domingo, 16 de julho de 2023

OCEANO SEM FIM


Sou oceano sem fim.
Duma forma ou doutra,
O vento, soprando para onde deseja,
Comanda o navio do mundo.
Mas eu não sou perturbado.
 
Sou as profundezas infindas
Donde as vagas de todos os mundos
Erguem-se e tombam naturalmente.
Mas eu não me ergo nem tombo.
 
Sou o fundo infinito
Onde todos os mundos
Aparentam despontar.
Além de todas as formas,
Eternamente sereno,
Assim eu sou.
 
Não estou no mundo, 
O mundo não está em mim.
Sou puro.
Sou infinito.
Sem apego,
Sem desejo,
Sereno.
Assim eu sou.
 
Oh, quão maravilhoso!
Sou consciência,
Nada mais.
O mundo é um espectáculo de magia!
Mas, em mim,
Nada existe para abraçar,
Nada existe para rejeitar. 
 
 
 
 
 
Ashtavakra (? - ?)









(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
"Endless Sea",
Sandra Gebhardt-Hoepfner


 

 

sábado, 1 de julho de 2023

CONHECIMENTO

 
Sou como o espaço, sem limites.
O mundo é um pote de barro.
É esta a verdade.
Nada há a aceitar, 
Nada há a rejeitar,
Nada há a dissolver.


Sou como o oceano.
Todos os mundos são as suas ondas.
É esta a verdade.
Nada há a que tenha de me agarrar,
Nada a que deva me desapegar,
Nada a dissolver.

Sou madrepérola.
O mundo é um veio de prata,
Uma ilusão!
É esta a verdade.
Nada há a entender,
Nada há a desprezar,
Nada há a dissolver.

Estou em todos os seres,
Todos os seres estão em mim.
É esta toda a verdade.
Nada há a abraçar,
Nada há a renunciar,
Nada há a dissolver
.
 
 
 
 
 Ashtavakra (? - ?)









(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.) 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(autor desconhecido)



domingo, 18 de junho de 2023

PERMITE-TE DISSOLVER



És puro.
Nada te toca.
O que há a renunciar?
Põe tudo de parte,
O corpo e a mente.
Permite-te dissolver.

Como as bolhas no mar,
Todos os mundos despontam em ti.
Sabe que és o Ser,
Sabe que és Um.
Permite-te dissolver.

Observas o mundo;
Mas, tal como um pedaço de corda
Pode ser confundido com uma serpente,
Ele, em verdade, não existe.
És puro.
Permite-te dissolver.

És sempre Um, imutável
Através da alegria e do pesar,
Da esperança e do desespero,
Da vida e da morte.
Já és completo.
Permite-te dissolver.






Ashtavakra (? - ?)














(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)














(autor desconhecido)



sábado, 3 de junho de 2023

AQUELE QUE É VERDADEIRO NA SUA BUSCA

 
O homem sábio conhece o Ser,
E joga o jogo da vida.
Já o tolo vive no mundo
Como um animal de carga.
 
Aquele que é verdadeiro na sua busca
Não sente euforia, mesmo no estado de êxtase
Que Indra¹ e todos os deuses, infelizes,
Tanto anseiam.
 
Ele entende a natureza das coisas.
O seu coração não está maculado
Pelo certo nem pelo errado,
Assim como o céu não se conspurca pelo fumo.
 
É puro de coração,
Sabe que o mundo inteiro é apenas o Ser.
Quem o poderá impedir
De agir conforme desejar?
 
Dos quatro tipos de ser,
De Brahma² a uma folha de erva,
Apenas o sábio é forte o bastante
Para abandonar o desejo e a aversão.
 
Quão raro um homem assim!
Sabendo que é o Ser,
Age de acordo com o que é
E nunca teme.
Pois ele sabe quem é,
Um sem espaço para Dois,
O Senhor de toda a criação.





Ashtavakra (? - ?)










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)








(1) O deus do céu no Hinduísmo. É associado ao clima e ao fluxo dos rios.


(2) O primeiro deus da santa trindade do Hinduísmo. Representado por diversas faces, é o deus da música e das canções, sendo igualmente considerado uma expressão da força criadora do universo. 












The Seeker,
de Tyler Robbins




segunda-feira, 22 de maio de 2023

SABEDORIA

 
Conheces o Ser,
Por sua natureza uno
E sem fim.
Conheces o Ser,
E permaneces sereno.
Como poderás ainda desejar riquezas?
 
Quando em ignorância
Vês prata numa madressilva,
A cobiça desponta.
Da ignorância do Ser
O desejo desperta
Para o mundo onde os sentidos se agitam.
 
Conhecendo-te como Aquilo
Onde mundos erguem-se e desaparecem,
Quais ondas no oceano,
Porque te agitas tão miseravelmente?
 
Não escutaste ainda?
És consciência pura,
A tua beleza não tem fim!
Porque deixas a luxúria enganar-te?
 
O homem sábio
Sabe que se encontra em todas as coisas
E todas as coisas nele mesmo se encontram.
Mas, que estranho!,
Ele ainda diz, “Isto é meu.”
 
Determinado a ser livre,
Permanece na unidade,
Para além de todas as coisas.
Mas, que estranho!,
Entregando-se à paixão, ele fraqueja,
E a luxúria assim o domina.
 
Enfraquecido pela idade,
Ainda é tomado pelo desejo,
Sabendo, sem dúvida,
Que a luxúria é inimiga da consciência.
Que estranho, de facto!
 
Anseia ser livre…
Não tem qualquer interesse por este mundo
Nem pelo próximo,
E sabe aquilo que passa
E aquilo que permanece.
Mesmo assim, que estranho!,
Ainda teme a liberdade.
 
Mas aquele que é realmente sábio
Sempre vê o Ser absoluto.
Celebrando, não se deleita;
Rejeitando, não se enfurece.
 
Puro de coração,
Observa as suas próprias acções
Como se fossem doutra pessoa.
Como poderá o elogio ou a culpa perturbá-lo?
 
Com visão limpa e firme,
Observa como o mundo é uma miragem
E assim não mais se questiona sobre ele.
Como poderá temer a chegada da morte?
 
Puro de coração,
Nada deseja,
Mesmo em desespero.
Satisfaz-se
No conhecimento do Ser.
A quem poderei compará-lo?
 
Com visão limpa e firme,
Ele sabe que tudo o que vê
Nada é, por sua natureza.
Como poderá preferir uma coisa a outra?
 
Ele está além de toda a dualidade.
Livre do desejo,
Varreu de sua mente
Todo o anseio pelo mundo.
Venha o que vier,
Alegria ou pesar,
Nada o moverá.





Ashtavakra (? - ?)












(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001.)









 


"Pearl Of Wisdom"
Jean Filson



sexta-feira, 12 de maio de 2023

CONSCIÊNCIA

 

Ontem,
Vivia confundido,
Vivia em ilusão.
Agora estou desperto,
Perfeito e sereno,
Para além do mundo.
 
A partir da minha luz,
O corpo e o mundo erguem-se.
Assim, todas as coisas são minhas,
Ou nada o é.
 
Agora que abdiquei
Do corpo e do mundo,
Possuo um dom especial:
Vejo o Ser infinito.
 
Como a onda,
Agitando-se espumosa,
É apenas água,
Assim toda a criação,
Fluindo a partir do Ser,
É somente o Ser.
 
Pensa num pedaço de tecido:
São apenas fios!
Assim toda a criação,
Se observares atentamente,
É somente o Ser.
 
Como o açúcar
Presente no suco da cana,
Eu sou a doçura
Presente em tudo o que fiz.
 
Quando se desconhece o Ser
O mundo desponta,
Não quando o Ser é conhecido.
Mas confundes
A corda com a serpente.
Quando vês realmente a corda,
A imagem da serpente desaparece.  
 
A minha natureza é luz,
E nada mais que luz.
Quando o mundo desponta,
Só eu brilho.
 
Quando o mundo brota em mim,
É apenas uma ilusão:
Água cintilando ao sol,
Um veio de prata em madrepérola,
A serpente na corda.
 
De mim o mundo flui
E em mim se dissolve,
Como a pulseira derrete-se em ouro,
O jarro desfaz-se em barro,
A onda reduz-se a água.
 
Eu adoro-me.
Quão maravilhoso sou!
Nunca poderei morrer.
O mundo inteiro poderá desaparecer,
De Brahma a uma folha de erva,
Mas eu permanecerei.
 
Quão maravilhoso, deveras!
Eu adoro-me.
Pois, tomando forma,
Ainda sou um.
Não vou nem venho,
E ainda assim estou em toda a parte.

Fantásticos
E grandiosos são os meus poderes!
Não possuindo forma,
Até ao fim dos tempos
Sustento o universo.
 
Maravilhoso!
Nada é meu
E, no entanto, é meu
Tudo o que seja pensado ou falado.
 
Não sou o conhecedor,
Nem o conhecido,
Nem o conhecer.
Estes três modos não são reais.
Apenas o aparentam ser
Quando o que sou não é conhecido.
Eu sou perfeito.
 
Dois a partir de um!
É esta a raiz do sofrimento.
Observa, apenas,
Que eu sou Um sem Dois,
Consciência pura, alegria pura,
E que o mundo inteiro é falso.
Não existe outro remédio!
 
Pela mão da ignorância
Imaginei, outrora, que estava preso.
Mas eu sou consciência pura;
Vivo além de todas as distinções,
Numa meditação inquebrável.
 
De facto,
Não estou nem preso nem livre.
O fim da ilusão!
É tudo infundado.
Pois a criação inteira,
Embora repouse em mim,
Existe sem fundamento.
 
O corpo é nada,
O mundo nada é.
Quando compreenderes isto verdadeiramente,
Como poderão eles ser inventados?
Pois o Ser é consciência pura,
Nada mais.
 
O corpo é falso,
E assim os seus medos,
O paraíso e o inferno, liberdade e escravidão.
Tudo não passa duma invenção.
O que poderão eles me importar?
Sou a própria consciência.
 
Vejo somente uma coisa:
Muitos Homens,
Uma só imensidão.
Então, a que poderei me apegar?
 
Não sou o corpo,
Nem o corpo me pertence.
Não sou algo separado.
Sou a própria consciência,
Preso apenas pela minha sede de vida.
 
Sou o oceano sem fim.
Quando os pensamentos irrompem,
O vento torna-se mais fresco,
E como ondas mil mundos despontam.
 
Mas quando o vento acalma,
O capitão afunda-se com o navio.
No oceano sem fim do meu ser
Ele naufraga,
E assim todos os mundos.
 
Mas, oh!, quão maravilhoso…
Eu sou as profundezas infinitas
Donde todas as coisas vivas
Despontam naturalmente,
Apressam-se, em alegria, umas contra as outras
E depois desvanecem.  





Ashtavakra (? - ?)













(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001)












"Aura",
de Bruce Rolff




domingo, 30 de abril de 2023

O SER

 

Oh, Mestre,
Diz-me como encontrar
Desapego, sabedoria e liberdade!
 
Meu filho,
Se desejas ser livre
Afasta-te do veneno dos sentidos.
Procura o néctar da verdade,
Do amor e do perdão,
Da simplicidade e da felicidade.
 
Terra, fogo e água,
O vento e o céu –
Nada disto tu és.
Se desejas ser livre,
Que saibas que és o Ser,
A testemunha de tudo,
O coração da consciência.
 
Põe de lado o teu corpo.
Senta-te na consciência de ti mesmo.
Irás de pronto ser feliz,
Para sempre sereno,
Para sempre liberto.
 
Não pertences a uma casta,
Nenhum dever te aprisiona.
Sem forma e livre,
Para além do alcance dos sentidos,
A testemunha de todas as coisas.
 
Então, sê feliz!
 
Certo ou errado,
Alegria ou pesar,
Estas coisas só à mente pertencem.
Não são posses tuas.
 
Em verdade, não és tu
Quem age ou desfruta.
Tu estás em toda à parte,
Para sempre livre;
Para sempre e verdadeiramente livre,
A única testemunha de todas as coisas.
 
Mas se te vês como separado de tudo,
Então aprisionas-te.
 
“Eu faço isto, eu faço aquilo”.
A grande e negra serpente do egoísmo
Mordeu-te!
“Eu nada faço”:
É este o néctar da fé.
Então, bebe-o e sê feliz!
 
Que saibas que és Um,
Consciência pura.
Com o fogo desta certeza,
Incendeia a floresta da ignorância.
 
Liberta-te das tristezas
E sê feliz.
Sê feliz!
Pois és alegria, uma alegria
Que não conhece limites.
 
És a própria consciência.
 
Assim como uma corda enrolada
Confunde-se com uma serpente,
Tu és confundido com o mundo.
 
Se pensas que és livre,
Livre és.
Se pensas que estás preso,
Preso estás.
Pois verdadeiro é o dizer:
És aquilo que pensas.
 
O Ser parece-se com o mundo,
Mas não passa duma ilusão.
 
O Ser está em toda a parte.
 
Uno.
Sereno.
Livre.
Perfeito.
 
A testemunha de todas as coisas,
Consciência
Sem acção, apego ou desejo.
 
Medita no Ser.
Indivisível,
Elevada consciência.
 
Abandona a ilusão
Dum ser separado.
Abandona o sentimento,
O dentro ou o fora,
Que és isto ou aquilo.
 
Meu filho:
Porque pensas ser o corpo,
Por muito tempo tens-te aprisionado.
Que saibas que és consciência pura.
 
Com este saber como tua espada
Corta as tuas correntes.
E sê feliz!
 
Pois já és livre,
Sem acção ou defeito,
Luminoso e radiante.
 
Estás preso
Somente pelo hábito da meditação.
A tua natureza é consciência pura.
Tu fluis em todas as coisas
E todas as coisas fluem em ti.
 
Mas acautela-te
Com a estreiteza da mente!
És sempre o mesmo,
Insondável consciência,
Sem limites e liberta,
Serena e imperturbável.
 
Deseja somente a tua própria consciência.
O que quer que tome forma, é falso.
Somente o informe perdura.
Quando compreenderes
A verdade deste ensinamento
Não nascerás de novo.
 
Pois Deus é infinito,
Dentro do corpo e fora do corpo,
Como um espelho,
E a imagem aparecendo no espelho.
 
Como o ar está em toda a parte,
Fluindo em redor duma jarra
E enchendo-a,
Assim Deus está em toda a parte,
Enchendo todas as coisas,
Fluindo através delas para sempre.



Ashtavakra (? - ?) ¹










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Thomas Byrom in "The Heart Of Awareness - A Translation of the Ashtavakra Gita", Shambhala Dragon Editions, 2001)












(1) Um antigo sábio indiano, sobre o qual muito pouco se conhece. Não é identificável um lugar de nascimento, sequer o século em que viveu. O seu nome, a única pista, talvez, capaz de nos conceder um melhor vislumbre do indivíduo em causa, traduz-se por "oito deformidades", referindo-se àquelas que supostamente o seu corpo físico apresentava.
Mas a sua sábia presença perdurou nas escrituras sagradas do Hinduísmo, atravessando séculos, de geração em geração, além do conhecimento permitido pela obra onde se insere o texto aqui traduzido. Porém, importa esclarecer que também não é certo que Ashtavakra tenha sido o verdadeiro autor da mesma. Certos estudiosos colocam a composição de "A Canção de Ashtavakra" algures pelos anos 600 a 400 a.C; outros, defendem tratar-se duma criação posterior, datada do século VIII da nossa era. Dado o profundo e significativo conteúdo da mesma, é certo que tais pormenores pouco importarão.
Para se obter um melhor contexto sobre a exposição dos poemas, esclarece-se que a obra está escrita em forma de diálogo, entre o famoso sábio e Janaka, o Rei de Mithila - uma região situada no nordeste do actual território indiano. 








"Bloom and Blossom"
- Jaanika Talts -