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segunda-feira, 2 de novembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (o quarto de cinco poemas)

 

Durante muito tempo
troquei as montanhas e os lagos
por um cargo oficial
mas agora palmilho montes e rios longamente
pois as planuras, charnecas e bosques
me encantam
levo comigo uma criança pela mão
e afastando arbustos abrindo caminho
andamos pelas ruas de uma aldeia em ruínas
divago meio perdido através de túmulos
e detenho-me nos lugares outrora habitados
pois poços e casas deixam vestígios
silvedos e bambus, cepos apodrecidos. 

Interrogo um lenhador
toda esta gente o que é feito dela
e ele responde voltando-se para mim
estão todos mortos, não ficou vivalma
basta uma geração 
para que a corte e o povo se renove
como é certeiro este ditado
a vida humana é apenas ilusão
acabamos todos por voltar ao nada.





Tao Yuanming (365 - 427)














(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)













("Ruína",
de Lingxue.)


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (o terceiro de cinco poemas)


Semeei uns feijões
nas encostas voltadas a sul
mas as ervas daninhas espalharam-se
e os rebentos de feijão atrofiaram
levanto-me cedo
e aproveito para mondar o quintal
de sacho aos ombros, regresso a casa
em companhia da lua
o caminho torna-se estreito
no meio das ervas e da mata cerrada
o orvalho do crepúsculo molha a minha roupa
mas isso a mim não me incomoda nada
aproveito para praticar a não-contrariedade
e o que me importa mesmo
é não trair os sonhos. 







Tao Yuanming (365 - 427)












(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)















("Playing a Farmer", 
Utagawa Kunisada (1786 - 1865))



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (Segundo de cinco poemas)


Dou-me com pouca gente aqui no campo
no meu cantinho cavalos e carroças raramente passam

durante o dia o portão fica fechado
e na sala vazia o mundo vazio não entra

de vez em quando abrindo caminho entre as ervas
procuro a casa de alguns vizinhos

mas quando a gente se encontra falamos apenas
de como medram as amoreiras e o cânhamo

pois a amoreira e o cânhamo crescem a olhos vistos
e a minha horta de igual modo prospera

somente temo a geada e o granizo
e que tudo arruínem, como as ervas daninhas. 




Tao Yuanming (365 - 427)











(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)












("Nêsperas e Um Pássaro da Montanha",
Anónimo, sécs. XII ou XIII)


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

REGRESSO AO CAMPO (Primeiro de cinco poemas)


Jovem, e já o mundo me desiludia tanto
pois o que eu amava mesmo eram as montanhas

porém tonto, me deixei apanhar pelas armadilhas do mundo
e treze anos passaram assim num abrir e fechar de olhos

mas o pássaro em cativeiro tem saudades da floresta
o peixe no aquário anseia pelas águas revoltas de outrora

eu limpo as terras do sul entretendo a minha rudeza,
levando uma vida simples, pois regressei à minha terra

o lugar onde moro não vai além de uns casais
onde tenho uma casita com aposentos vários

colmos e salgueiros dão sombra ao alpendre das traseiras
pessegueiros e pereiras decoram o jardim da frente

lá ao longe, o casario de uma aldeia perdida e vaga
o fumo das chaminés subindo para o céu

cães ladram em becos distantes e baldios
galos cantam trepando sobre arbustos

no coração da casa nem uma nódoa
não cabem tumultos onde o silêncio mobila os quartos

tanto tempo estive em cativeiro
que alegria por voltar ao campo.




Tao Yuanming (365 - 427)










(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)















(Tao Yuanming,
Cai Ju Dong Li Xia.)


quarta-feira, 27 de março de 2019

Compreende os outros



Compreende os outros,
e serás sábio.
Compreende-te a ti mesmo,
e ficarás iluminado.

Vencer os outros exige força física.
A conquista de ti mesmo dá-te poder superior.

Viver com o que se tem,
é ser-se rico.
Persistir no caminhar
leva longe os teus passos.

Não percas o teu lugar,
e terás uma vida longa.

Assim, quando morreres,
não acabas.








Lao Tsé (séc. VI a.C. - ?)









(Tradução de Joaquim Palma, in "Tao Te Ching - O Livro do Caminho e da Sabedoria", Editorial Presença, 1º edição, Julho de 2010.)























terça-feira, 20 de novembro de 2018

Três poemas místicos de Lao Tsé


I.

O Tao¹ a que se dá um nome
não é o Tao eterno.
O não-nome é o seu verdadeiro nome.

O inominável é a origem do céu e da terra.
O nomear é a mãe de todos os seres.

Se nos esvaziarmos do desejo, vemos o mistério.
Se desejamos, vemos a manifestação das coisas.

Estas duas verdades emergem de uma única origem,
e as duas são um mistério.

Quando o mistério se mistura com o mistério,
abre-se a porta para o desconhecido.


II.

O Tao é uma taça vazia;
quando se usa, não se enche.
Parece não ter fundo.
É como a fonte de todas as coisas.

Ele suaviza as arestas,
desata todos os nós,
atenua o brilho intenso,
reúne toda a poeira do mundo.

É um abismo escondido
mas sempre presente.

De quem é filho? Não sei.
Parece estar muito antes dos deuses.


III.

Trinta raios convergem no eixo,
mas é o vazio que há no centro
que dá utilidade à roda.

O barro é moldado para fazer vasos,
mas é o vazio que há no seu interior
que lhe dá utilidade.

Colocam-se portas e janelas nas paredes,
mas o espaço interior vazio é que é útil.

O ser torna acessível,
mas é o não-ser que é útil.





Lao Tsé (séc. VI a.C. - ?)








(Tradução de Joaquim Palma, in "Tao Te Ching - O Livro do Caminho e da Sabedoria", Editorial Presença, Julho de 2010).









(1) Tao é a palavra chinesa para "caminho". No contexto deste poema, assume obviamente conotações mais filosóficas e, se quisermos, até místicas.










(Escultura em pedra de Lao Tsé no sopé do monte Qingyuan, a norte de Quanzhou, na China)




sexta-feira, 30 de junho de 2017

Quatro poemas de Shih Te


I.

Se quiseres ser feliz,
não há outra via que não a do eremita. 

Nas matas, as flores crescem 
até se assemelharem a um brocado sem fim
- a cada nova estação renovadas cores.

Toma o teu lugar junto dum penhasco
e direcciona o rosto para poderes observar
a caminhada da lua.

E eu? Deveria permanecer numa alegria serena,
mas não consigo deixar de pensar
nas outras pessoas.


II.

Sempre fui Shih Te, o órfão.

Não é um nome acidental,
embora possua família:
Han Shan é meu irmão.
Somos dois homens de coração idêntico,
entre nós não há a necessidade
dum amor vulgar.

Se desejares saber a nossa idade...
Tal como o Rio Amarelo, não é clara.


III.

Os meus poemas são poemas,
ainda que certas pessoas os chamem de sermões. 

Bem, poemas e sermões têm de facto algo em comum:
quando os lês, deverás ser cuidadoso.
Tem atenção a cada linha, mergulha em cada detalhe.
Não digas apenas que são fáceis.

Se viveres a tua vida deste modo,
imensas coisas curiosas poderão acontecer.


IV.

Ganância, ira, ignorância: 
bebe longamente destes vinhos envenenados 
e ébrio repousa na escuridão, nada sabendo...

Faz da riqueza o teu sonho, 
e o teu sonho será uma gaiola de ouro. 

A amargura é a causa de todo o azedume.
Desiste de tudo ou vive no seio da ilusão.

É bom que despertes rapidamente.
Desperta e retorna a casa.




Shih Te (séc. IX) ¹








(Versões de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por J. P. Seaton em "Cold Mountain Poems" - Shambhala Publications, 2009)







(1) Mais um nome cuja história de vida permanece maioritariamente na obscuridade. Aliás, como o poema que nesta publicação surge em segundo lugar permite adivinhar, "Shih Te" nem sequer é um nome por si só, mas uma alcunha, podendo significar "órfão", como se optou, mas igualmente "abandonado", "sem tecto" e até "acolhido" ou "adoptado". 
Uma das histórias possíveis de serem aceites conta que, um dia, Feng Kan, um monge poeta do templo Kuo-ch'ing, nas montanhas T'ien-t'ai, passeando por uma povoação perto desse local, escutou o choro de uma criança. Teria ela aproximadamente dez anos de idade, e fora abandonada pelos seus pais. O monge acolheu a criança e levou-a para o seu templo, que o eremita Han-Shan costumava visitar em busca de trabalhos pontuais, ficando o jovem abandonado a desempenhar diversos papéis na cozinha do edifício religioso. 
Shih Te, Han Shan e Feng Kan formaram um trio célebre e uma amizade profunda, embora o nosso poeta de hoje fosse consideravelmente mais novo que os outros dois. Escreveram diversos poemas, espalhados por rochas e cercas, além do local tradicional de registar a palavra escrita, todos eles trabalhos com óbvias influências do pensamento budista, mas não só. De Shih Te terão sobrevivido cerca de cinquenta poemas, todos eles muito breves, não mais que dez linhas, em regra, compostos de modo bastante directo e simples. A influência de Han Shan nos seus escritos é inegável. 
O problema maior, no que toca à autenticação dos trabalhos, reside no facto de Shih Te ser um apelido que muito provavelmente foi adoptado por outros que escolheram «a via do eremita» na quietude da famosa montanha. Significando, entre outras coisas, "órfão", como já se sabe, muitos ter-se-ão visto e sentido em lugar idêntico, espiritualmente falando, começando a assinar os poemas que então escreviam com a mesma nomenclatura. De facto, dos poemas recolhidos que registavam tal nome as discrepâncias de género e estilo são notórias, o que levanta fundamentadas suspeitas. Não será, pensa-se, o caso dos poemas aqui apresentados, legitimados por uma maior lógica de traçado e conteúdo, não obstante a dificuldade de tal certificação. 







(Shih Te e seu "irmão" Han Shan)




segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

CÂNTICO À PREGUIÇA


Poderia ter um emprego, 
mas sou demasiado preguiçoso para me candidatar.
Possuo um terreno,
mas sou demasiado preguiçoso para preparar o seu cultivo.

Tenho o telhado esburacado,
e preguiça em repará-lo.
Tenho as roupas em farrapos,
e indolência para as compor.
Tenho um cântaro de vinho,
e preguiça para o abrir.

Mais vale então que permaneça vazio!

Tenho a minha cítara,
mas estou sonolento o bastante
para a não tocar.
Mais valia então que cordas não tivesse!

A minha família resmunga: «Não há já mais arroz».
Também tenho fome... 
Mas estou demasiado letárgico
para cozinhar.

Os amigos enviam-me cartas,
mas não possuo energia para as abrir.

Ouvi contar que o tio Ji 
teve uma vida de grande preguiça,
mas ele tocava a sua cítara
e por ofício foi ferreiro.

Comparado comigo,
bem se vê como ele 
nunca dominou a arte da preguiça!




Bai Juyi (772 - 846)


(Versão adaptada de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Dongbo.)








(Bai Juyi e a sua adorável preguiça em acção) 



sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Três poemas de Han Shan


I.

Vive o homem a vida numa tigela de poeira
Como bichinhos dentro de um jarro
Todo o dia andando à volta
Nunca sai lá de dentro
Não nos calha a ventura
Só temos em sorte desgraças
O tempo parece um rio
Que corre. Um dia, acordamos velhos.

(Tradução de Gil de Carvalho)




II.

Habito a montanha,
ninguém me conhece.
Entre nuvens brancas,
o silêncio, sempre o silêncio.

(Tradução de António Graça de Abreu)




III.

Por sorte, habito solitário entre penhascos,
no rasto de pássaros, longe dos homens.
O que existe em redor do meu jardim?
Nuvens brancas abraçando rochas negras.
Habito por aqui há tantos anos,
quantas vezes o Outono deu lugar à Primavera?...
Hoje, compreendo melhor: riquezas, honrarias,
o nome, a fama, tudo inútil e vazio.

(Tradução de António Graça de Abreu)




Han Shan (circa 700 - 780) (*)



(Traduções retiradas de: "Poemas de Han Shan", A.G.A, Macau, Cod. Ed. 2009; "Uma Antologia de Poesia Chinesa", G. de C., Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.)






(*) Para quem o considera uma entidade individual, eis uma enigmática figura sobre qual pouco se sabe, inclusive as datas exactas da sua existência material. É geralmente defendido tratar-se de um homem letrado que posteriormente optou por uma vida de eremita nas montanhas Tiantai, província de Zhejiang. Os seus poemas sobre essa "montanha fria" tornar-se-iam famosos. Grande parte da sua poesia hoje conhecida, aliás, parece ter sido produzida nesse eremitério, dada a centralidade que a sua paisagem assume, seja de modo directo ou mais subentendido. 
Importa contudo ressalvar que o próprio nome, Han Shan, significa nada mais nada menos do que "montanha fria", o que levou muitos estudiosos a duvidar da hipótese de se tratar de um só homem, ao invés de um conjunto de pessoas que, remetidas a uma vida eremita nessas montanhas, com tal nome assinavam as suas criações. Na verdade, na antologia dos poemas de Han Shan existem algumas discrepâncias de tema e tom, o que leva a crer a existência de outras mãos imiscuídas na sua produção. Poderia até tratar-se, inicialmente, de um homem só, ao qual outros se seguiram, mas cujo nome deste primeiro adoptaram para si, dado o local do seu isolamento voluntário. O mesmo parece ter acontecido com o companheiro que historicamente lhe é atribuído, Shih Te ("O orfão").
Ainda assim, é visto como tendo sido um "mestre Zen", ou um "bodhisattva" (Manjusri), provavelmente devido ao aspecto sobrenatural que paira sobre a única história conhecida sobre si. Não obstante, é um facto que a sua poesia, tantas vezes espalhada nas árvores, pedras e muros de quintas rurais, torna-se na primeira a assimilar as influências do Budismo Zen, corrente de pensamento que surgiu algures no séc. VII no Império do Meio, durante o despontar da Dinastia Tang, com vincados salpicos que lembram a essência do pensamento taoísta. 

Os poemas agora seleccionados atestam profundas observações sobre a existência humana, os logros do ego, a impermanência das coisas... No reverso, cintilam as virtudes do silêncio e de uma vida de isolamento, por forma a privilegiar um contacto mais directo e autêntico com a "verdadeira face da existência".













quarta-feira, 10 de junho de 2015

Todos sabem que o belo é belo


Todos sabem que o belo é belo
porque há fealdade.
Todos sabem que o bem é virtuoso
porque há o mal.

Existir e não-existir produzem-se um ao outro.

O difícil e o fácil completam-se.
O longo está contido no curto, e o alto no baixo.
O instrumento e a voz atingem uma só harmonia.
O antes e o depois seguem-se um ao outro.

Por isso, o sábio age sem esforço

e ensina o não-falar,
trata das coisas sem as possuir,
e executa sem esperar elogios.
E, porque não se apega,
o que faz permanece para sempre.





Lao Tsé (séc. VI a.C. - ?) (*)






(Tradução de Joaquim Palma, in "Tao Te Ching", Editorial Presença (1º edição - Julho de 2010).







(*) Lao Tsé, o Velho Mestre, é das figuras mais emblemáticas e obscuras da China antiga. Diversas lendas criaram-se em torno de tal figura, das mais plausíveis às mais absurdas possíveis, ora divinizando-a ora pondo em causa a sua própria existência.

Fundador do pensamento Taoísta e contemporâneo de Confúcio, cuja doutrina rivalizou desde sempre com os mais básicos preceitos do Taoísmo. 
Num período inicial da sua vida foi responsável pelos arquivos históricos e conselheiro da corte imperial de Chou. 
Após a queda desse império, reza a lenda que terá abandonado a cidade rumo ao Tibete. Ao chegar à fronteira, o guarda, reconhecendo-o, terá pedido ao Velho Mestre que deixasse escrito um livro sobre o "verdadeiro caminho e a verdadeira sabedoria". Desse pedido nasceu o Tao Te Ching, uma das obras mais publicadas de sempre em todo o mundo, logo atrás da Bíblia. Escrito o livro, Lao Tsé retomou a direcção do sol poente. E não mais foi visto. 









(Lao Tsé)