Mostrar mensagens com a etiqueta Dinastia Tang. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dinastia Tang. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

UM POEMA PARA OS MEUS, NA VELHICE (o último poema de Bai Juyi)

 
Setenta e cinco anos de idade,
cinquenta mil moedas para gastar. 
Minha esposa envelhecendo comigo,
os sobrinhos cirandando aqui à volta,
alimento-me de sopa de aveia, de arroz tenro.
A minha cabaia com um forro novo.
Nesta casa simples, a sorte de estar junto dos meus.
Colocaram meu leito diante de um painel de montanhas e nuvens,
o fogãozinho ao lado dos cortinados azuis.
Meu neto lê um livro para mim,
os cozinheiros afadigam-se, fazem o jantar.
Escrevo poesia, respondo aos amigos,
entretenho-me a coser roupa,
escolho e preparo ervas medicinais.
Terminadas todas as pequenas tarefas,
adormeço de rosto voltado para o sol.






Bai Juyi (772 – 846)












(Tradução de António Graça de Abreu in "Poemas de Bai Juyi", Instituto Cultural de Macau, 1991.)














"Velho com Criança",
de Xu Yan (1956 - )




sábado, 15 de janeiro de 2022

Três breves poemas de Li Bai

 
I. O pescador

A terra bebeu a neve,
as ameixeiras estão de novo em flor; 
as folhas novas do salgueiro doiradas ardem,
as águas do rio são prata.
Salpicadas de oiro, as borboletas
com suas bocas de veludo tocam o coração das flores.

Num barco parado,
o pescador puxa a sua rede prateada,
agitando as águas quietas. 

Pensa numa rapariga, em casa,
como andorinha no aconchego do ninho;
pensa na rapariga que, em casa,
como a andorinha espera o seu companheiro. 


II. Diz a rapariga de Ba¹

As águas do rio Ba são velozes como uma seta; 
o barco no rio desliza
como se asas tivesse. 
Em dez dias percorrerá três mil Li.²

E tu partes, amor.
Ah, quantos anos até ao teu regresso? 


III. A mulher de Yue³ (IVº poema duma série de V)

Ela, uma rapariga de Dongyang, está descalça na margem;
ele, um barqueiro de Kuaiji, permanece no seu barco.
A lua brilha ainda no céu. 
Olham um para o outro - de coração partido. 




Li Bai (701 - 762)








(Versões de Pedro Belo Clara a partir de:
I - tradução de R. T. Smith, revista Shenandoah (blogue), Fev. 2012;
II e III - tradução de Shigeyoshi Obata, em "The Works of Li Po", Tóquio, 1935.)







(1) Ba é a região mais oriental da província de Sichuan, atravessada pelas velozes águas do rio Yangtze, o maior de toda a Ásia.

(2) Antiga medida chinesa de distâncias. O valor não é muito exacto e tem variado ao longo do tempo, mas actualmente equivale a quinhentos metros.  

(3) Um estado da China antiga, correspondente à área onde hoje se encontram três províncias daquele país: Zhejiang, Xangai e Jiangsu. Quando Li Bai era vivo, tal estado era já considerado um vassalo da China imperial. 

(4) Cidade que nos dias de hoje pertence à província de Zhejiang, na zona oriental costeira da China.

(5) Localidade da mesma província, actualmente designada de Shaoxing. 












"Chinese fisherman with commarant"
de Lynn B. Blair



sábado, 11 de setembro de 2021

Seis breves poemas de Bai Juyi

 
I. Os grous

As pessoas procuram sempre o que lhes dá prazer;
imutáveis as coisas, mutáveis os sentimentos dos homens.
Talvez os grous possam dançar, elegantes e altivos.
Gosto mais deles, de pé, silenciosos, solitários. 


II. O espelho e a taça

Quero trocar o espelho de bronze 
por uma taça dourada ou de jade branco.
No espelho não posso fugir à velhice,
mas minhas penas dissipam-se na taça de vinho.


III. Frescura de outono

Calmo, tranquilo, durmo o dia inteiro;
velho, doente, esquecido pelos outros homens.
Ao cair da tarde, à entrada da casa,
um imenso tapete de flores de acácia.


IV. Início da primavera

A neve derrete, os dias cada vez mais quentes,
o gelo desaparece, raios de sol inundam a terra,
pouco a pouco os rebentos ganham força.
A primavera só não desfaz a geada branca em meus cabelos.


V. Velhice 

Por vezes, um dia inteiro caminhando no jardim;
por vezes, até nascer o sol sentado diante da candeia.
Ninguém entende os meus silêncios.
De quando em quando, um longo suspiro.


VI. Os damasqueiros da aldeia de Zhao

Venho todos os anos ao desabrochar dos damasqueiros.
Há três lustros, tantas vezes olhei as flores vermelhas!...
Tenho setenta e três anos, regressarei uma vez mais?
Esta primavera estou aqui para lhes dizer adeus.





Bai Juyi (772 – 846)













(Traduções de António Graça de Abreu in "Poemas de Bai Juyi", Instituto Cultural de Macau, 1991.)














"Love Birds and Pink Flowers",
de T. C. Chiu


terça-feira, 6 de abril de 2021

Dois poemas de Du Fu em tempo de guerra - Parte II

 
I. Com a neve


nos campos de batalha agonizam as almas dos caídos
aflito e só, o velho balbucia por perto
e ao crepúsculo, numa confusão de nuvens baixas
a neve subitamente forte começa a cair em turbilhão com o 
          [vento
a minha jarra de vinho está vazia e abandonada
na frigideira nada mais que a lembrança do lume
das inúmeras regiões nenhuma notícia chega
sentado, consternado, assim escrevo no vazio




II. De regresso do norte


desde que caí na poeira dos bárbaros
até ao meu regresso, os cabelos ficaram todos brancos
passou-se apenas um ano até voltar à minha cabana em 
          [palha
encontrei a minha mulher com a roupa toda remendada
os seus lamentos misturavam-se com o som do vento nos 
          [pinheiros
os nossos soluços misturavam-se ao som da ribeira
o meu filho que toda a vida acarinhei
ficou com uma expressão branca de neve
ao olhar o pai vira as costas e chora
está todo sujo e descalço
na cama os dois filhos mais novos
as suas roupas remendadas e aumentadas mal cobrem as 
          [pernas
os desenhos do mar e das ondas estão rasgados
os velhos bordados a desfazerem-se
o deus do mar e a fénix púrpura
no seu vestuário reduzido estão ao contrário
tive uma má sensação
mas então lembrei-me de que no saco de viagem trazia 
          [tecidos
para vos proteger do frio que vos faz tremer
de uma bolsa tiro presentes para a minha mulher
mostro-lhe também um creme e tintas
o seu rosto emagrecido ganha nova cor
os meus filhos vão logo pentear-se
imitando a mãe, nenhum detalhe lhes escapa
com a maquilhagem esborratam as mãos
e espalham-na na cara
desajeitadamente desenham sobrancelhas enormes
por ter regressado são e salvo para junto dos meus
até esqueço a fome e a sede
pendurando-se interrogam-me e puxam-me a barba, como 
          [repreendê-los?
perguntam-me pelos maus tratos que sofri enquanto estive
          [cativo dos rebeldes
aceito com alegria esta algazarra que me rompe os ouvidos






Du Fu (712 - 770)












(Versões de Manuel Silva-Terra in "Tu Fu - Entre Céu e Terra", Ed. Licorne.)



















(Detalhe de "Dezoito Canções Duma Flauta Nómada: A História da Senhora Wenji",
autor desconhecido, princípios do século XV)



domingo, 14 de março de 2021

Dois poemas de Du Fu em tempo de guerra (*) - Parte I

 
I. À aldeia chega o oficial recrutador



ao final do dia alojo-me na aldeia em pedra
pela noite, um oficial chega para recrutar os homens
o velho escala o muro e foge
a velha vai à porta
o oficial berra com ar furioso
a mulher chora com ar acabrunhado
ouço-a dizer
«os meus três rapazes partiram para combater em Yan-cheng¹
tenho uma carta de um deles a dizer que vai chegar em breve
os outros dois morreram em combate
em casa não há mais homens
só um menino ainda de colo
só um menino, a sua mãe está em casa
a saia rota, muito pobre
sou uma mulher velha, já não tenho forças
senhor oficial, posso seguir-vos e partir esta noite
se é urgente responder à chamada de Ho-yang
ainda vamos a tempo de preparar a refeição da manhã»
na noite que avança, as vozes calam-se
parece-me ouvir soluços bafados
de madrugada, quando começa a clarear, retomo o meu                      [caminho
ao velho digo adeus




II. Até ao céu


chegados ao céu, a viagem não tem retorno
ao final do dia chego à margem do grande rio de leste
          [e ponho-me a chorar
a oeste do Kan-su², desde o planalto de Ching-hai³ até                        [noroeste não se cultiva nada
os cavaleiros bárbaros e os guerreiros tártaros entraram no
          [país de Pa e de Shu
as vagas turbulentas chegam até ao céu, o vento arranca as
          [árvores
adiante fogem os grandes grous, atrás vêm os patos 
          [selvagens
repetidamente envio cartas para Lo-yang
há dez anos sem notícias dos meus irmãos 



Du Fu (712 - 770)








(Versões de Manuel Silva-Terra in "Tu Fu - Entre Céu e Terra", Ed. Licorne.)










(*) Referência ao sangrento conflito que decorreu entre 755 e 763: a revolta do general  An Lushan.


(1) Literalmente "Cidade Salgada", devido à produção e extração de sal marinho que se realiza nas suas imediações há mais de dois mil anos. Situa-se nas margens do Rio Amarelo, na província chinesa de Jiangsu.


(2) Província chinesa cuja capital é Lanzhou. É uma região historicamente importante graças à construção da célebre muralha da China, a duros conflitos com povos bárbaros aí registados e à famosa Rota da Seda, que em tal território tinha parte do seu caminho.


(3) Outra província chinesa que faz fronteira com a anterior, a nordeste. É uma região ampla e árida, de fraca densidade populacional, apesar de ser aí que uma maior variedade de raças e culturas se encontra. Deve o nome ao lago que nela se encontra, o maior de toda a China.


(4) Antigo estado chinês situado no vale de Jialing, na actual província de Sichuan.
 

(5) Um antigo estado independente que hoje integra a província de Sichuan, no sudoeste chinês.


(6) A capital oriental da China, perto da qual Du Fu nasceu, em 712.











(Retrato de Du Fu,
autor desconhecido.)
 

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Seis breves poemas de Bai Juyi

 
I. A brisa no alaúde

Abandono o alaúde no banquinho
e quedo-me sereno, a pensar.
Não é preciso eu dedilhar as cordas,
acaricia-as a brisa, tocam sozinhas.


II. Tranquilidade

O homem feliz vê voar os dias,
o homem triste arrasta os anos, como o caracol.
Quem ignora vicissitudes, alegrias
olha, por igual, o viajar da lua e do sol.


III. Uma nuvem no alto da montanha

Uma nuvem branca no alto da montanha,
intacta face ao avançar da manhã.
O trigo ressequido no campo
perde o viço e o verde.
O homem cresce e murcha,
cumpre e concretiza o quê?
Não pode transformar-se em chuva
e seguir o vento Leste.


IV. Subindo ao terraço de Lingying, olhando para norte

Subindo à montanha,
entendo a pequenez dos domínios do homem,
olhando na distância,
entendo o vazio das coisas terrenas.
Volto a cabeça, regresso à corte e ao mercado,
como um bago de arroz caindo no grande celeiro.


V. Primavera em Luoyang

Ao olhar os arrozais, a Primavera em Luoyang é eterna. 
Regresso, vinte anos após a minha última visita.
Uma coisa não reencontrei, a minha juventude.
Tudo o mais permanece inalterado.


VI. Noite solitária no início do Outono

Ondulam folhas finas por detrás do poço,
lavadeiras batem roupa, o Outono começa a cantar.
Descubro um recanto sob os beirais, adormeço solitário.
Ao acordar tenho o leito inundado de luar. 




Bai Juyi (772 – 846)









(Traduções de António Graça de Abreu in "Poemas de Bai Juyi", Instituto Cultural de Macau, 1991.)








(Bai Juyi, 
num retrato de
Chen Hongshou 
(1598 - 1652))

sexta-feira, 15 de março de 2019

QUARENTA E CINCO ANOS


Idade: quarenta e cinco anos.
O seu cabelo, dos lados, tornou-se grisalho;
esguio e esbelto, é a poesia o seu maior falhanço;
brusco, caloroso, algo louco quando bebe.
Está agora mais velho, e ao destino tudo entrega;
a qualquer lugar confortável chama casa.
Quem sabe? No monte Lu¹, na próxima primavera,
talvez construa uma cabana com telhado de palha.




Bai Juyi (772 - 846)







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Burton Watson.)








(1) O Monte Lu é por excelência o centro da vida espiritual chinesa. Durante séculos que assim tem sido. Palco de diversos templos, tanto taoístas como budistas, também se adorna de marcos do confucionismo. Lugar de retiro e de ensinamento da eleição de muitos mestres e mentores, além de ocasionais eremitas que buscavam paz interior, uma ligação profunda com o que os rodeava ou simplesmente uma existência frugal, longe das azafamas citadinas e das intrigas da corte. Devido à sua estonteante beleza natural, foi e ainda é um lugar que inspira diversos artistas. Situado na província chinesa de Jiangxi, em 1996 foi declarado património mundial da UNESCO.

Pelo que se lê no poema, que é um curioso auto-retrato do autor aos quarenta e cinco anos de idade, feito em pleno exílio (ano de 817), o poeta equacionava uma vida de eremita para o restante da sua vida, algo que pelo menos no imediato não se sucederia, pois em 819 foi convidado a reentrar no serviço administrativo do império. Contudo, os anos finais da sua existência foram realmente passados num templo, em Xianshang. É nesse local que ainda hoje se ergue um monumento fúnebre em sua memória. 










(Vista circundante a partir do Monte Lu)






sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Quatro poemas de autores da dinastia Tang


I. Ganso solitário ¹

Ganso solitário: não beberás, tampouco debicarás.
Respondes ao chamamento do voo, o bando ignora.
Quem terá pena dum retalho de sombra que está só?
Perdido de ti nas dobras de mil nuvens, ainda
ao alcance do olhar, observas quem toma a dianteira.
Os pesares aumentam, como se a voz fosse ainda audível.
E os corvos no mato, sem um ponto de sentido,
grasnando, clamando aos seus grosseiros semelhantes.  


Du Fu (712 - 770)




II. Rio nevado ²

Mil montanhas sem rastro de qualquer voo,
dez mil trilhos sem vestígio humano.
Um barco solitário, um velho de capa e chapéu de bambu
sozinho pescando a neve do gélido rio.


Liu Zongyuan (773 - 819) ³




III. Ancorando, de noite, na Ponte dos Áceres ⁴

A lua afunda-se, os corvos grasnam,
a geada congela o céu.
Os áceres do rio estremecem
no revérbero das lanternas.
O meu sono é inquieto.
Para além de Suzhou⁵, o templo da Montanha Fria.
Ecos de sinos vão chegando ao barco.
É meia-noite.


Zhang Ji (? - 780) ⁶




IV. Retiro no bosque de bambus

Sozinho no remoto bosque de bambus,
toco alaúde e assobio bem alto.
Nessas profundezas desconhecidas ao Homem
chega a lua - e comigo partilha a sua luz.



Wang Wei (701 - 761)







(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções para inglês de: I) David McGraw; II) Qiu Xiaolong, Dongbo, Kenneth Rexroth, David Hinton e Gary Snyder; III) Dongbo e Gil de Carvalho; IV) Dongbo.) 







(1) Embora o poema nos conceda uma imagem bela e ao mesmo tempo pungente, e ainda que seja provável basear-se numa cena real testemunhada pelo poeta, a sua construção sugere uma interpretação mais profunda. Numa primeira análise, o lamento que é transversal ao poema pode ser entendido como sendo o do próprio poeta, ele mesmo o cisne retratado, que triste e só vê o seu bando partir sem que o consiga alcançar (a velhice e a passagem do tempo.) Contudo, uma análise mais detalhada sugere que o poeta refere-se antes ao estado geral do seu país num momento de instabilidade política, sendo todo o poema uma alegoria da situação então vivida. Assim, o cisne é uma metáfora da grande dinastia Tang, expoente máximo da prosperidade económica e do florescimento cultural na China antiga, na época da composição a registar um vincado declínio. Seguindo esta ideia bastante bem fundamentada, os corvos que em contraposição ao cisne (preto vs. branco) aparecem no poema seriam a metáfora da decadência em si, trazida pelas forças emergentes no país. Embora a dinastia Tang só conhecesse o seu fim muito depois da morte de Du Fu, em 907, o poeta testemunharia o sangrento conflito conhecido por A Rebelião de An Lushan, em 755, pelo que provavelmente o poema terá sido escrito nessa altura (e em Kuizhou, onde viveu por quatro anos, já bastante debilitado fisicamente). Os corvos que grasnam para os seus grosseiros semelhantes podem perfeitamente ser o feliz retrato de todos os partidário de tal golpe, findado apenas em 763 - e Du Fu, como dissemos, o pobre cisne que ficou para trás, condenado a viver entre esses pouco desejáveis convivas. 


(2) Apesar de ser um poema muito breve, além de famoso, existem várias versões que, sem grande prejuízo para a essência global do texto, sugerem ideias distintas a respeito da belíssima imagem que o poema transmite. É, acima de tudo, um poema bastante visual, registado em pleno inverno, na melancolia da neve e do vazio dos caminhos. Exala uma solidão notável, e em todas as principais versões isso faz-se notar. A grande questão, aqui, prende-se com o último verso do poema, onde a maioria das traduções refere o velho homem, sozinho, a pescar na neve do gélido rio. Contudo, as traduções consultadas que são da autoria de indivíduos nascidos ou com raízes no oriente, oferecem uma pequena mudança que, no retrato geral, concede ao poema uma dimensão totalmente distinta. Ora, nessas é referido que o velho homem pesca a neve do gélido rio. Isto é, num dia tão frio, tão desprovido de vida, que peixe, afinal, se poderá pescar num rio coberto de neve? (E não gelo, curiosamente, em todas surge a palavra "snow".) Assim, a ideia deixada é a de um barco solitário, um velho homem com a sua cana e um fio frágil estendido às águas, quase como num velho hábito, num cumprir de ritual da mais alta importância... pescando apenas a neve solta pelo rio. Dado que os autores orientais deixaram esta imagem nas suas traduções, por considerarmos existir uma maior facilidade na ligação às origens do poema, também ele oriental, apresentámos a sugestão de tais figuras. Resta acrescentar que, embora não haja total certeza, o rio referido talvez seja o Xiao ou o Xiang, algures no sul de Hunan, onde o poeta passou o primeiro dos seus dois exílios. 


(3) Escritor, poeta e político nascido na actual Yongji, em Shanxi. Foi um dos fundadores do Movimento Prosaico Clássico, pelo que não se estranha o facto de ter sido um dos melhores executantes da prosa chinesa da época - e não só. A sua carreira floresceu bastante na fase inicial, mas uma infeliz associação política levou-o a enfrentar dois exílios, primeiro para Yongzhou e depois para Liuzhou - onde viria a tornar-se governador. (Ainda hoje, nesta localidade, ergue-se um templo e pode-se visitar um parque que celebra a sua memória.) O exílio, apesar de tudo, trouxe a benesse do crescimento e desenvolvimento da actividade literária, exercida, além da já referida poesia e prosa genérica, ao nível da fábula e do ensaio - um dos seus mais notáveis exemplos aborda questões da filosofia confuciana, taoísta e budista. O poema que aqui se traduz é a sua mais emblemática obra, conhecido em toda a China e até no Japão. 


(4) Ainda existente nos dias de hoje, é possível encontrá-la na cidade de Suzhou - ela própria situada nas cercanias do famoso templo da Montanha Fria (Hanshan). 


(5) Situa-se no delta do rio Yangtzé, na província de Jiangsu. Foi fundada no ano de 514 a. C., e dada altura chegou a ser uma das dez maiores cidades do planeta. Berço da cultura Wu, ainda hoje é um largo centro económico e comercial com mais de quatro milhões de habitantes. 


(6) Pouco se conhece sobre este poeta nascido em Xiangyang, provavelmente em 712 ou 715. Devido a essa discrepância, e porque muitos preferem manter incerto a data do seu nascimento, optámos por apresentá-lo do mesmo modo. Sabe-se, contudo, que Zhang Ji passou nos exames imperiais, os jinshi, em 753, e desempenhou com sucesso o cargo de secretário do departamento de receitas do estado. Existem vários poemas que lhe têm sido erradamente creditados ao longo dos anos, o que só contribui para adensar a confusão em torno do quase esquecido poeta. Porém, graças à famosa antologia "Trezentos Poemas da Dinastia Tang", traduzidos para língua ocidental por Witter Bynner, o poema aqui apresentado chega até nós sem qualquer dúvida sobre a sua autoria. É, por isso, a obra mais famosa de Zhang Ji, valendo-lhe até uma estátua, ainda hoje existente, junto da famosa ponte dos áceres. Certos poetas japoneses parecem nutrir uma predilecção pelos seus poemas, já que devido ao seu estilo de composição muitas vezes os utilizam nos seus Shigin, uma tradicional forma de recitar poesia através do canto. 









segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Quatro poemas de Du Fu


I. Luar nocturno

A lua de Fuzhou¹ está cheia, esta noite.
Sozinha no teu quarto a contemplas.
Em Chang'an² sofro pelos nossos filhos,
que sentem a falta do pai.
Consigo imaginar os seus caracóis húmidos
e os seus braços de jade frios como cristal.
Oh, quando estaremos juntos de novo?
- luar cintilante reflectido
em trilhos de lágrimas secas.


II. Anotando os meus pensamentos enquanto viajo de noite

Uma orla de finos juncos na brisa suave,
um grande barco sozinho na noite.
As estrelas suspensas sobre a árida terra,
a lua nascendo do rio Yangtze³.
Como escrever alguma vez me levaria à fama?
Desisti do meu cargo pela doença e idade.
Um errante solitário. Que sou senão
uma gaivota entre o céu e a terra?


III. Lua cheia

A lua solitária defronte da minha torre derrama-se;
o frio Jiang⁴ agita as cortinas da noite.
Inclinada sobre as vagas, o seu oiro não tem descanso;
cintilando na minha esteira, a sua seda suaviza-se.
Ainda não minguou - as montanhas vazias estão silentes;
permanece bem alto, e as constelações esmorecem.
No meu velho jardim, pinheiros e cássias florescem
- oferecendo um brilho puro por vários quilómetros. 


IV. Último dia de outono, ano de 767

O meu tempo de vagabundo tarda em findar,
o outono de pesares está a um crepúsculo de terminar.
Miasmas pairam pelos domínios do Mestre Kui⁵;
a geada permanece fina no palácio do Rei Chu⁶.
Em tons de esmeralda, ervas rivalizam com brumas veladas;
em tons de carmesim, flores suportam folhas geladas.
Ano após ano, uma ligeira sensação de queda agitada.
Nada é como era na minha velha casa.





Du Fu (712 - 770)









(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções de Dongbo (I), Bill Porter (II) e David McCraw (III e IV)).











(1) Fuzhou é uma cidade cuja fundação remonta ao século II a. C., embora só no século VI da nossa era tenha ficado sob administração chinesa. Situa-se a cerca de 40 km da costa, no delta do rio Min, e actualmente é a capital da província de Fujian. 

(2) Trata-se da cidade que por mais de dez dinastias foi a capital chinesa. Actualmente designada por Xian, chegou a ser a cidade mais populosa do mundo, um exemplo de riqueza e civismo - situada no fim da famosa rota da seda. 
Embora não fosse nativo de lá, Du Fu tinha fortes raízes familiares nessa cidade, sendo uma das suas predilecções. 

(3) Yangtzé, ou Rio Azul, é o maior rio da Ásia. Nasce numa região montanhosa do Tibete e percorre mais de 6000 km para desaguar no mar da China oriental. Foi neste rio, a bordo de um barco, que Du Fu faleceu. Tinha então 58 anos e um historial de imensas doenças debilitantes. 

(4) O antigo nome de um outro rio, presumivelmente o rio Wei, situado na província de Shaanxi. 

(5) É possível que se refira ao Kui da mitologia chinesa, um demónio das montanhas, de uma só perna, a quem se atribui a criação da música e da dança. Portanto, os domínios do mestre Kui seriam, assim, as montanhas onde ele mitologicamente habita - na altura da criação do poema cobertas de neblinas estranhas. 

(6) Decerto uma referência ao Estado de Chu, que se instaurou durante a dinastia Zhou e durou de 1030 a 223 a.C.. Talvez o poeta somente visse as ruínas de tal palácio, mas sabe-se que o poema foi escrito durante os quatro anos que passou em Fengjie, distrito de Chongquing, região essa que esteve no domínio do dito Estado - o que suporta a nossa suposição. Os invernos rigorosos do lugar, repletos de chuva e humidade, juntamente com as parcas condições de higiene e habitação, tornavam Fengjie, bem perto das famosas Três Gargantas, um local a evitar. 








(Fengjie, descendo o rio Yangtzé)








sábado, 7 de julho de 2018

Quatro poemas de Shih Te (II)

I.

Quando era jovem, estudei por muitos livros
e aprendi a via da espada.

Aos gritos cavalguei rumo à capital,
mas logo soube que as hostes bárbaras
já tinham sido expulsas...
Não mais havia lugar para heróis.

Portanto, vim para estes cumes cristados
e, deitado, comecei por escutar 
o fluir do riacho cristalino.

Eis o sonho de glória dum jovem:
macacos montados no dorso dum boi.¹


II.

A uma grande distância, 
vejo um grupo de homens na lama,
divertindo-se com qualquer coisa 
que na lama encontraram.

Quando os observo, ali no meio da lama,
o meu coração enche-se de tristezas.
Porque simpatizo com homens assim?

Por ainda conseguir recordar o gosto da lama. ²


III.

Gostarias de saber como apanhar um rato?
Não tomes como teu mentor um gato regalado.

Se desejares aprender sobre a natureza do mundo
não leias belos livros, pois a eles te apegarás.
A verdadeira jóia encontra-se num saco grosseiro;
a natureza de Buda repoisa em cabanas.

Aqueles que se agarram à aparências das coisas
nunca conseguem compreender.


IV.

O vinho da sabedoria é como água fresca e pura.
Dele bebe profundamente, pois tornar-te-á sóbrio.

Onde vivo, nas encostas da Montanha Fria,
nenhum tolo jamais me encontrará.
Vagueio por todos os vales sombrosos,
mas nunca na direcção que o mundo toma.
Sem preocupações, sem pesares,
sem vergonha, sem glória.





Shih Te (séc. IX)







(Versões de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por J. P. Seaton em "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)









(1) Importa aqui esclarecer que a referência ao dito animal, o boi, parece receber influências de um dos mais antigos ditados da tradição zen: «Aquele que busca a iluminação assemelha-se a um homem montado num burro em busca de um burro». Sim, a troca dos animais é óbvia, mas a influência existe. Pois o grande mestre zen Kakuan, mais tarde, irá pegar neste velho ditame e alterar o protagonista nos seus famosos desenhos, datados do século XII. É então aqui que entra a figura do boi. Não por ter considerado o dito mais valioso ou superior ao burro, se bem que frisa a sua elegância, mas porque o próprio Buda teve, como um dos seus títulos mais antigos, o epíteto de "Rei Boi". Pode parecer estranho em português tal nome, também daí retirar um elogio deveras respeitoso, pelo que só poderá ser compreendido à luz do imaginário hindu daquela época e do extremo valor que os povos atribuíam a esse animal. O sábio taoísta Lao Tzè, por exemplo, foi diversas vezes retratado, séculos depois da sua morte, no dorso de tal exemplar.
O nosso poeta, contudo, é bastante cáustico na sua crítica. Pega na velha imagem e, no lugar do homem, coloca um macaco, nítido sinal depreciativo das mais baixas características humanas, de típica manifestação em consciências ainda adormecidas, isto é, que ignoram a sua verdadeira identidade. 
Chama-se por fim a atenção do leitor para o seguinte: os desenhos que servem de referência são do século XII e Shih Te terá vivido durante o século IX. Como pôde a influência ser possível afinal? Ou resultou de mera coincidência ou, como ainda se suspeita, Shih Te não foi um homem em particular mas sim vários que escreviam sob esse nome, prática essa que até pôde ter sido estendida aos séculos seguintes. É certo que muitos se refugiaram na famosa Montanha Fria em busca da iluminação ou apenas de um modo de vida mais simples, e muitos deixaram obra escrita, mesmo em cercas e muros, e alguns assinavam com um só nome comum, uma espécie de alcunha, comportamento típico em quem desejava esquecer a sua identidade social. Como oportunamente referimos, o mesmo problema aplica-se a Han Shan, o grande companheiro deste poeta. É provável que ambos tenham existido fisicamente, sim, mas também é possível de aceitar que outros homens que vieram para as montanhas depois deles tenham deixado poemas assinados com os mesmos nomes que ambos usaram em vida. Recordamos que Han Shan significa "Montanha Fria" e Shih Te apenas "Órfão". 



(2) Trata-se de um poema onde o autor admite claramente não ter ainda transcendido por completo os apelos do mundo ou, se preferir, os prazeres mundanos. A via espiritual que decidiu percorrer tem ainda, como se vê, tal obstáculo atravessado no trilho evolutivo: o apego às ilusões da matéria, personificadas aqui na figura da lama. Recorde-se, porém, a imagem do lótus, figura tão querida nas tradições budistas, uma flor que finca as raízes na lama e floresce sobre as águas. Por isso mesmo é tida como a perfeita metáfora para o ser humano e o seu percurso de despertar. 
Na versão apresentada do poema optou-se por manter a repetição da palavra "lama", tal qual o autor decidiu realizar no seu original.