sábado, 16 de abril de 2016

Quatro poemas espirituais de Dogen


I. Indo ou vindo? 

A ave migratória
não deixa rasto,
nem de guia necessita.



II. Zazen (1)

A lua reflecte-se
nas águas serenas:
até as ondas, quebrando-se,
espelham a sua luz.
Assim a mente silenciosa.



III. Prodigiosa mente-nirvana (2)

Porque as flores que brotam
no nosso lar de origem
são eternas,
mesmo com o suceder das primaveras
as suas cores jamais se desvanecerão.



IV. Impermanência

A que poderei eu
comparar o mundo?
Ao luar reflectido
em gotas de orvalho,
agitando-se num gerânio. 



Eihei Dogen (1200 - 1253) (*)




(Tradução e adaptação de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa elaborada por Steven Heine - "The Zen Poetry of Dogen: Verses from the Mountain of Eternal Peace", 1997)






(1) Zazen: Prática do budismo zen que consiste essencialmente numa meditação sem foco em concreto e de imobilidade corporal absoluta, por forma a promover o relaxamento e a aquietação do fluxo mental do ser. Este modo de "simplesmente sentar" é encarado nesta filosofia como uma via extremamente válida para se alcançar o estado de iluminação, o satori, dado que estimula o desapego e a auto-vigilância naquele que o praticar, tornando-o assim um ser mais alerta e consciente.  



(2) Nirvana: O mesmo que satori, a suprema transcendência do ego (a falsa identidade do ser) e do mundo da matéria - nos quais se inclui, como consequência, o desapego dos sentidos, emoções e pensamentos. Um estado superior da evolução humana, por outras palavras.




(*) Dogen foi um mestre da vertente zen do budismo e um poeta de excelência. 
Nascido em Quioto, Japão, no seio de uma família nobre, cedo experimentou as cruas ocorrências da via material. Órfão desde tenra idade, aproveitou do melhor modo o impulso do profundo abalo emocional que sobre ele se abatera, e com apenas treze anos entra no mosteiro onde será ordenado monge budista.
O seu carácter indagador levou-o várias vezes em busca da verdade suprema, algo que fez com que entrasse e saísse de vários mosteiros, experimentando diversas escolas do budismo até instaurar ele próprio a sua, de nome Soto, após o contacto, na China, com o mestre que certamente mais lhe marcou: Rujing. 
Naturalmente, o seu pensamento, fundado na tradição zen, bem como os ensinamentos que transmitia aos seus discípulos, acabou reflectido na poesia que amiúde escrevia. Chegam-nos assim diversos poemas de grande teor espiritual, cujas imagens esforçam-se muito serenamente por estimular no seu leitor vislumbres do Eterno - ou simplesmente evidências da vida material que atestem a sua efemeridade e, por isso, secretamente impulsionem uma busca por algo de maior constância. 
Os exemplos seleccionados irão certamente atestar tal sentença.  














terça-feira, 29 de março de 2016

PARA LI BAI


Tu escreves como o pássaro canta. Teu gorjeio? Versos.
Se não cantasses, as madrugadas seriam menos rubras
E os crepúsculos menos azuis. 
Quando a embriaguês te inspira
Os Imortais inclinam-se das nuvens para te escutar,
O tempo suspende seu voo,
O amante esquece a sua amada.
Tudo és o sol e nós, os outros poetas,
Somos apenas estrelas.
Acolhe, ó meu amigo,
O balbucio do meu respeito.


Du Fu (712 - 770)


(Tradução de Cecília Meireles a partir da versão francesa de Franz Toussaint).











quarta-feira, 9 de março de 2016

EM CASA DO MEU AMIGO TCHANG-TSÈ, LETRADO DO PAÍS DE WEI




Que alegria essa noite. A mesma lâmpada nos iluminava...

Como envelhecemos! Como passam depressa a adolescência e a mocidade! Pensar que a maioria dos nossos amigos já estão nos Jardins sem Luz!... Estou tão emocionado que deves sentir bater meu coração.

Depois de vinte anos, aqui estou sentado em tua casa. Quando nos separámos, ainda não estavas casado, e eis que acariciei teus filhos e tuas filhas!

Deste a estas crianças uma educação perfeita. Sinto que te inclinaste sobre cada uma delas como te inclinavas outrora, sobre os belos poemas que escrevias.

Nas proximidades da tua casa, teu filho mais velho me cumprimentou respeitosamente. Perguntou pela minha saúde, pela minha família, pela minha terra natal. Desculpa-me, criança, por não te haver respondido. Eu escutava o murmúrio de um riacho que me conheceu quando eu era pequenino como tu...

Nossa velha amizade, Tchang-Tsé, é o meu mais precioso tesouro, pois estamos na idade em que o passado tem mais perfumes que um ramo de lilases em flor. 



Du Fu (712 - 770) (*)


(Tradução de Cecília Meireles)





(*) A par de Li Bai, de quem foi um íntimo amigo, dedicando-lhe, inclusive, um poema de soberbos versos, Du Fu é considerado um dos príncipes maiores de toda a poesia chinesa já produzida. Autor de mais de mil poemas que até hoje sobrevivem, celebrizou-se pelo modo incrivelmente perfeccionista como encarava o seu trabalho, dotado de intrincadas rimas tonais e vocabulários de cariz original e inspiração magnífica.  

Apesar de ter conhecido as vivências da corte, a sua passagem por lá foi deveras célere. Não obstante, os seus poemas registam diversas impressões recolhidas durante esses tempos. Viveu numa era de grande conturbação política e económica, e os conflitos que a assombraram mereceram de igual modo um registo poético. 
Nos seus últimos trinta anos de vida, porém, optando por uma existência mais recatada, humilde e munida de parcos haveres, a pobreza daí resultante, bem como diversos problemas de saúde, viriam a assolar esse período de maior isolamento, sem que a sua poesia se privasse de tal influência.
Aos 58 anos, prostrado na miséria e na doença, morre, na companhia da sua esposa e filhos, numa barca que descia o rio Xiang, província de Hunan. 











segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

Três poemas de Li Bai - Lamentos em tempo de guerra



I. Os corvos crocitam à noite

Nuvens de poeira amarela sobre os muros da cidade,
Os corvos voltam aos seus ninhos e crocitam nos ramos.
Por detrás da cortina azulada da sua janela,
Uma jovem tece um brocado em seu tear.
De repente, pára com a lançadeira,
Pensa tristemente no marido que está longe
E, sozinha no quarto vazio,
Deixa cair uma chuva de lágrimas.


(tradução de Cecília Meireles)



II. Rosa vermelha

A esposa do guerreiro está sentada à janela,
De coração aflito borda uma rosa branca numa almofada de seda.
Picou-se no dedo! Seu sangue corre na rosa branca que se torna [vermelha.
Seu pensamento vai ter com o seu amado que está na guerra
E cujo sangue tinge, talvez, a neve de vermelho.
Ouve o galope de um cavalo. Chega enfim o seu amado?
É apenas o coração que lhe salta com força no peito...
Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata
As lágrimas que cercam a rosa vermelha.


(tradução de Cecília Meireles)



III. Ausência

A fina lua é pálida à distância...
Eu perco-me sozinha nos trabalhos, 
as canseiras do meu lar.
Tomara que o vento e suas longas asas
não tombe no esquecimento o duro outono.
O meu coração está na fronteira. 
Quando estará vencido o inimigo
E poderei enfim ter nos braços, apertado,
O meu esposo querido, que a distante guerra
Roubou às flores do meu jardim de amor?


(Adaptado por Pedro Belo Clara a partir da tradução de Francisco Carvalho e Rego)





Li Bai (701 - 762)










quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Quatro (breves) canções de camponeses



I. Arrozal de madrugada

Às quatro da manhã, arranco
ervas daninhas do arrozal.
Mas que é isto: orvalho do campo,
ou lágrimas de dor?


II. Lírio

O corpo deitado do meu amante,
vi-o eu esta manhã:
na planície do quinto mês,
um lírio aberto!


III. As três claridades

A Lua a leste,
a oeste as Pléiades,
o meu amado 
ao meio.


IV. Amor mudo

Ardendo de amor, as cigarras
cantam: mais belos porém são
os pirilampos, cujo mudo amor
lhes queima o corpo!



Poemas anónimos, de período incerto. (*)


(Tradução de Herberto Helder, in "O Bebedor Nocturno" (Assírio & Alvim, 2013)).





(*) Trata-se de um conjunto de quatro canções japonesas de entoação popular, provavelmente escritas por mãos que laboravam no seio desta classe, daí a designação "de camponeses". Nada sabemos, ao certo, sobre quem as escreveu, e somente as circunstâncias de tal escrita poderão ser superficialmente decifradas na sua leitura. Em todo o caso, não fogem ao cariz depurado e singelo que as composições orientais (neste exemplo, japonesas) tendem a apresentar, uma subtileza de sentido e uma condensação de forma que as tornam deveras originais. 
Independentemente do tempo que terá passado desde a sua criação, é notório como os sentimentos de base mais humana não registaram grandes alterações com o passar dos séculos, evidência essa bem capaz de aproximar gerações sem qualquer contacto prévio, dada a sua raiz comum - humanidade. 
Se na primeira canção se antevê a sua provável criação por um humilde trabalhador dos arrozais, que sublimemente confunde o orvalho da manhã com as lágrimas da sua dor, aparentemente incógnita, as demais versam sobre o sentimento mais universal de todos: o amor. Embora, sublinhe-se, não se conheça qualquer tipo de ligação autoral entre elas. 
As referências corporais presentes na segunda canção evoluem e, na terceira, temos já uma noção da "aura" da pessoa amada na visão do amador, uma das três claridades que aí se observam. A quarta e última canção, um pouco mais filosófica, parece remeter para o silêncio dos amores contidos, proibidos ou platónicos, cuja força é totalmente capaz de consumir quem encerra tal chama - claramente personificado pela presença dos pirilampos. É uma visão arguta sobre o amor e seus amantes o que nos oferece o último texto desta nossa publicação. O demais, como convém, ficará ao cargo da livre interpretação do leitor. 


















sábado, 30 de janeiro de 2016

Três poemas de Wang Wei


I. A lua sobre o rio do leste


A lua sai de dentro da montanha,
eleva-se, devagar, sobre o portão da casa.
Mil árvores perfuram o humidade do céu,
nuvens negras voam no espaço.
De súbito, o luar embranquecendo a floresta,
a terra respira no orvalho frio.
Águas de outono cantam nas cascatas,
uma névoa azul paira sobre as rochas,
sombras partidas abraçam cumes vazios.
Como num sonho, tudo é transparente, puro.
De pé, à janela, diante do rio,
de madrugada, sonolento, sem pensar.



II. Merendando com os monges da montanha Fu


Avançado nos anos, conheci princípios puros,
hoje, cada vez mais afastado da multidão.
Espero a vinda dos monges da montanha solitária.
Já varri a entrada do meu humilde lar.
Depois dos picos e nuvens, ei-los por fim chegados
à pobre casa de colmo, o meu lar.
Sentados em esteiras, comemos pinhões,
queimamos incenso, lemos os sutras.
Extingue-se o dia, acendemos lanternas,
anuncia-se a noite, tocamos o ching.
Ao compreender que a quietude é fonte de alegria,
a vida concede-nos a liberdade serena.
Porquê tanta pressa em regressar?
No mundo tudo é vazio e nada.



III. Para o magistrado Zhang


Gosto da quietude no entardecer dos anos,
o coração livre, ausência de mil coisas,
a alegria de voltar à velha floresta.
A brisa dos pinheiros desenlaça minhas vestes,
raios de luar acariciam o som da cítara.
Perguntas: Qual a verdade suprema?
Vamos ouvir, lá longe, entre os canaviais,
a canção do pescador.



Wang Wei (701 - 761) (*)




Todas as versões apresentadas são traduções de António Graça de Abreu (in "Quinhentos Poemas Chineses", Nova Vega, 2014).






(*) Conforme havíamos prometido na nossa última publicação, aqui deixamos três poemas de Wang Wei que comprovam, de modo mais directo ou indirecto, a sua inclinação budista. Foram estes o seleccionados, por ora, mas poderiam ter sido muitos outros, dada a centralidade de tal tema na sua obra poética.

Dentre os poemas apresentados, é o segundo o mais explícito sobre a sua simpatia pelos métodos e pensamento budista, dado que relata por meios bastante claros um encontro em sua casa com os monges de um templo situado na montanha de Fu. Nas entrelinhas consegue-se entender o expressar de um modo de vida muito simples e abnegado, trilho, segundo as suas crenças, que os guiará a um maior contacto com a sua essência mais íntima. 
Já o poema de abertura guarda o seu segredo no verso final, sendo o mesmo o mais revelador. A utilização da expressão «não pensar» é condizente com o conceito de vazio que o Budismo foi beber ao Taoísmo, o mesmo que o remete para a verdadeira identidade do ser - manifestada apenas quando a mente, ou ego, se revela ausente. "Não pensar", por isso, convida a um estado interior de quietude que a prática da meditação, por si só, também visa fomentar no indivíduo.
Por fim, e embora o último dos três poemas seleccionados seja uma dedicatória, lemos nele um convicto apelo ao experiênciar das coisas simples da existência. Louvando as virtudes da liberdade interior e de uma vida de desapego, tenta tocar na questão mais primordial de todas: a verdade suprema. Aqui, o desenlace é extraordinário, já que, conforme se leu, Wang Wei deixa o seu amigo sem resposta, mas com um convite para escutar «a canção do pescador». Porém, o acto, pleno de mistério, é imensamente revelador se viajarmos até aos funduras do seu sentido.










terça-feira, 12 de janeiro de 2016

CANÇÃO DA BELA DE LUOYANG


Habita aqui em frente a bela de Luoyang,
um rosto puro de menina de quinze anos.
O marido usa arreios de jade no cavalo baio,
os criados servem pedacinhos de carpa em pratos de ouro.
No seu lar, pavilhões vermelhos, antecâmaras pintadas,
pessegueiros rosa, salgueiros verdes debruçando-se sobre 
[os telhados.
Ao sair, sob um véu de seda, deixa o pavilhão dos sete 
[perfumes;
ao regressar, escondem-na leques preciosos, cortinados 
[com nove flores.
O marido rico, jovem como a primavera,
ultrapassa Li Jun em esplendor e fausto.
Apaixonado pela menina de Jade Verde, ensina-a a dançar;
feliz, oferece aos amigos pequenas árvores de coral.
Nasce o dia, extinguem-se as nove velas do candelabro;
as chamas esvoaçam como pétalas de flor,
não cessaram ainda jogos e canções.
Dia e noite, a gente importante da cidade
vem de visita, em reverência como às beldades de outrora.
Quem pensa na menina de Yue, de pele de jade,
pobre, ignorada, lavando roupa nas águas do rio?



Wang Wei (701 - 761) (*)




(Tradução de António Graça de Abreu in "Quinhentos Poemas Chineses" - Nova Vega, 2014)



(*) Nasceu em Qixian, província de Shanxi, aquele que foi um dos maiores poetas da dinastia Tang - e, sem grande exagero, de toda a poesia chinesa.  
Aos dezoito anos já obtivera aprovação nos criteriosos exames imperiais, que davam à época acesso ao mandarinato. Durante quase toda a sua vida ocuparia, assim, uma posição de honroso serviço para com a corte imperial. Em 758, inclusive, seria nomeado "Chanceler da China". O acumular de toda essa experiência terá certamente aguçado o seu olhar e depurado a sua percepção de homem e poeta, como comprova o poema seleccionado - retrato que não expurga, apesar do seu firme e nítido traço, a crítica de cariz social. 
Além da poesia e das ocupações de homem de estado, notabilizou-se ainda na arte da caligrafia e pintura - apesar de nenhuma das suas criações na área tenham sobrevivido até hoje. Não obstante, revelou-se um dedicado amante da natureza e, a par de Han Shan, foi um dos primeiros poetas a abraçar e a incorporar em seus trabalhos os princípios do budismo zen (houve quem lhe chamasse "o poeta de Buda"). Ainda que o poema de hoje não seja prova viva disso mesmo, fica no ar a promessa de que numa outra ocasião esses outros serão de muito bom grado partilhados com os nossos amáveis leitores.