quarta-feira, 23 de setembro de 2015

LAMENTO


Casou-me a minha família
nesta remota parte da terra.
Deu-me a estranhos,
ao bárbaro e longínquo rei.

A tenda redonda, o meu palácio;
são de feltro, os muros.
De comer, carne crua;
para beber, leite de égua.

Sonho sempre com a minha terra.
Tenho o coração pisado!
Oh, fosse eu o cisne amarelo
que retorna ao país natal...



(Poema anónimo - séc. I a.C. a séc. I) (*)



(Tradução de Gil Carvalho, adaptada por Pedro Belo Clara).




(*) Compilado na obra "Quinhentos Poemas Chineses" (Nova Vega, 2014), pouco se poderá dizer sobre este poema composto algures durante a vigência da dinastia Han ocidental. Apenas que o lamento duma jovem de então se perpetuou pelas eras, tornando-se certamente coevo de muitos outros entretanto suspirados por jovens em idêntica situação (salvo as naturais diferenças culturais e temporais, claro está).










quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O tempo foge, a cascata flui


O tempo foge, a cascata flui.
O carro dos quatro corcéis desaparece.
O destino é sagaz.
Mas o que ele não consegue
é restituir-me a vida quando morto eu for.

Já vivi bastante.
Caem-me os dentes, caem-me os cabelos.
Sou como uma maçã murcha no Inverno.
É esta a lei dos homens.
De que serve revoltar-me?


Mao Heng (séc. III ? ) (*)



(Tradução de António Ramos Rosa).





(*) Sobre este poeta pouco se sabe, desde as suas exactas datas de vida como muito daquilo que empreendeu ao longo da mesma. No entanto, foi o fundador de uma escola poética denominada "Mao Shi", que durante a dinastia Han atingiu uma considerável relevância. O seu papel como anotador do "Livro das Odes" (Shi Jing), considerado um dos "Cinco Clássicos" da literatura chinesa, merece igual destaque.
Pela leitura do poema apresentado, podemos compreender a inclinação deste obscuro escolástico para temas como a impermanência dos elementos mundanos e a efemeridade da vida, factos existenciais que lhe alimentavam uma completa aceitação dos seus efeitos. Pelo que se demonstra, certas influências do pensamento Taoísta em sua poesia não serão de descartar. 










(reprodução da primeira ode do Shi Jing, transcrita pela própria mão do Imperador Qianlong (1711 - 1799))




quarta-feira, 19 de agosto de 2015

A CANÇÃO DOS FANTOCHES


Em madeira são esculpidos.
Com figura de velhos,
movem-se por meio de fios.

Têm a pele cheia de rugas
e os cabelos são brancos.
Parecem mesmo 
verdadeiros velhos.

Mas, acabada a comédia,
todos caem e ficam inertes.

Lembram os homens:
atravessando esta vida
como num sonho.


Tang Xuanzong (685 - 762) (*)




(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução de B. Videira Pires)




(*) Nascido Li Longji, Xuanzong foi provavelmente o imperador mais famoso de toda a dinastia Tang, tendo o reinado mais longo (quarenta e três anos) e também, sem motivo que o questione, o mais conturbado. Afinal, testemunharia de perto a rebelião do general An Lushan, acto que viria a imergir o país num caos completo - do qual resultaram cerca de doze milhões (!) de mortes ao longo de sete anos.
Apesar dos desejos de poder do seu general, há quem atribua ao próprio imperador culpa pelo trágico sucedido. Afinal, graças à sua confiança cega no mesmo, e noutros indivíduos de personalidade dúbia, o império sofreria grandes danos. Uma surpresa, tamanha falha, dado que nos primeiros anos de reinado se revelara um governante astuto e diligente. 
É curioso constatar o modo como este poema compara os fantoches à existência humana. A razão que a sustenta poderá ser mais pessoal do que em primeira análise se concluirá. 
Na tentativa de garantir a máxima estabilidade política durante o período do conflito, o imperador Xuanzong procedeu ao perdão de diversos rebeldes, munindo-os de guarnições numerosas na esperança de que pudessem manter a estabilidade política e económica do nordeste do país. O acto, infelizmente, teve efeitos reversivos, deixando o imperador à mercê dos caprichos de tais figuras. O sentimento anotado não difere muito, como se vê, da condição conhecida por esses engraçados brinquedos, os fantoches.  
Xuanzong, apesar de tudo, era um verdadeiro amante das artes - e da poesia, em particular.













quinta-feira, 6 de agosto de 2015

DIÁLOGO NA MONTANHA



Perguntais porque motivo moro na montanha verde,
Intimamente sorrio mas não posso responder.
As flores de pessegueiro são levadas pela água do rio...
Há outro céu e outra terra para além do mundo dos homens.



Li Bai (701 - 762)





(Tradução de Cecília Meireles in "Li Po e Tu Fu, Poemas Chineses" - Ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1996).








terça-feira, 21 de julho de 2015

Fomos nós que plantámos



Fomos nós que plantámos
e colhemos o arroz.

Fomos nós que a madeira
empilhámos nas margens
das águas claras e onduladas do rio.

Os senhores não semeiam nem colhem,
mas recolhem
trezentos alqueires de trigo.

Jamais vão à caça,
mas têm javalis
pendurados nos pátios das suas casas.

Ah, esses senhores 
que não necessitam
de trabalhar para comer!



Shi Jing - o "Livro das Odes" (*)


(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução de João C. Reis, em "Quinhentos Poemas Chineses" (Nova Vega, 2014)). 





(*) Este poema, anónimo, encontra-se compilado no Shi Jing, ou "Livro das Odes". 
Trata-se da primeira recolha de poemas chineses de que se tem conhecimento. Ao que parece, a sua compilação deve-se a Confúcio (551 a.C. - 479 a.C.). A importância de tal trabalho tê-lo-á mesmo levado a afirmar o seguinte: «Um homem que não estuda o Livro das Odes não deve sequer falar».
Composto por trezentos e cinco poemas, provavelmente escritos e cantados entre os sécs. XI e VI, a.C., o famoso livro exerceu uma tremenda influência em toda a poesia futuramente escrita na China.








segunda-feira, 13 de julho de 2015

CANÇÃO DOS CABELOS BRANCOS



O nosso amor, brioso como neve nas montanhas,
foi lustroso como a lua entre as nuvens.
Soube que irás deixar o velho pelo novo;
venho despedir-me de ti.

Hoje, bebemos um copo de vinho;
amanhã, cada um seguirá o seu rumo.
Pelo canal imperial iremos,
como águas fluindo para este ou oeste.

Porque me deverei sentir triste ou lúgubre
e como uma noiva chorar, lágrima após lágrima?
Tivesse casado com um homem de um só coração,
e mesmo de brancos cabelos não nos separaríamos.

Longas poderão ser as tuas linhas de pesca,
mas não apanharás as luzentes caudas dos peixes.
Se o teu amor fosse sólido e verdadeiro,
não te submeterias à tentação do dinheiro.





Zhuo Wenjun (século II a.C.) (*)



(Tradução da versão inglesa por Pedro Belo Clara).





(*) Zhuo Wenjun, nascida na província de Sichuan, China, durante a dinastia Han Ocidental, é considerada a primeira poetisa da história literária chinesa. 
Viúva desde muito cedo, protagonizou com o também poeta Sima Xiangru (179 a.C. - 117 a.C.) uma autêntica história de amor na antiguidade. 
Dizem as lendas que se tratou de "amor à primeira vista". Wenjun, que apreciava bastante os escritos de Xiangru, teve um vislumbre do seu amado na casa de Cho Wangsun, o magistrado da província de Lin Hong, na companhia de seu pai. Sima Xiangru interpretava um tema musical quando uma lufada de vento afastou a cortina que os apartava, permitindo assim o primeiro contacto entre os amantes. 
Trocadas as habituais juras, Wenjun e Xiangru fogem pela calada da noite para Sichuan, regressando apenas nove meses mais tarde. Renegada pela sua abastadíssima família, Wenju vê-se forçada a vender as suas jóias para abrir uma taberna com o seu novo marido.
Sima Xiangru teve uma vida atribulada, sendo inclusive vítima de diversos actos de inveja. Chegou, inclusive, a ser encarcerado durante um ano sem razão válida (valeu-lhe a amizade do próprio imperador). Após o seu casamento com Wenju, o imperador convoca-o para a capital. Caindo já nas graças do seu sogro, rapidamente se fatiga da vida na corte. Pede então transferência para Mounling, onde viria a conhecer uma jovem mulher pela qual se enamora. O desejo de a tomar por sua concubina torna-se incontrolável. 
É provavelmente nesse sentido que este poema foi escrito. Embora existam incertezas, ele é-lhe atribuído. Contudo, há quem defenda que o dito, sendo de Wenju ou não, somente exprime as flutuações do amor dos homens pelas mulheres. Pois, segundo a lenda, Wenju, sabendo do sucedido, escreve um poema ("Um Casal de Brancos Cabelos") e envia-o ao seu marido. Este, de tal modo tocado pelo sentimento exposto no escrito, abandona os seus planos e retorna a casa. 
Viveriam como nas histórias: felizes para sempre.









quarta-feira, 1 de julho de 2015

VIDA


Esta vida no meio de vinho e de canto,
Quanto tempo dura?
Momentânea como orvalho de madrugada,
Deixa-me o sofrer do seu passar. 



Cao Cao (155 - 220) (*)


(Tradução de Yao Feng, in "Quinhentos Poemas Chineses" (Nova Vega, 2014)).






(*) Cao Cao foi um dos grandes senhores de guerra durante os conflitos que originaram a queda da dinastia Han oriental. Mesmo tendo falecido no ano da sua instauração, é considerado uma figura central do conturbado período dos Três Reinos (220 - 280). Lançou as bases para a criação autónoma do Reino de Wei, sendo postumamente declarado Imperador Wu de Wei. Notável estratega militar, destacou-se pelo modo déspota do seu governar, não obstante o mesmo ter sido alvo de diversos elogios - um "déspota iluminado", portanto. Homem, apesar de tudo, de índole sensível, cultivou de modo sério os seus visíveis atributos poéticos.