quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A FORMIGA SUPREMA


Três formigas encontraram-se em cima do nariz de um homem que dormia ao sol e, depois de se cumprimentarem, cada uma saudando as outras segundo o costume da sua tribo, ficaram ali a conversar. 

A primeira formiga disse: "Estas colinas e planícies são as mais estéreis que alguma vez vi. Procurei o dia inteiro por uma semente de qualquer tipo, mas nada se consegue encontrar."

A segunda formiga respondeu: "Eu também não encontrei nada, embora tenha percorrido todos os recantos e veredas. Isto é, creio eu, aquilo a que o meu povo chama terra mole e instável, onde nada cresce."

Então, a terceira formiga levantou a cabeça e disse: "Minhas amigas, neste momento estamos em cima do nariz da formiga suprema, a poderosa e infinita Formiga, cujo corpo é tão grande que não podemos vê-lo, cuja sombra é tão vasta que não podemos abarcar os seus contornos, cuja voz é tão alta que não podemos ouvi-la; e Ela é omnipresente."

Depois de a terceira formiga assim ter falado, as outras duas entreolharam-se e riram-se.

Nesse instante, o homem mexeu-se e, no seu sono, ergueu a mão e coçou o nariz, esborrachando as três formigas.




Kahlil Gibran (1883 - 1931) ¹ 








("Kahlil Gibran: O Livro da Vida", Albatroz, 2018 - edição de Neil Douglas-Klotz.)













(1) Foi em Bsharri, uma pequena aldeia do norte do Líbano, que nasceu um dos maiores poetas místicos de sempre. Ocupa actualmente o terceiro lugar da lista dos poetas mais vendidos da história, só superado por William Shakespeare e Lao-Tzé. 
Torna-se claro, ao mergulhar na sua obra, que o sucesso conhecido foi a merecida colheita dum inegável talento e sensibilidade, duma profunda visão nascida de extraordinários dotes contemplativos, capaz de mergulhar com extrema precisão no âmago da alma humana. Contudo, o facto de ter vivido grande parte da sua existência num país de grandes oportunidades como os Estados Unidos, terá certamente facilitado a difusão do seu valoroso trabalho. 
Tinha apenas doze anos de idade quando foi viver para Boston, Massachusetts, com a mãe e os seus três irmãos. O pai permanecera no Líbano, cumprindo pena por desvio de fundos públicos. A emigração visava, sobretudo, a salvação familiar duma vida que se antevia de pobreza e infelicidade. 
Contudo, três anos depois o jovem Kahlil decide regressar a casa para estudar árabe (embora se suspeite que tenha sido a sua mãe a sugeri-lo, de modo a afastá-lo do que ela considerava ser influências negativas do mundo artístico com que o filho começava a privar), e fá-lo numa escola maronita de Beirute, algo que irá moldar decisivamente o seu pensamento religioso e o modo de encarar o Homem e o Mundo. 
Regressa, porém, aos Estados Unidos em 1902, já com dezanove anos, e assiste, num espaço de apenas quinze meses, à morte da sua mãe, irmã e um meio-irmão, todos vítimas de tuberculose. Dois anos depois, em 1904, conhece a sua grande mecenas e musa, e possivelmente amante, Mary Haskell, editora e directora duma escola local. Começa a publicar vários poemas, alguns dois quais serão compilados num livro somente editado dez anos depois.
Kahlil começa a expandir horizontes e a revelar o seu admirável talento de forma cada vez mais segura. Com o apoio financeiro de Haskell, Gibran estuda dois anos em Paris. Depois, em 1911, muda-se para Nova Iorque e inicia uma longa correspondência íntima com a sua nova paixão, May Ziadeh, uma intelectual libanesa que vivia exilada no Egipto. 
É de sublinhar que os seus escritos, nesta primeira fase, eram todos originalmente escritos em árabe. Apesar de falar o inglês, Gibran teve de esforçar-se para dominar a língua na sua forma escrita e entender perfeitamente todos os seus preceitos gramaticais. Somente em 1918 é que lança o seu primeiro livro totalmente escrito em inglês, "The Madman" ("O Louco"). 
Em 1920 reúne outros escritores e poetas árabes em exílio nos Estados Unidos e ambos fundam uma sociedade literária chamada "A Liga da Caneta". O seu trabalho, tanto literário como ao nível da pintura, continua a ser amplamente difundido, e em 1923, após uma longa espera, edita finalmente aquela que seria a sua obra-prima, o extraordinário livro denominado "O Profeta". Escusado será dizer que a obra obteve um sucesso imediato. Iniciará igualmente neste período uma amizade com aquela que será muito em breve a sua nova musa e editora, Barbara Young. 
Em 1928 ainda publica outro grande sucesso seu, o livro "Jesus, O Filho do Homem", mas apenas três anos volvidos sucumbe, precocemente, aos quarenta e oito anos de idade, a uma cirrose hepática. Cumpre-se no ano seguinte, em 1932, a vontade do poeta: o regresso ao seu Líbano natal e a Bsharri, acontecimento esse acompanhado à época por um enorme cortejo. Repousa hoje no mesmo local, um antigo mosteiro entretanto transformado em museu que honra a memória dum dos maiores poetas de sempre. 









(Kahlil Gibran, em retrato)



terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Seis haikus de Bashô


I. ¹

chuvas e neblinas - 
o dia em que não se vê o Monte Fuji
é o mais delicioso


II. ²

dormito sobre o cavalo
e a lua ao longe
é vapor do chá da manhã


III. ³

o macaco grita
mas que diria ele da criança
que é abandonada ao vento de outono?


IV. ⁴

se eu segurasse a caixa
os cabelos seriam lágrimas quentes
que passariam a geada de outono


V. ⁵

coberta de musgo
a sempre absorta hera
é uma oração budista


VI. ⁶

lua
e flores - 
os verdadeiros mestres







Matsuo Bashô (1644 - 1694)









(Tradução de Joaquim M. Palma, in "O Eremita Viajante", Assírio & Alvim, 2016).











(1) Este haiku, como era então habitual, vem originalmente precedido por um comentário escrito pela mão do autor. Tal gesto servia muitas vezes como um modo de melhor enquadrar o haiku antes de o apresentar ao leitor, oferecendo uma imagem geral das circunstâncias donde nasceu o momento em que o poema foi escrito. Ei-lo, então: «Choveu no dia em que saí para os campos; todas as montanhas estavam ocultas pelas nuvens.»


(2) Já este haiku traz consigo o seguinte comentário: «Deixei a hospedaria a meio da noite; quando a alvorada despontava, lembrei-me do poema "O Chicote Inclinado", de Tu Mu.» 
Acrescente-se que o poema a que Bashô se refere é datado do século IX e fala sobre uma situação em que o seu autor, tal como o mestre do haiku, cavalgava de noite e assim ia caindo no sono.


(3) Para além da conotação real do acontecimento, isto é, do escutar do grito do macaco, na poesia chinesa clássica tal som era associado a um sentimento de tristeza. Aqui relacionado com uma criança abandonada, adquire uma dimensão sentimental ainda mais cortante. 


(4) Antes deste haiku, Bashô escreveu o seguinte: «No início de setembro, regressei ao meu lugar de nascimento. Nada do que fora de minha mãe restava. A erva em frente da casa estava queimada pela geada. Tudo tinha mudado. O meu irmão e irmãs tinham o cabelo grisalho e rugas profundas na testa. Todos dizíamos: 'Temos sorte em estar vivos', e nada mais. O meu irmão mais velho abriu uma caixa e falou para mim: 'Vê o cabelo branco da mãe. Há muito que não nos visitavas. Esta caixa é como a caixa de jóias de Urashima Tarô. As tuas sobrancelhas tornaram-se brancas'. Ficámos comovidos por uns instantes, depois compus este poema.» 
Esclareça-se que Urashima Tarô é o protagonista duma história em que salva uma tartaruga das mãos de duas crianças que a queriam matar. Como recompensa, o simpático réptil guia o seu salvador até um palácio no fundo do mar. Muitos anos depois regressa a terra, trazendo apenas consigo uma caixa com recordações desse mágico lugar.


(5) Antes de se poder ler este haiku, Bashô deixa o apontamento: «Na sepultura de Tomonaga, província de Mino». 
Note-se que a hera é um símbolo da eterna recordação.


(6) Aqui, o autor esclarece: «Os três veneráveis anciãos possuíam o talento da elegância poética e expressaram os seus sentimentos em poemas de infinito valor. Aqueles que escutaram esses poemas manifestaram um crescente respeito pelos seus autores.»
Perante isto, torna-se óbvia a subversão de Bashô, ao aclamar a lua e as flores, no fundo todas as coisas naturais e simples, como «os verdadeiros mestres».









("Rosados e brancos rebentos de ameixieira ao luar", 
de Sō Shizan (1733–1805))



domingo, 30 de dezembro de 2018

MORRE AGORA PARA TI MESMO


Tens suportado imensos, terríveis lamentos,
mas ainda vives debaixo de um véu
- pois morrer para ti mesmo
é o princípio fundamental
que ainda não abraçaste.

O teu sofrimento não terminará
antes que esta morte se complete:
não poderás alcançar o telhado
até subires ao topo da escada.

Como poderás sequer experienciar
o completo naufrágio da tua embarcação 
antes de a teres carregado
com a carga final?

Esta carga derradeira é essencial;
é uma estrela que invoca a noite
e faz naufragar o barco do erro.
Quando o barco da autoconsciência 
estiver finalmente partido e afundado,
tornar-se-á assim como um sol
inundando um céu sem nuvens. 

Mas, uma vez que ainda não estás morto,
a tua angústia prevalece.
Oh, candeia de Taraz¹, morre ao amanhecer!
O sol deste universo esconde-se 
até que todas as estrelas estejam ocultas. 

Não poderás vir a conhecer Deus,
apenas negar o que se Lhe opõe.
Desejas a revelação da Realidade? Escolhe a morte!
Não aquela que te arrasta para o túmulo,
mas a morte que é transformação
- para que enfim sejas Luz. 





Rumi (1207 - 1273)










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Andrew Harvey in "Teachings of Rumi" - Shambhala Pub., 1999)









(1) Taraz é uma cidade situada no actual Cazaquistão. Diz contar com mais de dois mil anos de idade, tudo devido a uma fortaleza em ruínas que remonta ao tempo do domínio chinês na zona. O seu nome inicialmente seria Talas, embora na antiguidade a designação Taraz também surja amiúde, talvez por derivação. Desde então a cidade mudou várias vezes de nome, até se fixar na sua derivação antiga - mas apenas em 1997. Durante o século XIII, o tempo de vida de Rumi, a cidade, outrora próspera por ser um local de paragem da famosa Rota da Seda, encontrava-se em nítido declínio. 
Qual, portanto, a relevância desta referência no contexto do poema? O tradutor não a esclarece nem a nossa pesquisa foi muito produtiva nesse aspecto, embora se a referência for à cidade o seu significado e relevância torna-se muito diminuto. Acontece que em persa antigo, o dialecto em que Rumi escrevia, "taraz" é um adjectivo que poderá significar beleza ou harmonia. Existe uma referência a tal num poema da antiguidade, autoria de Nizami (1141 - 1209): "sham' i - taraz", traduzido por "bela ou harmoniosa candeia (ou vela)" (Metaphor and Imagery in Persian Poetry, Ali Asghar Seyed-Gohrab, Brill, Lieden - Boston, 2012 - Pág. 98). Assim sendo, tratar-se-á de um erro de tradução? Assumindo "Taraz" como nome ao invés de adjectivo? Sem criticar o trabalho realizado, há que admitir que assim nos parece, pelo que "candeia de Taraz" será assim "bela/harmoniosa candeia", significando, em contexto, uma referência ao próprio Homem. Para todos os efeitos, dada a incerteza, deixámos a versão portuguesa seguir o que na tradução inglesa se escreveu. 











(Fotografia de: Himalayan Institute)


sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Quatro poemas de autores da dinastia Tang


I. Ganso solitário ¹

Ganso solitário: não beberás, tampouco debicarás.
Respondes ao chamamento do voo, o bando ignora.
Quem terá pena dum retalho de sombra que está só?
Perdido de ti nas dobras de mil nuvens, ainda
ao alcance do olhar, observas quem toma a dianteira.
Os pesares aumentam, como se a voz fosse ainda audível.
E os corvos no mato, sem um ponto de sentido,
grasnando, clamando aos seus grosseiros semelhantes.  


Du Fu (712 - 770)




II. Rio nevado ²

Mil montanhas sem rastro de qualquer voo,
dez mil trilhos sem vestígio humano.
Um barco solitário, um velho de capa e chapéu de bambu
sozinho pescando a neve do gélido rio.


Liu Zongyuan (773 - 819) ³




III. Ancorando, de noite, na Ponte dos Áceres ⁴

A lua afunda-se, os corvos grasnam,
a geada congela o céu.
Os áceres do rio estremecem
no revérbero das lanternas.
O meu sono é inquieto.
Para além de Suzhou⁵, o templo da Montanha Fria.
Ecos de sinos vão chegando ao barco.
É meia-noite.


Zhang Ji (? - 780) ⁶




IV. Retiro no bosque de bambus

Sozinho no remoto bosque de bambus,
toco alaúde e assobio bem alto.
Nessas profundezas desconhecidas ao Homem
chega a lua - e comigo partilha a sua luz.



Wang Wei (701 - 761)







(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções para inglês de: I) David McGraw; II) Qiu Xiaolong, Dongbo, Kenneth Rexroth, David Hinton e Gary Snyder; III) Dongbo e Gil de Carvalho; IV) Dongbo.) 







(1) Embora o poema nos conceda uma imagem bela e ao mesmo tempo pungente, e ainda que seja provável basear-se numa cena real testemunhada pelo poeta, a sua construção sugere uma interpretação mais profunda. Numa primeira análise, o lamento que é transversal ao poema pode ser entendido como sendo o do próprio poeta, ele mesmo o cisne retratado, que triste e só vê o seu bando partir sem que o consiga alcançar (a velhice e a passagem do tempo.) Contudo, uma análise mais detalhada sugere que o poeta refere-se antes ao estado geral do seu país num momento de instabilidade política, sendo todo o poema uma alegoria da situação então vivida. Assim, o cisne é uma metáfora da grande dinastia Tang, expoente máximo da prosperidade económica e do florescimento cultural na China antiga, na época da composição a registar um vincado declínio. Seguindo esta ideia bastante bem fundamentada, os corvos que em contraposição ao cisne (preto vs. branco) aparecem no poema seriam a metáfora da decadência em si, trazida pelas forças emergentes no país. Embora a dinastia Tang só conhecesse o seu fim muito depois da morte de Du Fu, em 907, o poeta testemunharia o sangrento conflito conhecido por A Rebelião de An Lushan, em 755, pelo que provavelmente o poema terá sido escrito nessa altura (e em Kuizhou, onde viveu por quatro anos, já bastante debilitado fisicamente). Os corvos que grasnam para os seus grosseiros semelhantes podem perfeitamente ser o feliz retrato de todos os partidário de tal golpe, findado apenas em 763 - e Du Fu, como dissemos, o pobre cisne que ficou para trás, condenado a viver entre esses pouco desejáveis convivas. 


(2) Apesar de ser um poema muito breve, além de famoso, existem várias versões que, sem grande prejuízo para a essência global do texto, sugerem ideias distintas a respeito da belíssima imagem que o poema transmite. É, acima de tudo, um poema bastante visual, registado em pleno inverno, na melancolia da neve e do vazio dos caminhos. Exala uma solidão notável, e em todas as principais versões isso faz-se notar. A grande questão, aqui, prende-se com o último verso do poema, onde a maioria das traduções refere o velho homem, sozinho, a pescar na neve do gélido rio. Contudo, as traduções consultadas que são da autoria de indivíduos nascidos ou com raízes no oriente, oferecem uma pequena mudança que, no retrato geral, concede ao poema uma dimensão totalmente distinta. Ora, nessas é referido que o velho homem pesca a neve do gélido rio. Isto é, num dia tão frio, tão desprovido de vida, que peixe, afinal, se poderá pescar num rio coberto de neve? (E não gelo, curiosamente, em todas surge a palavra "snow".) Assim, a ideia deixada é a de um barco solitário, um velho homem com a sua cana e um fio frágil estendido às águas, quase como num velho hábito, num cumprir de ritual da mais alta importância... pescando apenas a neve solta pelo rio. Dado que os autores orientais deixaram esta imagem nas suas traduções, por considerarmos existir uma maior facilidade na ligação às origens do poema, também ele oriental, apresentámos a sugestão de tais figuras. Resta acrescentar que, embora não haja total certeza, o rio referido talvez seja o Xiao ou o Xiang, algures no sul de Hunan, onde o poeta passou o primeiro dos seus dois exílios. 


(3) Escritor, poeta e político nascido na actual Yongji, em Shanxi. Foi um dos fundadores do Movimento Prosaico Clássico, pelo que não se estranha o facto de ter sido um dos melhores executantes da prosa chinesa da época - e não só. A sua carreira floresceu bastante na fase inicial, mas uma infeliz associação política levou-o a enfrentar dois exílios, primeiro para Yongzhou e depois para Liuzhou - onde viria a tornar-se governador. (Ainda hoje, nesta localidade, ergue-se um templo e pode-se visitar um parque que celebra a sua memória.) O exílio, apesar de tudo, trouxe a benesse do crescimento e desenvolvimento da actividade literária, exercida, além da já referida poesia e prosa genérica, ao nível da fábula e do ensaio - um dos seus mais notáveis exemplos aborda questões da filosofia confuciana, taoísta e budista. O poema que aqui se traduz é a sua mais emblemática obra, conhecido em toda a China e até no Japão. 


(4) Ainda existente nos dias de hoje, é possível encontrá-la na cidade de Suzhou - ela própria situada nas cercanias do famoso templo da Montanha Fria (Hanshan). 


(5) Situa-se no delta do rio Yangtzé, na província de Jiangsu. Foi fundada no ano de 514 a. C., e dada altura chegou a ser uma das dez maiores cidades do planeta. Berço da cultura Wu, ainda hoje é um largo centro económico e comercial com mais de quatro milhões de habitantes. 


(6) Pouco se conhece sobre este poeta nascido em Xiangyang, provavelmente em 712 ou 715. Devido a essa discrepância, e porque muitos preferem manter incerto a data do seu nascimento, optámos por apresentá-lo do mesmo modo. Sabe-se, contudo, que Zhang Ji passou nos exames imperiais, os jinshi, em 753, e desempenhou com sucesso o cargo de secretário do departamento de receitas do estado. Existem vários poemas que lhe têm sido erradamente creditados ao longo dos anos, o que só contribui para adensar a confusão em torno do quase esquecido poeta. Porém, graças à famosa antologia "Trezentos Poemas da Dinastia Tang", traduzidos para língua ocidental por Witter Bynner, o poema aqui apresentado chega até nós sem qualquer dúvida sobre a sua autoria. É, por isso, a obra mais famosa de Zhang Ji, valendo-lhe até uma estátua, ainda hoje existente, junto da famosa ponte dos áceres. Certos poetas japoneses parecem nutrir uma predilecção pelos seus poemas, já que devido ao seu estilo de composição muitas vezes os utilizam nos seus Shigin, uma tradicional forma de recitar poesia através do canto. 









terça-feira, 27 de novembro de 2018

AMOR RECÍPROCO


Quando os nossos mentores, e aqueles que estimamos, partem, desaparecendo para sempre, eles não ficam extintos. São como estrelas que se evolam na luz do Sol da Realidade. Eles existem pela sua essência, mas tornam-se invisíveis pelos seus atributos.

Este ser não tem fim. Se todos os mares do mundo fossem tinta, e todas as árvores de todas as florestas fossem penas, e todos os átomos da atmosfera fossem escribas, ainda assim não conseguiriam descrever as uniões e os reencontros das almas puras e divinas, bem como a reciprocidade do seu amor.







Rumi (1207 - 1273), 

in "Cartas".









(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Andrew Harvey in "Teachings of Rumi" - Shambhala Pub., 1999)
















terça-feira, 20 de novembro de 2018

Três poemas místicos de Lao Tsé


I.

O Tao¹ a que se dá um nome
não é o Tao eterno.
O não-nome é o seu verdadeiro nome.

O inominável é a origem do céu e da terra.
O nomear é a mãe de todos os seres.

Se nos esvaziarmos do desejo, vemos o mistério.
Se desejamos, vemos a manifestação das coisas.

Estas duas verdades emergem de uma única origem,
e as duas são um mistério.

Quando o mistério se mistura com o mistério,
abre-se a porta para o desconhecido.


II.

O Tao é uma taça vazia;
quando se usa, não se enche.
Parece não ter fundo.
É como a fonte de todas as coisas.

Ele suaviza as arestas,
desata todos os nós,
atenua o brilho intenso,
reúne toda a poeira do mundo.

É um abismo escondido
mas sempre presente.

De quem é filho? Não sei.
Parece estar muito antes dos deuses.


III.

Trinta raios convergem no eixo,
mas é o vazio que há no centro
que dá utilidade à roda.

O barro é moldado para fazer vasos,
mas é o vazio que há no seu interior
que lhe dá utilidade.

Colocam-se portas e janelas nas paredes,
mas o espaço interior vazio é que é útil.

O ser torna acessível,
mas é o não-ser que é útil.





Lao Tsé (séc. VI a.C. - ?)








(Tradução de Joaquim Palma, in "Tao Te Ching - O Livro do Caminho e da Sabedoria", Editorial Presença, Julho de 2010).









(1) Tao é a palavra chinesa para "caminho". No contexto deste poema, assume obviamente conotações mais filosóficas e, se quisermos, até místicas.










(Escultura em pedra de Lao Tsé no sopé do monte Qingyuan, a norte de Quanzhou, na China)




segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Quatro poemas de Du Fu


I. Luar nocturno

A lua de Fuzhou¹ está cheia, esta noite.
Sozinha no teu quarto a contemplas.
Em Chang'an² sofro pelos nossos filhos,
que sentem a falta do pai.
Consigo imaginar os seus caracóis húmidos
e os seus braços de jade frios como cristal.
Oh, quando estaremos juntos de novo?
- luar cintilante reflectido
em trilhos de lágrimas secas.


II. Anotando os meus pensamentos enquanto viajo de noite

Uma orla de finos juncos na brisa suave,
um grande barco sozinho na noite.
As estrelas suspensas sobre a árida terra,
a lua nascendo do rio Yangtze³.
Como escrever alguma vez me levaria à fama?
Desisti do meu cargo pela doença e idade.
Um errante solitário. Que sou senão
uma gaivota entre o céu e a terra?


III. Lua cheia

A lua solitária defronte da minha torre derrama-se;
o frio Jiang⁴ agita as cortinas da noite.
Inclinada sobre as vagas, o seu oiro não tem descanso;
cintilando na minha esteira, a sua seda suaviza-se.
Ainda não minguou - as montanhas vazias estão silentes;
permanece bem alto, e as constelações esmorecem.
No meu velho jardim, pinheiros e cássias florescem
- oferecendo um brilho puro por vários quilómetros. 


IV. Último dia de outono, ano de 767

O meu tempo de vagabundo tarda em findar,
o outono de pesares está a um crepúsculo de terminar.
Miasmas pairam pelos domínios do Mestre Kui⁵;
a geada permanece fina no palácio do Rei Chu⁶.
Em tons de esmeralda, ervas rivalizam com brumas veladas;
em tons de carmesim, flores suportam folhas geladas.
Ano após ano, uma ligeira sensação de queda agitada.
Nada é como era na minha velha casa.





Du Fu (712 - 770)









(Versões de Pedro Belo Clara a partir das traduções de Dongbo (I), Bill Porter (II) e David McCraw (III e IV)).











(1) Fuzhou é uma cidade cuja fundação remonta ao século II a. C., embora só no século VI da nossa era tenha ficado sob administração chinesa. Situa-se a cerca de 40 km da costa, no delta do rio Min, e actualmente é a capital da província de Fujian. 

(2) Trata-se da cidade que por mais de dez dinastias foi a capital chinesa. Actualmente designada por Xian, chegou a ser a cidade mais populosa do mundo, um exemplo de riqueza e civismo - situada no fim da famosa rota da seda. 
Embora não fosse nativo de lá, Du Fu tinha fortes raízes familiares nessa cidade, sendo uma das suas predilecções. 

(3) Yangtzé, ou Rio Azul, é o maior rio da Ásia. Nasce numa região montanhosa do Tibete e percorre mais de 6000 km para desaguar no mar da China oriental. Foi neste rio, a bordo de um barco, que Du Fu faleceu. Tinha então 58 anos e um historial de imensas doenças debilitantes. 

(4) O antigo nome de um outro rio, presumivelmente o rio Wei, situado na província de Shaanxi. 

(5) É possível que se refira ao Kui da mitologia chinesa, um demónio das montanhas, de uma só perna, a quem se atribui a criação da música e da dança. Portanto, os domínios do mestre Kui seriam, assim, as montanhas onde ele mitologicamente habita - na altura da criação do poema cobertas de neblinas estranhas. 

(6) Decerto uma referência ao Estado de Chu, que se instaurou durante a dinastia Zhou e durou de 1030 a 223 a.C.. Talvez o poeta somente visse as ruínas de tal palácio, mas sabe-se que o poema foi escrito durante os quatro anos que passou em Fengjie, distrito de Chongquing, região essa que esteve no domínio do dito Estado - o que suporta a nossa suposição. Os invernos rigorosos do lugar, repletos de chuva e humidade, juntamente com as parcas condições de higiene e habitação, tornavam Fengjie, bem perto das famosas Três Gargantas, um local a evitar. 








(Fengjie, descendo o rio Yangtzé)