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terça-feira, 1 de dezembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (O último de cinco poemas)

 
Entristecido
por caminhos escarpados e por matagais
apoiado no meu cajado reentro em casa sozinho
o carreiro de água da montanha
é límpido e pouco profundo
aí passo os pés por água
decanto um pouco de vinho novo
mato um frango e convido um vizinho

e de repente o Sol põe-se e a sala fica sombria
só a luz das brasas nos ilumina
mas quando a alegria reina
ah! como lamentamos
que o serão tenha passado tão depressa

agora que a madrugada ameaça amanhecer
é doce o modo como esta alegria nos invade. 





Tao Yuanming (365 - 427)












(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)















(Gravura e autor desconhecidos.)



segunda-feira, 2 de novembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (o quarto de cinco poemas)

 

Durante muito tempo
troquei as montanhas e os lagos
por um cargo oficial
mas agora palmilho montes e rios longamente
pois as planuras, charnecas e bosques
me encantam
levo comigo uma criança pela mão
e afastando arbustos abrindo caminho
andamos pelas ruas de uma aldeia em ruínas
divago meio perdido através de túmulos
e detenho-me nos lugares outrora habitados
pois poços e casas deixam vestígios
silvedos e bambus, cepos apodrecidos. 

Interrogo um lenhador
toda esta gente o que é feito dela
e ele responde voltando-se para mim
estão todos mortos, não ficou vivalma
basta uma geração 
para que a corte e o povo se renove
como é certeiro este ditado
a vida humana é apenas ilusão
acabamos todos por voltar ao nada.





Tao Yuanming (365 - 427)














(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)













("Ruína",
de Lingxue.)


quarta-feira, 14 de outubro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (o terceiro de cinco poemas)


Semeei uns feijões
nas encostas voltadas a sul
mas as ervas daninhas espalharam-se
e os rebentos de feijão atrofiaram
levanto-me cedo
e aproveito para mondar o quintal
de sacho aos ombros, regresso a casa
em companhia da lua
o caminho torna-se estreito
no meio das ervas e da mata cerrada
o orvalho do crepúsculo molha a minha roupa
mas isso a mim não me incomoda nada
aproveito para praticar a não-contrariedade
e o que me importa mesmo
é não trair os sonhos. 







Tao Yuanming (365 - 427)












(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)















("Playing a Farmer", 
Utagawa Kunisada (1786 - 1865))



quinta-feira, 3 de setembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (Segundo de cinco poemas)


Dou-me com pouca gente aqui no campo
no meu cantinho cavalos e carroças raramente passam

durante o dia o portão fica fechado
e na sala vazia o mundo vazio não entra

de vez em quando abrindo caminho entre as ervas
procuro a casa de alguns vizinhos

mas quando a gente se encontra falamos apenas
de como medram as amoreiras e o cânhamo

pois a amoreira e o cânhamo crescem a olhos vistos
e a minha horta de igual modo prospera

somente temo a geada e o granizo
e que tudo arruínem, como as ervas daninhas. 




Tao Yuanming (365 - 427)











(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)












("Nêsperas e Um Pássaro da Montanha",
Anónimo, sécs. XII ou XIII)


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

REGRESSO AO CAMPO (Primeiro de cinco poemas)


Jovem, e já o mundo me desiludia tanto
pois o que eu amava mesmo eram as montanhas

porém tonto, me deixei apanhar pelas armadilhas do mundo
e treze anos passaram assim num abrir e fechar de olhos

mas o pássaro em cativeiro tem saudades da floresta
o peixe no aquário anseia pelas águas revoltas de outrora

eu limpo as terras do sul entretendo a minha rudeza,
levando uma vida simples, pois regressei à minha terra

o lugar onde moro não vai além de uns casais
onde tenho uma casita com aposentos vários

colmos e salgueiros dão sombra ao alpendre das traseiras
pessegueiros e pereiras decoram o jardim da frente

lá ao longe, o casario de uma aldeia perdida e vaga
o fumo das chaminés subindo para o céu

cães ladram em becos distantes e baldios
galos cantam trepando sobre arbustos

no coração da casa nem uma nódoa
não cabem tumultos onde o silêncio mobila os quartos

tanto tempo estive em cativeiro
que alegria por voltar ao campo.




Tao Yuanming (365 - 427)










(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)















(Tao Yuanming,
Cai Ju Dong Li Xia.)


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

ELEGIA PARA OS MEUS FUNERAIS



Se há nascimento, tem de haver morte;
acabar cedo não significa vida breve.
A noite passada era ainda um homem,
esta manhã apareço na lista dos mortos.

A minha forma está numa caixa,
um leito côncavo de madeira;
mas por onde vagueia o meu espírito?

Os meus filhos choram a morte do pai;
os meus amigos, o desaparecimento do companheiro.
Não mais o fardo de perder ou ganhar,
não mais distinguir o certo do errado.

Nos próximos mil outonos, daqui a dez mil anos,
quem recordará minhas honrarias e fracassos?
O único desgosto que levo desta vida
é não ter bebido até saciar o coração.


Tao Yuanming (365 - 427) (*)




(Adaptado por Pedro Belo Clara da tradução de António Graça de Abreu in "Quinhentos Poemas Chineses", Nova Vega, 2014).





(*) Nascido em Jiujiang, Tao Qian, maioritariamente conhecido por Tao Yuanming, cresceu numa família de oficiais e letrados, embora em moderada pobreza. Apesar do benefício da sua educação, e tendo trabalhado ao serviço do estado por mais de dez anos, retirou-se da vida activa perto dos quarenta anos de idade. Uma frase sua tornar-se-ia famosa para a eternidade: «não me ajoelharei como um criado por cinco punhados de grão». 

Cansado das sórdidas cenas políticas de então, preferiu a companhia da família, da Natureza e dos simples prazeres da vida - nomeadamente o vinho, como por esta elegia se poderá constatar sem que um bem humorado sorriso se não esboce. 
Toda a sua vida foi praticamente vivida nos últimos anos de governação dos Dezasseis Reinos (ou Estados), um tempo de domínio estrangeiro na China antiga. Embora essa era se revelasse pobre sob o ponto de vista da produção poética, Yuanming foi de longe o seu poeta mais importante, para muitos o melhor poeta entre os quatrocentos anos que separam as dinastias Han e Tang.
Tendo sido um período marcado por agitações políticas, muitos poetas optaram por se exilar em zonas rurais, tendo até outros seguido uma via eremita. Naturalmente, os seus trabalhos passaram a reflectir paisagens e estilos de vida condizentes, pelo que se dirá que a escola de nome "Campo e Jardim" terá assim sido fundada. Considera-se Yuanming um dos seus aderentes, embora nos seus trabalhos também se incluam ensaios e homenagens a entes queridos.
Muito depois da sua morte seria reverenciado pelos imortais Li Bai e Du Fu.