domingo, 12 de dezembro de 2021

SÊ O PRÓPRIO SOL

 
Aquele que é sincero na sua busca espiritual deverá transcender as alegrias e os prazeres, meros reflexos da glória divina. Não deverá permitir que coisas tais o satisfaçam; ainda que provenham de Deus, que existam pela graça divina e possuam a radiância da beleza divina, não são eternas. O que é domínio de Deus é eterno, o que é domínio do Homem efémero é.

Pensa nos raios de sol cintilando sobre as casas. São raios de sol, e por isso são luz, mas estão ligados ao sol, não às casas. Quando o sol se põe, a sua luz desvanece. O que temos a fazer, então, é ser o próprio sol, para que todo o medo, que nasce da separação, possa finalmente, e para sempre, cessar. 




Rumi (1207 - 1273),
in "Cartas".










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Andrew Harvey in "Teachings of Rumi" - Shambhala Pub., 1999.)














(Sem título - 
Nicki Geigert)





sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Oito haikus de Kobayashi sobre gatos

 
I. 

adormecido
no altar doméstico¹
o gato ladrão


II.

folhas caindo - 
o gatinho rodopia
tentando apanhá-las


III.

a sua cara tão inocente - 
a gata com cio
regressa a casa


IV.

dez gatinhos
dez cores
diferentes


V.

gatos com cio
separados pela parede - 
amantes que não se tocam


VI.

o guizo do gato
por entre as peónias
ora aqui ora ali


VII.

arranhando a janela e chorando
o gato banido - 
noite gelada


VIII.

pequeno tapete de palha - 
o gato chega com um casaco
de flocos de neve




Kobayashi Issa (1763 - 1827)

















(Tradução de Joaquim M. Palma in "Kobayashi Issa: Os animais - haikus", Assírio & Alvim, 2019.)











(1) Era tradição cada casa possuir um altar privado, fosse de índole xintoísta ou, como o poeta, budista. Geralmente, eram aí feitas oferendas a um certo deus ou a Buda, e também se queimava incenso. Era de igual modo comum existir um que honrasse e celebrasse a memória dos antepassados familiares. Por aquilo que lemos no haiku, depreende-se que o gato tenha comido a oferenda feita e, após o repasto, decidido tirar uma boa soneca em pleno local do crime. 












"Hotaruso",
de Fumika Koda (1986 - )


terça-feira, 16 de novembro de 2021

Oito haikus outonais de Bashô (Parte II)

 
I.

os nossos corações estão em paz
na pequena sala de chá - 
o outono ronda lá fora


II.

neblina rente ao chão -
debaixo do luar
uma planície de nuvens


III.

campos de algodão - 
flores de luar
por todo o lado


IV. 

(Ao saber que a monja Jutei¹ tinha falecido.)

nesta festa das almas²
também tu
vais estar presente


V. 

roncos de veado
dentro da noite - 
a tristeza


VI.

de repente
uma nuvem encobrindo o sol - 
aves migratórias


VII.

(Pensamento...)

pela estrada
onde ninguém passa
parte o outono


VIII.

outono - 
porque será que envelhecer
é como um pássaro dentro das nuvens?






Matsuo Bashô (1644 - 1694)











(Tradução de Joaquim M. Palma, in "Matsuo Bashô - O Eremita Viajante (Haikus - Obra Completa)", Assírio & Alvim, 2016.)









(1) Especula-se que Bashô tenha tido um relacionamento amoroso com esta mulher, uma monja xintoísta, mas de modo geral aceita-se a ideia como mera suposição. Ademais, existem indícios, alguns deixados pelo punho do próprio Bashô, que ligam o poeta a um comportamento homossexual. Em todo o caso, isto poder-se-á afirmar: Bashô conheceu Jutei e por ela nutria um certo carinho.


(2) O Obon é celebrado todos os anos por volta do dia 15 de agosto (depende das regiões do Japão), sendo um festival muito antigo, de origens budistas, que homenageia os antepassados já falecidos. É, assim, costume as famílias deslocarem-se aos cemitérios ou aos lugares de repouso dos seus entes queridos para limpar os túmulos e honrar a sua memória. Dura três dias, esta festividade que inclui sempre uma dança: o Bon Odori.











"Ervas Outonais ao Luar",
de Shibata Zeshin 
(1807 - 1891)




quarta-feira, 20 de outubro de 2021

Breves reflexões e conselhos de Kamo No Chomei

 

Um rio corre sem parar, mas a água que corre nunca é a mesma. Aqui e ali na superfície tranquila, flocos de espuma aparecem e logo desaparecem. O mesmo se passa com os homens e os lugares onde habitam.


 
***

 
Aquele que se conhece a si mesmo e que sabe como tudo acaba, quer apenas paz e fica feliz por não ter nada que o aflija. (…)
 

***

 
Quando se trata de amigos, eles respeitam a riqueza e preferem aqueles que são hospitaleiros, mas têm pouca estima por aqueles que são benevolentes e honestos. Os melhores amigos que se pode ter são as flores e a lua.
 

***
 

Todas as pessoas têm dois servos, as mãos e os pés. Estes as servirão como elas desejarem. Como a mente conhece o corpo, fá-lo trabalhar quando está vigoroso e permite que descanse quando está exausto. A mente usa o corpo, mas não excessivamente e quando o corpo está cansado não fica com raiva. Ir a pé e fazer o seu próprio trabalho é o melhor caminho para ter força e saúde. Porquê recorrer ao trabalho dos outros?

 
***
 

A realidade depende inteiramente da tua mente. Se esta não está em paz, de que servem cavalos e bois e as sete pedras preciosas? Um palácio ou uma mansão sumptuosa seriam insuficientes. (…)
 

***
 

Se alguém duvidar das minhas palavras, que considere o exemplo dos peixes. Eles nunca se cansam da água; mas se não fores um peixe não podes compreender os seus sentimentos. Os pássaros também amam a floresta, mas a não ser que sejas um pássaro, não podes entender como eles se sentem. A mesma coisa se passa com a vida de um eremita: como entendê-la antes de experimentá-la?
 
 
 
 
Kamo No Chomei (1155 – 1216) ¹







(Versões de Jorge Sousa Braga in "Hojoki - Reflexões da minha cabana", Komo No Chomei, Assírio & Alvim, 2021.)









(1) Nasceu em Shimokamo, no Japão, filho dum membro da hierarquia religiosa xintoísta do templo de Kamo, na cidade de Quioto. 
Com apenas sete anos foi introduzido na corte imperial. Julga-se ter sido aí que descobriu e desenvolveu o seu amor pela poesia e pela música. Abandona-a, contudo, aos vinte anos, após a morte do pai. Como era tradição, teria de ocupar o lugar que pertencera ao progenitor falecido, mas intrigas na corte engendradas contra a sua pessoa acabariam por afastá-lo do seu direito inato. 
Com a restauração da Ordem da Poesia, passa a integrá-la, desempenhando nela um papel deveras activo. Já depois dos trinta anos, realiza uma peregrinação ao santuário xintoísta de Ise, da qual resultará um diário de viagens - que somente em fragmentos chegará aos nossos dias. 
Em 1204 converte-se ao budismo, adopta o nome de Ren-in (que significa "semente de lótus") e refugia-se numa montanha. É já na sua vida de eremita que resulta a obra donde estas reflexões foram retiradas, uma outra designada "Tratado Sem Nome" e diversos poemas e contos de teor budista.
A opção pessoal pela via do isolamento terá realmente incrementado a sua produção literária, mesmo que o próprio tenha admitido escrever poemas e compor canções pelo simples prazer da criação, mas dada a sua existência excepcionalmente atribulada não se poderá estranhar a decisão de cortar com o mundo e suas ilusões.
Não obstante já ter vivido num período histórico de grande instabilidade política e social, Kamo No Chomei experimentou na própria pele calamidades que praticamente nenhum outro homem vivenciará em conjunto numa só vida. Ora vejamos: um devastador incêndio em 1177, um tufão três anos depois, a grande fome de 1181 e 1182 e, por fim, um terramoto em 1185. De certa forma, sobreviveu a todas essas catástrofes, permitindo assim que o seu testemunho, e a mensagem que dele resulta, pudesse alcançar as gerações vindouras. Sem margem para dúvida, tais experiências marcaram bastante o seu trabalho escrito, estando na base da sua escolha por uma vida mais frugal, mais autêntica, em comunhão com a natureza e consigo mesmo, dedicada aos preceitos budistas de então. 
O seu Hojoki, Reflexões da Minha Cabana, escrito no seu eremitério, oferece-nos uma escrita despojada e um variado conjunto de reflexões e conselhos sobre o mundo e o papel do homem no mesmo, assim como o seu testemunho de eremita. Tornar-se-ia um clássico incontornável da literatura japonesa.
Kamo faleceu na sua cabana de montanha aos sessenta e um anos de idade. 







(Kamo No Chomei)


sábado, 18 de setembro de 2021

Oito haikus - sécs. XV a XIX

 

I.

para aprender a morrer
observa as flores de cerejeira
observa os crisântemos


Anónimo.




II.

as flores caídas
regressam todas ao ramo
quando observo borboletas

Moritake (1452 – 1540)




III.

o orvalho¹ chega
e não discrimina
faz casa donde está

Sôin (1604 – 1682)




IV.

uma folha cai
e logo outra
roubada pela brisa

Ransetsu (1654 – 1707)




V.

silenciosamente, as flores
falam ao ouvido interior
– verdadeira obediência

Onitsura (1660 – 1738)




VI.

desde que as glórias-da-manhã²
fizeram o balde do poço refém
por água mendigo

Chiyo (1701 – 1775)




VII.

apenas a lua e eu
sozinhos nesta ponte
cada vez mais enregelados

Kikusha-Ni (1752 – 1826)




VIII.

quando o rouxinol-do-bosque³
canta, o velho sapo
arrota em resposta

Shôha (séc. XIX)










(Versões de Pedro Belo Clara a partir das versões inglesas elaboradas por Sam Hamill em “The Sound of Water: Haiku by Bashô, Buson, Issa and Other Poets”, Shambhala Pub., 1995.)











(1) Na versão inglesa surge "white dew", ou seja, "orvalho branco". Embora possa parecer algo redundante em português, importa referir que no calendário lunar chinês, que se divide em 24 ciclos solares, o 15º designa-se "orvalho branco". Inicia-se geralmente em meados de setembro e marca o início da fase outonal mais fria, onde as temperaturas mais baixas dão usualmente lugar a tal fenómeno - que, no fundo, corresponderá à mais familiar geada. Assim sendo, o uso desse termo poderia constituir uma tradução mais acurada, mas a versão inglesa do texto não de aproximou dessa designação (poderia recorrer a "frost"), optando por não interpretar o termo, simplesmente apresentá-lo em tradução directa. 


(2) Nome comum dado a uma família de plantas que alberga vários géneros. São geralmente trepadeiras anuais de rápido crescimento, por vezes designadas por corriola ou cordas-de-viola. Têm a particularidade de fechar as suas flores quando a luz solar se extingue. 


(3) A versão inglesa propõe a forma "bush warbler", literalmente "toutinegra-do-bosque". Contudo, no poema original surge a palavra uguisu, que em inglês corresponderá a "rouxinol japonês do bosque", isto é, o famoso Horornis diphone, um exemplar típico do Japão e de outros países asiáticos. Em suma, um tipo de rouxinol em concreto e não um tipo mais vago de ave que a tradução inglesa poderia sugerir. Naturalmente, compreende-se a omissão do termo que faz referência à sua terra nativa, pois o autor nunca o utilizaria. Transpondo tudo isto para o português, dado que a espécie não existe por cá, poder-se-ia utilizar a sua versão mais aproximada, que seria o rouxinol-bravo (Cettia cetti), dado pertencer, como o seu primo japonês, à alargada família dos Cittiidae e, como este, tratar-se de um exemplar mais facilmente escutado do que observado, um amante de densas matas. Contudo, uma vez que o espécime português não existe na Ásia, e considerando também a extensão desta família de aves canoras insectívoras, optou-se pela forma que mais fielmente indicará o género de pássaro em causa: o rouxinol-do-bosque.










(Autor desconhecido.)


sábado, 11 de setembro de 2021

Seis breves poemas de Bai Juyi

 
I. Os grous

As pessoas procuram sempre o que lhes dá prazer;
imutáveis as coisas, mutáveis os sentimentos dos homens.
Talvez os grous possam dançar, elegantes e altivos.
Gosto mais deles, de pé, silenciosos, solitários. 


II. O espelho e a taça

Quero trocar o espelho de bronze 
por uma taça dourada ou de jade branco.
No espelho não posso fugir à velhice,
mas minhas penas dissipam-se na taça de vinho.


III. Frescura de outono

Calmo, tranquilo, durmo o dia inteiro;
velho, doente, esquecido pelos outros homens.
Ao cair da tarde, à entrada da casa,
um imenso tapete de flores de acácia.


IV. Início da primavera

A neve derrete, os dias cada vez mais quentes,
o gelo desaparece, raios de sol inundam a terra,
pouco a pouco os rebentos ganham força.
A primavera só não desfaz a geada branca em meus cabelos.


V. Velhice 

Por vezes, um dia inteiro caminhando no jardim;
por vezes, até nascer o sol sentado diante da candeia.
Ninguém entende os meus silêncios.
De quando em quando, um longo suspiro.


VI. Os damasqueiros da aldeia de Zhao

Venho todos os anos ao desabrochar dos damasqueiros.
Há três lustros, tantas vezes olhei as flores vermelhas!...
Tenho setenta e três anos, regressarei uma vez mais?
Esta primavera estou aqui para lhes dizer adeus.





Bai Juyi (772 – 846)













(Traduções de António Graça de Abreu in "Poemas de Bai Juyi", Instituto Cultural de Macau, 1991.)














"Love Birds and Pink Flowers",
de T. C. Chiu


quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Cinco poemas de Hafiz, o místico poeta persa

 
I.

Um poeta é alguém
que verte luz para uma colher,
e depois ergue-a para nutrir
a tua boca ressequida, bela, sagrada.


II.

De manhã,
enquanto despertava,
aconteceu outra vez:

aquela sensação
que Tu, Amado,
havias permanecido
sobre mim, de vigia,
a noite inteira;

uma sensação dizendo
que assim que começasse
a ficar agitado
encostarias os Teus lábios
à minha testa,
e acenderias uma candeia
dentro do meu coração.


III.

Um dia, o sol admitiu:
sou apenas uma sombra.

Como desejaria mostrar-vos
a Eterna Incandescência
que projectou
a minha cintilante imagem!

Como desejaria revelar-vos,
quando estais sós
ou rodeados de sombras,
a deslumbrante luz
daquilo que em verdade são!


IV.

Raramente deixo a palavra não
escapar da minha boca,
pois para a minha alma é tão óbvio
que Deus disse sim! sim! sim!
a todo o luminoso movimento
que acontece na existência.


V.

Sou feliz, mesmo antes de ter motivo.

Estou cheio de luz, mesmo antes
do céu saudar o sol ou a lua.

Queridos amigos,
estamos enamorados de Deus
há muito, muito tempo.

Que pode Hafiz agora fazer,
se não dançar para sempre?





Hafiz (1320 - 1389)













(Versões de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Daniel Ladinsky in "I Heard God Laughing: Poems of Hope and Joy - Renderings of Hafiz", Penguin Books, 2006.)
















(Gravura de Hafiz,
por Abolhassan Sadighi
(1894 - 1995))