sábado, 9 de janeiro de 2021

TAMBÉM A LUA ESTÁ OCUPADA

 
Curvo-me diante Deus em gratidão,
e vejo que também a lua
está ocupada a fazer o mesmo.

Curvo-me diante Deus em grande felicidade,
e aprendo donde os sóis,
as crianças e o meu coração
vão buscar a sua Luz.

Curvo-me ao Amigo em profunda reverência,
e descubro um maravilhoso segredo 
levado no vento:

todo este Universo é tão abençoado
e divinamente louco quanto eu,
e quanto eu tão perdido está
nesta Maravilhosa Dança Sagrada.

Meu querido,
depois duma longa, longa jornada,
Deus deu a liberdade a mais uma alma!

Agora, tudo o que Hafiz deseja fazer
é abrir uma bonita Taberna
onde o Vinho Sagrado 
da Verdade, Conhecimento e Amor de Deus
ser-te-á oferecido para sempre.

Oh, curva-te diante Deus em gratidão,
e um dia saberás 
como também a lua 
está ocupada a fazer o mesmo. 




Hafiz (1320 - 1389) ¹









(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Daniel Ladinsky in "I Heard God Laughing: Poems of Hope and Joy - Renderings of Hafiz", Penguin Books, 2006.)












(1) Nasceu Shams-ud-din Muhammad, na belíssima cidade jardim de Shiraz, no sul da Pérsia, lugar onde viveu praticamente a sua vida inteira.
Oriundo de uma família pobre, era o mais novo de três irmãos. O pai faleceu quando era ainda adolescente, e assim viu-se forçado a trabalhar como ajudante de padeiro para auxiliar a família e financiar os estudos que decidiu levar a cabo. Apesar das dificuldades, logrou adquirir uma educação notável.
Hafiz tornar-se-ia para a eternidade um dos mais excelentes poetas místicos que a Humanidade conheceu. Dado à poesia desde muito jovem, diz-se que terá escolhido o nome com que o mundo melhor o conhece quando começou a colocá-la no papel. Hafiz significa, literalmente, "memorizador", e era um título nobre dado aos indivíduos cultos que sabiam de cor o Corão inteiro. 
Apesar de célebre, nem sempre granjeou grandes simpatias dado o carácter herético, na óptica dos seus inimigos, da poesia que escrevia. Tanto que conheceu as agruras do exílio, embora nunca tivesse sido realmente efectivo. Na verdade, sendo um dos mais altos nomes do Sufismo, a "Pérola do Islão", notável aluno, primeiro, e mestre, depois, Hafiz destacava-se por uma poesia brilhante, bastante leve, cómica e até subversiva, o que incomodava de sobremaneira as hostes mais conservadoras da religião dominante. 
Mas Hafiz era mais que isso: um homem iluminado, dir-se-ia, que através das suas palavras tentou auxiliar cada Homem a mergulhar em si e a por si descobrir a sua verdade última, o divino dentro do humano que tudo permeia e a tudo subjaz, a real identidade muito para além dum nome, dum corpo ou duma existência que se julgaria levar. 
Terá casado e tido, pelo menos, um filho, mas a ambos Hafiz sobrevivera. Segundo a sua vontade, foi sepultado num dos seus lugares prediletos: junto a um cipreste que ele próprio plantara num roseiral existente às portas de Shiraz. O seu túmulo foi local de romaria durante certa de quinhentos anos.
Ainda hoje, o autor do célebre "Divan" é um dos poetas mais amados no Irão, para muitos um mestre espiritual de excelência, cujos ensinamentos continuam capazes de resgatar às teias das ilusões mundanas o coração mais extraviado e adormecido.









(Retrato de Hafiz,
por H. Shakiba)


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

INVERNO (seguido de quatro haikus condizentes com a estação.)


O Inverno é a estação do frio; não só o frio que enregela os animais, mas também o frio de cujo significado profundo e interior nos apercebemos apenas em raros momentos de medo ou de solidão.

A lua no Inverno e a chuva fria no fim do Outono evocam diferentes sensações. Mas é a neve que no seu leque de significados e variedades de tratamento corresponde às flores de cerejeira na primavera, ao cuco no verão e à lua no Outono. Apesar das tarambolas, mochos, águias e aves aquáticas, a poesia do Inverno é sobretudo a poesia da imobilidade e do silêncio.




⛄⛄⛄




I. 

Primeira neve - 
as folhas dos junquilhos
quase vergadas



II.

Intempérie - 
infiltra-se o vento
até na minha alma


III.

A água é tão fria
Como pode a gaivota
adormecer?


IV.

Separados pelas nuvens
dois patos selvagens
dizem-se adeus






Matsuo Bashô (1644 - 1694)















(Versões de Jorge Sousa Braga in "O Gosto Solitário do Orvalho (seguido de "O Caminho Estreito"), Assírio & Alvim, 2003.)
















"Neve no Templo Toji",
de Takeji Asano (1900 - 1998).


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (O último de cinco poemas)

 
Entristecido
por caminhos escarpados e por matagais
apoiado no meu cajado reentro em casa sozinho
o carreiro de água da montanha
é límpido e pouco profundo
aí passo os pés por água
decanto um pouco de vinho novo
mato um frango e convido um vizinho

e de repente o Sol põe-se e a sala fica sombria
só a luz das brasas nos ilumina
mas quando a alegria reina
ah! como lamentamos
que o serão tenha passado tão depressa

agora que a madrugada ameaça amanhecer
é doce o modo como esta alegria nos invade. 





Tao Yuanming (365 - 427)












(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)















(Gravura e autor desconhecidos.)



terça-feira, 17 de novembro de 2020

O PÁSSARO MANSO E O PÁSSARO LIVRE

 
O pássaro manso vivia na gaiola,
e o pássaro livre no bosque.
Mas o destino de ambos
era encontrarem-se
e tinha chegado o momento.

O pássaro livre cantava:
- Amor, vem até ao bosque.
O pássaro preso dizia baixinho:
- Vem tu aqui,
vivamos os dois na gaiola.
E o pássaro livre dizia:
- As almas não podem expandir-se
entre grades.
- Ai - dizia o pássaro preso - 
saberei eu pousar no céu?

O pássaro livre cantava:
- Meu amor,
canta a canção do campo.
O pássaro preso dizia: 
- Fica a meu lado;
vou ensinar-te as canções dos sábios.
O pássaro livre cantava:
- Não, não, não;
ninguém pode ensinar as canções.
O pássaro preso dizia:
- Ai, eu não sei as canções do campo!

O amor deles é um desejo infinito,
mas não pode voar lado a lado.
Olham-se e tornam a olhar-se
através dos arames da gaiola,
mas é em vão o seu desejo.

Batem as asas, nostálgicos,
e cantam:
- Aproxima-te mais, aproxima-te mais.
O pássaro livre grita:
- Não posso.
Que medo me causa 
a tua gaiola fechada!
O pássaro preso canta baixinho:
- Ai, não posso.
As minhas asas morreram! 




Rabindranath Tagore (1861 - 1941)









(Tradução de Manuel Simões in "Coração da Primavera", Editorial A.O., 1981.)












("The Caged Bird",
de Niveditha Raveendran)


segunda-feira, 2 de novembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (o quarto de cinco poemas)

 

Durante muito tempo
troquei as montanhas e os lagos
por um cargo oficial
mas agora palmilho montes e rios longamente
pois as planuras, charnecas e bosques
me encantam
levo comigo uma criança pela mão
e afastando arbustos abrindo caminho
andamos pelas ruas de uma aldeia em ruínas
divago meio perdido através de túmulos
e detenho-me nos lugares outrora habitados
pois poços e casas deixam vestígios
silvedos e bambus, cepos apodrecidos. 

Interrogo um lenhador
toda esta gente o que é feito dela
e ele responde voltando-se para mim
estão todos mortos, não ficou vivalma
basta uma geração 
para que a corte e o povo se renove
como é certeiro este ditado
a vida humana é apenas ilusão
acabamos todos por voltar ao nada.





Tao Yuanming (365 - 427)














(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)













("Ruína",
de Lingxue.)


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (o terceiro de cinco poemas)


Semeei uns feijões
nas encostas voltadas a sul
mas as ervas daninhas espalharam-se
e os rebentos de feijão atrofiaram
levanto-me cedo
e aproveito para mondar o quintal
de sacho aos ombros, regresso a casa
em companhia da lua
o caminho torna-se estreito
no meio das ervas e da mata cerrada
o orvalho do crepúsculo molha a minha roupa
mas isso a mim não me incomoda nada
aproveito para praticar a não-contrariedade
e o que me importa mesmo
é não trair os sonhos. 







Tao Yuanming (365 - 427)












(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)















("Playing a Farmer", 
Utagawa Kunisada (1786 - 1865))



terça-feira, 22 de setembro de 2020

OUTONO (seguido de três haikus condizentes com a estação)

 
O Outono não se caracteriza apenas pela queda das folhas, mas também pelo declínio das forças vitais de todos os seres, incluindo o homem.

A Via Láctea torna-se mais nítida. Todavia, é a lua a alma desta estação. Na sua remota proximidade adensa o mistério da nossa existência. O vento soa também de maneira diferente e nele podemos surpreender, por vezes, o murmúrio da própria morte.

Os gritos dos insectos ecoam por todo o lado. Mas são os crisântemos, com a beleza das suas folhas e das suas flores e o seu perfume forte e esotérico, a referência dominante da estação, logo a seguir à lua. 



🍂🍂🍂


I. 

Outono:
velhos parecem até
os pássaros e as chuvas


II.

Acabou-se o óleo na lamparina
Mas... eis a lua
que entra pela janela


III.

A pequena lagarta
vê passar o outono
sem pressa de se tornar borboleta





Matsuo Bashô (1644 - 1694)














(Versões de Jorge Sousa Braga in "O Gosto Solitário do Orvalho (seguido de "O Caminho Estreito"), Assírio & Alvim, 2003.)

















("Pássaro Azul no Outono",
de Ito Sozan (1884 - ?))