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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

UM POEMA PARA OS MEUS, NA VELHICE (o último poema de Bai Juyi)

 
Setenta e cinco anos de idade,
cinquenta mil moedas para gastar. 
Minha esposa envelhecendo comigo,
os sobrinhos cirandando aqui à volta,
alimento-me de sopa de aveia, de arroz tenro.
A minha cabaia com um forro novo.
Nesta casa simples, a sorte de estar junto dos meus.
Colocaram meu leito diante de um painel de montanhas e nuvens,
o fogãozinho ao lado dos cortinados azuis.
Meu neto lê um livro para mim,
os cozinheiros afadigam-se, fazem o jantar.
Escrevo poesia, respondo aos amigos,
entretenho-me a coser roupa,
escolho e preparo ervas medicinais.
Terminadas todas as pequenas tarefas,
adormeço de rosto voltado para o sol.






Bai Juyi (772 – 846)












(Tradução de António Graça de Abreu in "Poemas de Bai Juyi", Instituto Cultural de Macau, 1991.)














"Velho com Criança",
de Xu Yan (1956 - )




sábado, 11 de setembro de 2021

Seis breves poemas de Bai Juyi

 
I. Os grous

As pessoas procuram sempre o que lhes dá prazer;
imutáveis as coisas, mutáveis os sentimentos dos homens.
Talvez os grous possam dançar, elegantes e altivos.
Gosto mais deles, de pé, silenciosos, solitários. 


II. O espelho e a taça

Quero trocar o espelho de bronze 
por uma taça dourada ou de jade branco.
No espelho não posso fugir à velhice,
mas minhas penas dissipam-se na taça de vinho.


III. Frescura de outono

Calmo, tranquilo, durmo o dia inteiro;
velho, doente, esquecido pelos outros homens.
Ao cair da tarde, à entrada da casa,
um imenso tapete de flores de acácia.


IV. Início da primavera

A neve derrete, os dias cada vez mais quentes,
o gelo desaparece, raios de sol inundam a terra,
pouco a pouco os rebentos ganham força.
A primavera só não desfaz a geada branca em meus cabelos.


V. Velhice 

Por vezes, um dia inteiro caminhando no jardim;
por vezes, até nascer o sol sentado diante da candeia.
Ninguém entende os meus silêncios.
De quando em quando, um longo suspiro.


VI. Os damasqueiros da aldeia de Zhao

Venho todos os anos ao desabrochar dos damasqueiros.
Há três lustros, tantas vezes olhei as flores vermelhas!...
Tenho setenta e três anos, regressarei uma vez mais?
Esta primavera estou aqui para lhes dizer adeus.





Bai Juyi (772 – 846)













(Traduções de António Graça de Abreu in "Poemas de Bai Juyi", Instituto Cultural de Macau, 1991.)














"Love Birds and Pink Flowers",
de T. C. Chiu


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Seis breves poemas de Bai Juyi

 
I. A brisa no alaúde

Abandono o alaúde no banquinho
e quedo-me sereno, a pensar.
Não é preciso eu dedilhar as cordas,
acaricia-as a brisa, tocam sozinhas.


II. Tranquilidade

O homem feliz vê voar os dias,
o homem triste arrasta os anos, como o caracol.
Quem ignora vicissitudes, alegrias
olha, por igual, o viajar da lua e do sol.


III. Uma nuvem no alto da montanha

Uma nuvem branca no alto da montanha,
intacta face ao avançar da manhã.
O trigo ressequido no campo
perde o viço e o verde.
O homem cresce e murcha,
cumpre e concretiza o quê?
Não pode transformar-se em chuva
e seguir o vento Leste.


IV. Subindo ao terraço de Lingying, olhando para norte

Subindo à montanha,
entendo a pequenez dos domínios do homem,
olhando na distância,
entendo o vazio das coisas terrenas.
Volto a cabeça, regresso à corte e ao mercado,
como um bago de arroz caindo no grande celeiro.


V. Primavera em Luoyang

Ao olhar os arrozais, a Primavera em Luoyang é eterna. 
Regresso, vinte anos após a minha última visita.
Uma coisa não reencontrei, a minha juventude.
Tudo o mais permanece inalterado.


VI. Noite solitária no início do Outono

Ondulam folhas finas por detrás do poço,
lavadeiras batem roupa, o Outono começa a cantar.
Descubro um recanto sob os beirais, adormeço solitário.
Ao acordar tenho o leito inundado de luar. 




Bai Juyi (772 – 846)









(Traduções de António Graça de Abreu in "Poemas de Bai Juyi", Instituto Cultural de Macau, 1991.)








(Bai Juyi, 
num retrato de
Chen Hongshou 
(1598 - 1652))

sexta-feira, 15 de março de 2019

QUARENTA E CINCO ANOS


Idade: quarenta e cinco anos.
O seu cabelo, dos lados, tornou-se grisalho;
esguio e esbelto, é a poesia o seu maior falhanço;
brusco, caloroso, algo louco quando bebe.
Está agora mais velho, e ao destino tudo entrega;
a qualquer lugar confortável chama casa.
Quem sabe? No monte Lu¹, na próxima primavera,
talvez construa uma cabana com telhado de palha.




Bai Juyi (772 - 846)







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Burton Watson.)








(1) O Monte Lu é por excelência o centro da vida espiritual chinesa. Durante séculos que assim tem sido. Palco de diversos templos, tanto taoístas como budistas, também se adorna de marcos do confucionismo. Lugar de retiro e de ensinamento da eleição de muitos mestres e mentores, além de ocasionais eremitas que buscavam paz interior, uma ligação profunda com o que os rodeava ou simplesmente uma existência frugal, longe das azafamas citadinas e das intrigas da corte. Devido à sua estonteante beleza natural, foi e ainda é um lugar que inspira diversos artistas. Situado na província chinesa de Jiangxi, em 1996 foi declarado património mundial da UNESCO.

Pelo que se lê no poema, que é um curioso auto-retrato do autor aos quarenta e cinco anos de idade, feito em pleno exílio (ano de 817), o poeta equacionava uma vida de eremita para o restante da sua vida, algo que pelo menos no imediato não se sucederia, pois em 819 foi convidado a reentrar no serviço administrativo do império. Contudo, os anos finais da sua existência foram realmente passados num templo, em Xianshang. É nesse local que ainda hoje se ergue um monumento fúnebre em sua memória. 










(Vista circundante a partir do Monte Lu)






sexta-feira, 30 de março de 2018

Dois poemas de Liu Yuxi


I. Os rebentos de pessegueiro do Templo Xuandu ¹


A poeira vermelha dos trilhos púrpura
rodopia diante dos seus rostos.
Todos dizem que vieram para ver as flores,
são milhares de pessegueiros no Templo Xuandu.
E todos plantados desde que o senhor Liu partiu.




II. Nova visita ao Templo Xuandu ²


O grande pátio do templo está coberto de musgo.
Flores silvestres baloiçam 
onde outrora pessegueiros floresciam. 
Onde está o sacerdote que os plantou?
O velho senhor Liu está de volta.





Liu Yuxi (772 - 842) ³








(Versões adaptadas de Pedro Belo Clara a partir das traduções para inglês de Bill Porter).








(1) Ambos os poemas contam uma curiosíssima história na sua origem.
Este em particular foi escrito no ano de 815, após o regresso do poeta a Chang'an, a capital do país. Havia sido banido durante dez anos para a província de Hunan, por ter apoiado as acções reformistas do governo vigente numa altura de sucessão imperial.
Findado o exílio, o poeta não deixou de realizar a sua pequena vingança, e de acordo com os meios que tinha à sua disposição. Deu-se assim o nascimento deste poema, subtilmente satírico. 
Repare-se nas pistas encriptadas: o púrpura, cor da realeza, é uma referência aos caminhos da cidade imperial, o vermelho da poeira alude ao deslumbramento e à indulgencia das sensações, o nome do templo (Xuandu ou Hsuan-tu) significa "capital celestial" e a imagem dos pessegueiros surge como a personificação dos milhares de oficiais do exército imperial que haviam sido promovidos durante o exílio de Liu Yuxi. O último verso do poema tem também um significado oculto. Embora aluda ao próprio poeta, retornando do seu exílio, faz referência a Liu Ch'en, um mítico herbalista que se perdeu um dia nas montanhas Tientai, sobrevivendo apenas à custa de pêssegos até o seu regresso, volvidos duzentos anos.
Apesar de tanto simbolismo e encriptação, escusado será dizer que graças a este poema Yuxi foi novamente banido da corte.




(2) Ainda não se fez a devida referência ao Templo em causa, por isso acrescenta-se que se situa na província de Hunan, na China. É actualmente um templo taoísta, embora as suas origens sejam budistas (séc. V d.C.).
Sobre este segundo poema, escrito depois de ter terminado o segundo exílio do poeta, esclarece-se que foi escrito em abril de 828 e que incluía o seguinte prefácio, escrito pela mão do autor: 
«No ano de 805, quando era vice-director do Departamento de Agricultura, não havia flores neste templo. Foi também esse o ano em que fui despromovido a prefeito de Lienchou e, mais tarde, a vice-prefeito de Chang-te. Dez anos se passaram; fui chamado de novo à capital e todos me contaram sobre um sacerdote taoísta que plantara pessegueiros miraculosos que encheram o seu templo com nuvens de rebentos avermelhados. Então escrevi esse primeiro poema como registo de uma tão invulgar visão. De novo fui banido, e agora, após quatorze anos, voltei, e desta vez para ocupar o cargo de director do Departamento de Recolhas. Uma vez mais, visitei o Templo Xuandu, mas desta vez nem uma árvore se avistava, apenas as ervas baloiçavam à brisa primaveril. Portanto, escrevo agora mais quatro linhas [n.d.t.: são cinco, na versão adaptada ao português] em antecipação à minha próxima visita».
Até no prefácio o poeta não deixou de parte o teor cáustico do seu discurso. Esclareça-se que a referência ao pátio do templo repleto de musgo é uma crítica subentendida ao pátio do palácio imperial e o sacerdote taoísta em causa será Wang Shuwen, o antigo primeiro-ministro reformista que Liu apoiou.
Tendo ido, de novo, longe de mais nas suas críticas, Liu Yuxi foi uma vez mais banido pouco tempo depois de ter redigido este poema.




(3) Liu Yuxi nasceu no sul da China e tornar-se-ia um dos seus mais proeminentes poetas, mas também um dos que mais vezes enfrentou o exílio. Destacou-se igualmente nas áreas do ensaio e da filosofia.
Passou com distinção nos exames imperiais, e desde cedo muitos lhe auguraram uma carreira brilhante. Porém, vários percalços, desde a morte do pai ao apoio público ao ministro reformista após a morte do Imperador e da tomada de posse do filho, nem sempre lhe possibilitaram uma rápida ascensão. Os consecutivos exílios também não prestaram um valioso auxílio. Ainda assim, ocupou diversos cargos públicos e de conselheiro de departamentos estatais. A título póstumo, foi nomeado "Ministro da Receita Pública". 
A sua poesia é essencialmente directa e simples, muito ao estilo popular. A sua temática é muito variada, tendo versado sobre as condições de vida do povo, os costumes populares, temas históricos, a amizade, a bebida, a nostalgia do passado, entre outros. Até aos nossos dias sobreviveram cerca de setecentos poemas, alguns deles reflexo do seu pensamento budista. Travou amizade com diversos poetas, muitos deles destacados autores, entre os quais Bai Juyi, cujos trabalhos já por diversas vezes neste espaço partilhámos.







(O poeta Liu Yuxi, conforme retratado no Wan Xiao Tang - 1743)


sexta-feira, 16 de março de 2018

DESPERTAR MADRUGADOR NUMA MANHÃ DE PRIMAVERA (*)


A primeira luz do sol nascente
ilumina as traves da minha casa;
o primeiro bater de portas que se abrem
ecoa como o som de um tambor.

O cão dorme enrolado sobre si mesmo
na soleira de pedra, pois a terra
está encharcada em orvalho;
os pássaros aproximam-se da janela
e tagarelam sobre a beleza do dia.

Graças aos efeitos prolongados do vinho,
tenho a cabeça ainda pesada;
com a recente arrumação das roupas invernais,
o meu corpo ficou mais magro.

Desperto com o coração vazio
e a mente na sua totalidade extinta.
Ultimamente, com o passar das noites,
não tenho tido sonhos acerca do lar.




Bai Juyi (772 - 846)









(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Arthur Waley.)







(*) Este poema, onde se identificam laivos das influências do pensamento budista e taoísta sobre o autor, é apenas uma parte de um outro que Bai Juyi escreveu no ano de 825, enquanto governador de Suzhou - uma das maiores cidades da província de Jiangsu, no leste da China, uma espécie de "Veneza do Oriente". 
Apesar de não o admitir abertamente, sobressai a difícil adaptação do poeta ao lugar, comprovada pelas saudades que sentia da sua terra natal - aparentemente ultrapassadas na altura da composição deste poema.









(Ponte em Suzhou, China)




quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

SEGUNDA VISITA A XIANGYANG (COM PASSAGEM PELA VELHA CASA) *


Há muito tempo atrás, quando cheguei a Xiangyang,
havia apenas começado a deixar crescer o bigode.
Agora, de novo em Xiangyang, 
já tenho as patilhas e o bigode grisalhos.

Todas as memórias daquela viagem são hoje um sonho:
chegara apressado, e cheio de pressa ao lar retornei.

Aquela casa com telhado de palha, a este da muralha,
meio desfeita - quem nela agora habita?
A maior parte dos velhos amigos dispersou-se 
e desapareceu. Até a povoação mudou de lugar.

Apenas as águas outonais do rio,
cobertas pela neblina, ondulam como outrora.





Bai Juyi (774 - 846)







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa proposta por Burton Watson.)








(*) Xiangyang situa-se na província chinesa de Hubei, embora já não exista com total individualidade. Tendo sido unida à cidade (Fancheng) da margem norte do rio que a ambas servia de fronteira, dá hoje pelo nome de Xiangfan. Onde em tempos dois pólos se ergueram, actualmente um só prevalece. 
O pai do poeta viria a falecer em Xiangyang no ano de 796, no posto oficial local. A "velha casa" que o poema refere seria, por ventura, uma antiga habitação familiar, embora Bai Juyi não dê a entender que ele tenha nela feito residência. O rio que nos planta a imagem final do poema é o Han, que como já se sabe atravessa nos dias de hoje a nova cidade de Xiangfan. 










(Muralha da antiga Xiangyang, sobranceira ao rio Han)








sexta-feira, 24 de março de 2017

LEMBRANDO A SINOS DOIRADOS


Arruinado e doente: um homem de duas medidas.
Bela e inocente: uma menina de três.
Não nasceu rapaz, mas ainda assim 
foi melhor do que não ter nenhum.
Para acalmar um sentimento incómodo,
de tempos a tempos um beijo era dado.

Então o dia surgiu. Subitamente levaram-na de mim.
A sombra da sua alma vagueou nem sei por onde.
E quando recordo a hora em que morreu,
e como balbuciava estranhos sons,
estando ainda a aprender a falar, 
lembro como os laços de sangue e carne
apenas nos ligam a uma imensidão
de dor e sofrimento.

Por fim, evocando o tempo
anterior ao seu nascimento,
pelo pensamento e pela razão
pude afastar de mim os lamentos.

Desde que o meu coração a esqueceu
muitos dias se passaram,
e por três vezes o inverno
se transformou em primavera.
Esta manhã, por um momento,
o velho pesar regressou,
ao na estrada encontrar
quem enferma a acolheu
e dela então cuidou.



Bai Juyi (774-846)






(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Arthur Waley).







(Narcisos, os famosos "Sinos Doirados")




segunda-feira, 13 de março de 2017

SINOS DOIRADOS


Tenho uma filha de nome Sinos Doirados.
Já um ano se passou desde o seu nascimento.
Está a aprender a se sentar, 
e falar ainda não sabe.

Envergonho-me ao ver que não tenho 
o coração dum sábio;
não consigo resistir 
a pensamentos e a sentimentos vulgares.
Daqui em diante estarei preso 
a questões que me ultrapassam.
A única recompensa: o prazer que agora recebo.

Se for poupado à dor da sua morte prematura,
então terei a preocupação de a ver casada.
Os meus planos para regressar às colinas
quando a reforma começasse
ficam agora adiados por quinze anos.


Bai Juyi (774 - 846)



(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Arthur Waley).










quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

ADEUS ÀS GENTES DE HANGZHOU


Anciãos e oficiais ladeiam a estrada do regresso;
jarros de vinho enfeitam a mesa da despedida.
Não governei esta gente com a sabedoria de Shao Kung (1);
porque razão tão céleres rolam as suas lágrimas?
Apliquei impostos pesados, considerando a pobreza geral;
os agricultores passaram fome, amiúde os campos secavam.
Tudo o que fiz foi represar as águas do lago (2)
e prestar um breve auxílio num ano de má memória.




Bai Juyi (772 - 846)





(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Arthur Waley.)






(1) Shao Kung foi um líder lendário da China antiga que dispensava qualquer forma de justiça. Permanecia sentado à sombra de uma pereira selvagem, e assim governava os destinos do seu povo.

(2) O poeta foi quem mandou construir a represa do Lago Ocidental, ainda hoje existente e conhecida por "A represa de Bai". 
(Note-se que com as alterações na tradução do mandarim arcaico para as suas versões mais actuais, o nome de Bai Juyi passou a ser referido como Po Chu-I, sendo também verificável a mudança, obviamente, no nome dado à referida construção.)








(Pormenor da actual cidade de Hangzhou)





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CÂNTICO À PREGUIÇA


Poderia ter um emprego, 
mas sou demasiado preguiçoso para me candidatar.
Possuo um terreno,
mas sou demasiado preguiçoso para preparar o seu cultivo.

Tenho o telhado esburacado,
e preguiça em repará-lo.
Tenho as roupas em farrapos,
e indolência para as compor.
Tenho um cântaro de vinho,
e preguiça para o abrir.

Mais vale então que permaneça vazio!

Tenho a minha cítara,
mas estou sonolento o bastante
para a não tocar.
Mais valia então que cordas não tivesse!

A minha família resmunga: «Não há já mais arroz».
Também tenho fome... 
Mas estou demasiado letárgico
para cozinhar.

Os amigos enviam-me cartas,
mas não possuo energia para as abrir.

Ouvi contar que o tio Ji 
teve uma vida de grande preguiça,
mas ele tocava a sua cítara
e por ofício foi ferreiro.

Comparado comigo,
bem se vê como ele 
nunca dominou a arte da preguiça!




Bai Juyi (772 - 846)


(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Dongbo.)








(Bai Juyi e a sua adorável preguiça em acção) 



quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

Três poemas de Bai Juyi


I. A aldeia de Chu-Chen

Em Hsu-Chu, distrito de Ku Feng,
há uma pequena aldeia chamada Chu-Chen.
Está muito afastada da grande cidade,
entre campos de cânhamo,
à sombra de amoreiras.
Ali os teares tilintam alegres,
rangem pelas ruelas
as carroças puxadas por burros.
As jovens vão buscar água ao poço,
as crianças vão colher a lenha.
Os habitantes de Chu-Chen são pobres,
e é raro
tratarem com o governo.
Enquanto vivos, são
os habitantes da aldeia de Chu-Chen.
Quando mortos, tornam-se
no pó da aldeia de Chu-Chen.


II. O velho carvoeiro

No monte do sul, o velho carvoeiro
serra a madeira, faz carvão.
O rosto cor de fogo, coberto de fuligem,
cinzentas as têmporas, negras as mãos.
Ganha tão pouco dinheiro, e para quê?
Roupa para o corpo, comida para a boca,
mas tão pobre, coberto de andrajos...
Tem frio e deseja o frio, por causa do negócio,
esta noite um palmo de neve sobre a cidade.
De madrugada conduz a carroça, rasgando o gelo,
ao meio-dia, o boi fatigado, o homem com fome,
na Porta Sul descansam ambos na lama gelada.
Ah, quem são esses fogosos cavaleiros?
Um oficial vestido de amarelo, um rapaz de branco,
na mão um documento "Por ordem imperial".
Puxam o boi, levam a carroça para norte.
Uma carrada, trinta arrobas de carvão,
confiscadas pelos comissários do Palácio.
De nada servem protestos e lamentos.
Um pedaço de tecido em gaze,
umas tiras de seda florida,
tudo atado nos cornos do boi.
Eis a paga do labor do carvoeiro.


III. Lamento pela morte das peónias

Entristeço-me
pelas peónias vermelhas
no sopé da escadaria. 

Cheguei tarde demais.
Apenas dois débeis
exemplares resistem ainda.

Os ventos da manhã
que decerto virá
remetê-los-ão ao esquecimento.

Esta noite,
direccionando a candeia
desfruto dos derradeiros
laivos de vermelho esmaecido.



Bai Juyi (772 - 846) 






(Os poemas I e II são, respectivamente, traduções de António Ramos Rosa e de António Graça de Abreu ("Quinhentos Poemas Chineses", Nova Vega, 2014). O poema IIIº é uma tradução e adaptação da versão inglesa de Dongbo por Pedro Belo Clara).








(Pormenor de Luoyang, China, e suas peónias, cujo festival ainda hoje se realiza)






sábado, 30 de maio de 2015

DEPOIS DE ALMOÇO


Depois de almoço – uma breve sesta.
Ao acordar – duas chávenas de chá.
Erguendo o semblante, contemplo a luz solar
de novo inclinada para sudoeste.
Aqueles que são felizes lamentam a efemeridade do dia;
aqueles que são tristes enfadam-se pela preguiça do ano.
Mas aqueles cujos corações se despojam de alegria ou [tristeza,
vivem simplesmente – sem noção de curto ou longo.




Bai Juyi (772 – 846) (*)


(Tradução do original por Arthur Waley. Tradução da versão inglesa por Pedro Belo Clara).





(*) Bai Juyi nasceu em Xinzheng, província de Henan. Além de governador de duas das cidades mais importantes da China clássica, Hangzhou e Suzhou, tornou-se um dos mais importantes poetas que aquele país viu nascer. As suas criações receberam nítidas influências do pensamento taoísta e budista. Contam os relatos da época que cultivava a particularidade de rasgar todos os poemas que junto dos leitores não obtinham a devida compreensão. Procurou ressuscitar o uso de uma poesia directa e de simples processos, inspirando-se fortemente em canções populares. Amiúde em seus poemas imprimia uma forte crítica social, tendo sido ao longo da vida um principal defensor do povo e do seu bem-estar, que à época vivia em condições incrivelmente precárias, nomeadamente graças ao alto volume de impostos pagos ao Imperador - os cereais para a sua subsistência não raramente apodreciam nos celeiros imperiais, quando poderiam ter saciado a fome de inúmeras famílias camponesas.








Bai Juyi