Líng-yún.


(2) Outro nome pelo qual o mestre antes referido era conhecido.


(3) O nome do jardim onde Cháng-jián organizava banquetes para os convidados comporem versos. 








(Li Bai brindando à lua)


terça-feira, 29 de março de 2016

PARA LI BAI


Tu escreves como o pássaro canta. Teu gorjeio? Versos.
Se não cantasses, as madrugadas seriam menos rubras
E os crepúsculos menos azuis. 
Quando a embriaguês te inspira
Os Imortais inclinam-se das nuvens para te escutar,
O tempo suspende seu voo,
O amante esquece a sua amada.
Tudo és o sol e nós, os outros poetas,
Somos apenas estrelas.
Acolhe, ó meu amigo,
O balbucio do meu respeito.


Du Fu (712 - 770)


(Tradução de Cecília Meireles a partir da versão francesa de Franz Toussaint).











quarta-feira, 9 de março de 2016

EM CASA DO MEU AMIGO TCHANG-TSÈ, LETRADO DO PAÍS DE WEI




Que alegria essa noite. A mesma lâmpada nos iluminava...

Como envelhecemos! Como passam depressa a adolescência e a mocidade! Pensar que a maioria dos nossos amigos já estão nos Jardins sem Luz!... Estou tão emocionado que deves sentir bater meu coração.

Depois de vinte anos, aqui estou sentado em tua casa. Quando nos separámos, ainda não estavas casado, e eis que acariciei teus filhos e tuas filhas!

Deste a estas crianças uma educação perfeita. Sinto que te inclinaste sobre cada uma delas como te inclinavas outrora, sobre os belos poemas que escrevias.

Nas proximidades da tua casa, teu filho mais velho me cumprimentou respeitosamente. Perguntou pela minha saúde, pela minha família, pela minha terra natal. Desculpa-me, criança, por não te haver respondido. Eu escutava o murmúrio de um riacho que me conheceu quando eu era pequenino como tu...

Nossa velha amizade, Tchang-Tsé, é o meu mais precioso tesouro, pois estamos na idade em que o passado tem mais perfumes que um ramo de lilases em flor. 



Du Fu (712 - 770) (*)


(Tradução de Cecília Meireles)





(*) A par de Li Bai, de quem foi um íntimo amigo, dedicando-lhe, inclusive, um poema de soberbos versos, Du Fu é considerado um dos príncipes maiores de toda a poesia chinesa já produzida. Autor de mais de mil poemas que até hoje sobrevivem, celebrizou-se pelo modo incrivelmente perfeccionista como encarava o seu trabalho, dotado de intrincadas rimas tonais e vocabulários de cariz original e inspiração magnífica.  

Apesar de ter conhecido as vivências da corte, a sua passagem por lá foi deveras célere. Não obstante, os seus poemas registam diversas impressões recolhidas durante esses tempos. Viveu numa era de grande conturbação política e económica, e os conflitos que a assombraram mereceram de igual modo um registo poético
Nos seus últimos trinta anos de vida, porém, optando por uma existência mais recatada, humilde e munida de parcos haveres, a pobreza daí resultante, bem como diversos problemas de saúde, viriam a assolar esse período de maior isolamento, sem que a sua poesia se privasse de tal influência.
Aos 58 anos, prostrado na miséria e na doença, morre, na companhia da sua esposa e filhos, numa barca que descia o rio Xiang, província de Hunan. 











segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Três poemas de Li Bai - Lamentos em tempo de guerra



I. Os corvos crocitam à noite

Nuvens de poeira amarela sobre os muros da cidade,
Os corvos voltam aos seus ninhos e crocitam nos ramos.
Por detrás da cortina azulada da sua janela,
Uma jovem tece um brocado em seu tear.
De repente, pára com a lançadeira,
Pensa tristemente no marido que está longe
E, sozinha no quarto vazio,
Deixa cair uma chuva de lágrimas.


(tradução de Cecília Meireles)



II. Rosa vermelha

A esposa do guerreiro está sentada à janela,
De coração aflito borda uma rosa branca numa almofada de seda.
Picou-se no dedo! Seu sangue corre na rosa branca que se torna [vermelha.
Seu pensamento vai ter com o seu amado que está na guerra
E cujo sangue tinge, talvez, a neve de vermelho.
Ouve o galope de um cavalo. Chega enfim o seu amado?
É apenas o coração que lhe salta com força no peito...
Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata
As lágrimas que cercam a rosa vermelha.


(tradução de Cecília Meireles)



III. Ausência

A fina lua é pálida à distância...
Eu perco-me sozinha nos trabalhos, 
as canseiras do meu lar.
Tomara que o vento e suas longas asas
não tombe no esquecimento o duro outono.
O meu coração está na fronteira. 
Quando estará vencido o inimigo
E poderei enfim ter nos braços, apertado,
O meu esposo querido, que a distante guerra
Roubou às flores do meu jardim de amor?


(Adaptado por Pedro Belo Clara a partir da tradução de Francisco Carvalho e Rego)





Li Bai (701 - 762)










quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

CANÇÃO DO RIO QIUPU



Muito tem crescido o meu branco cabelo.
O coração abriga uma infinda inquietação. 
Quando lanço um olhar ao espelho,
pergunto-me donde virá a geada outonal.


(Li Bai 701 - 762)



(Traduzido e adaptado da versão inglesa por Pedro Belo Clara).



Nota: este é o décimo-quinto poema de um conjunto de dezassete que Li Bai escreveu junto ao rio Qiupu, localizado na província de Anhui - a mesma onde o poeta viria a falecer. 
Segue-se uma imagem do mesmo. 










sexta-feira, 9 de outubro de 2015

NO CUME DA VERDE MONTANHA



Perguntas-me porque me quedo
no topo das verdes montanhas?

Solto uma gargalhada, não respondo;
meu coração está em paz.

Flores de pessegueiro tombam,
ao horizonte flutuam:
aqui, neste mundo sem Homem.



Li Bai (701 - 762)


(Tradução e adaptação da versão inglesa de Dongbo por Pedro Belo Clara).





Nota: Não se saberá ao certo onde Li Bai, um dos maiores poetas chineses do todos os tempos, escreveu este poema, mas acredita-se que o tenha feito algures nas montanhas Huangshan, a sul da província de Anhui (onde viria a falecer). 
Uma visão que atesta estas montanhas como exemplares de estonteante beleza, encontra-se retratada na fotografia abaixo apresentada (fonte: travelwithoutborders.wordpress.com).









quinta-feira, 6 de agosto de 2015

DIÁLOGO NA MONTANHA



Perguntais porque motivo moro na montanha verde,
Intimamente sorrio mas não posso responder.
As flores de pessegueiro são levadas pela água do rio...
Há outro céu e outra terra para além do mundo dos homens.



Li Bai (701 - 762)





(Tradução de Cecília Meireles in "Li Po e Tu Fu, Poemas Chineses" - Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1996).








quarta-feira, 27 de maio de 2015

NOITE DE TRISTEZA



Uma bela mulher descerra
a delicada persiana de bambu.
Senta-se com expressão profunda;
suas sobrancelhas tremelicam como traças.
Quem lhe terá posto dorido o coração?
Em seu rosto, visível apenas
húmidos vestígios de lágrimas.




Li Bai (701 - 762).

(Tradução de Shigeyoshi Obata, em "The Works of Li Po" (1935). Tradução da versão inglesa por Pedro Belo Clara).










domingo, 24 de maio de 2015

PENSAMENTO NOCTURNO



O luar, brilhante,
aparece em frente da cama
como geada pelo chão. 


Levo os olhos à lua formosa,
e baixando o rosto penso 
na minha terra natal. 





Li Bai (701 - 762) (*) 








(Versão inglesa de Qiu Xiaolong. Tradução a partir da mesma por Pedro Belo Clara.)










(*) Li Bai é considerado o maior poeta romântico da dinastia Tang (618 - 907). A alcunha de "Poeta Imortal" ainda hoje lhe é outorgada. Cerca de mil poemas deste destacado vulto da literatura chinesa permaneceram incólumes ao avanço dos tempos. Chegaram ao ocidente as primeiras traduções em 1862, por mão de Marie-Jean Léon. Ezra Pound considerou a obra de Li Bai «o maior exemplo da visualidade» na poesia chinesa, referindo-se à capacidade de cristalizar em palavras a imagem que diante do olhar do poeta se anuncia.









(Li Bai)