quinta-feira, 3 de setembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (Segundo de cinco poemas)


Dou-me com pouca gente aqui no campo
no meu cantinho cavalos e carroças raramente passam

durante o dia o portão fica fechado
e na sala vazia o mundo vazio não entra

de vez em quando abrindo caminho entre as ervas
procuro a casa de alguns vizinhos

mas quando a gente se encontra falamos apenas
de como medram as amoreiras e o cânhamo

pois a amoreira e o cânhamo crescem a olhos vistos
e a minha horta de igual modo prospera

somente temo a geada e o granizo
e que tudo arruínem, como as ervas daninhas. 




Tao Yuanming (365 - 427)











(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)












("Nêsperas e Um Pássaro da Montanha",
Anónimo, sécs. XII ou XIII)


terça-feira, 11 de agosto de 2020

CANÇÃO LXXXVIII

 

Este dia é-me mais caro
que todos os outros dias,
pois hoje o amado Senhor
é convidado em minha casa.

Os meus aposentos e o meu pátio
são belos na sua presença.
A minha saudade canta o Seu nome
e dissolve-se na Sua grande beleza.

Lavo Seus pés e observo-Lhe a fronte;
diante Dele, como oferenda deponho
o meu corpo, a minha mente - tudo o que possuo.

Que feliz dia é o dia em que o meu Amado,
que é tesoiro meu, vem a minha casa! 
Todos os males fogem do coração
quando vejo o meu Senhor.

    O meu amor tocou-O, o meu coração anseia
    pelo Nome que é a Verdade

- assim canta Kabir, o servo dos servos.




Kabir (1440 - 1518)











(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore em "Songs of Kabir", 1915.)





("La Prière", de Eugène Girardet

(1853 - 1907))


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Seis haikus veranis de Bashô (Parte III)


I.

Em Hoso Tôge, que fica no caminho de Tafu no Mine para Ryumon.

acima do voo da cotovia
deito-me no céu
desta passagem de montanha


II.

por sobre o arrozal
o som da água que corre - 
ó que delícia!


III.

Caminhando ao longo da estrada de Kiso, fiquei em Ôtsu e fui ver os pirilampos em Seta. 

pirilampos - 
na água dos arrozais
luas reflectidas


IV.

escutando a flauta
que ninguém toca
no Templo de Suma


V.

pirilampos - 
pétalas das cerejeiras de Yoshino
em frente dos meus olhos


VI.

Consolando o hospedeiro, Rakugo, pela morte de seu filho.

como é frágil
uma flor
no calor do verão!









Matsuo Bashô (1644 - 1694)












(Tradução e adaptação de Joaquim M. Palma, in "O Eremita Viajante", Assírio & Alvim, 2016.)
















("Pássaros e Flores da Primavera e do Verão", 
primeiro de um par de seis painéis de Kano Eino - 
Período Edo, 1603-1867)



segunda-feira, 8 de junho de 2020

O Mito Genesíaco do Império Japonês (segundo a tradição xintoísta)


Quando começaram a existir os céus e a terra, formaram-se as divindades invisíveis, que tinham nos céus o seu domicílio. A terra então não era mais do que uma coisa semelhante a uma gota de azeite, flutuando, movendo-se como se move a medusa, a alforreca.

Seguidamente, outros deuses se formaram, Izanaghi e Izanami, sua irmã, contando-se no número, aos quais todas as divindades entregaram uma lança milagrosa, conferindo-lhes a missão de irem consolidar a terra.

Izanaghi e Izanami colocaram-se então sobre a ponte flutuante dos céus - o arco-íris - e dali, baixando a lança, começaram a agitar a água salgada. Após, recolhendo a lança, dos pingos de água que caíam formou-se uma primeira ilha. Despediram-se dos céus e a ela desceram; nela celebraram suas núpcias.

Do consórcio, originaram-se as ilhas do Japão e provêm muitos deuses naturais. Um deles, o deus do fogo, mata acidentalmente sua mãe. Izanaghi corre aos infernos em procura da esposa, que lá vê, sem, contudo, poder salvá-la do lugar. Foge então, espavorido. Escapo, apressa-se a entregar-se às delícias de um banho purificador. Despe-se; de cada peça de vestuário, que tira do corpo e lança à terra, nasce uma divindade. Banhando-se, de cada um dos seus gestos nasce outra divindade; lavando o olho direito, nasce o deus da lua; lavando o nariz, nasce o deus dos mares.

Ora, aconteceu que o deus dos mares meteu-se a mortificar sua irmã, a deusa Amaterasu, desrespeitando-a. Tamanha foi a última afronta, que a deusa do sol, escandalizada, recolheu-se à gruta de rochedos que habitava, fechando a entrada com uma enorme pedra; assim se ocultou às vistas. Consequentemente, céus e terra ficaram às escuras.

Então, perante calamidade tão estupenda, da qual já iam derivando terríveis consequências, todas as divindades se reuniram em conselho, a fim de deliberar o que se havia de fazer. Resolveu-se por fim reunir junto da gruta muitos galos, os quais, pelo seu canto, que anuncia comummente a madrugada, seriam de bom agoiro. Ao mesmo tempo, fez-se um troféu de ofertas, incluindo um espelho de metal, que é o emblema do sol, um colar de jóias, plantas místicas e outras várias coisas. Por último, a deusa Ame-no-uzumé, enfeitada a capricho, pôs-se a dançar e a cantar ao pé da gruta, fazendo mil trejeitos; cerca, todos os deuses, em número de oitocentos miríades, desataram num coro de risadas...

Imagine-se o estrondo. Foi então que a deusa Amaterasu, surpreendida da risota, entreabriu um pouco a sua gruta e exclamou:

- Pensava eu que, pelo meu recolhimento, se achava tudo em trevas... Que acontece porém, para que se dance aqui e todos os deuses se divirtam?...

A multidão, apresentando-lhe as ofertas, respondeu-lhe que outra deusa, mais poderosa do que ela, ali se achava, o que dava motivo a tanto júbilo... Amaterasu, a quem a explicação mais intrigava, avançou um nadinha da gruta para fora, para ver. De pronto, um deus toma-lhe a mão e puxa-a para longe; outro estende uma corda de palha à entrada da gruta, para impedir a retirada; por este modo, de novo os céus e a terra japonesa foram iluminados pelo sol!...




(Obs: Ainda hoje, nas cerimónias xintoístas, estão presentes o espelho de metal, a corda de palha, as plantas místicas e todos os outros acessórios mencionados nesta lenda, primeiramente descrita no "Livro de Memórias" (Kojiki), há mais de 1200 anos.)





Wenceslau de Moraes (1854 - 1929) ¹












(in "O Bon-Odori em Tokushima", Livros de Bordo, 2018.)













(1) Nascido em Lisboa, este célebre oficial da Marinha portuguesa, professor e, sobretudo, escritor, é, juntamente com Camilo Pessanha, das personalidades nacionais a quem mais devemos o conhecimento e a divulgação da cultura e modos de vida orientais (no caso deste autor, dos japoneses). O equivalente lusitano, portanto, a Lefcádio Hearn, de quem aliás foi contemporâneo. 
Todas as suas obras oferecem pedaços do universo nipónico que tanto o encantou em vida, ao ponto de ter vivido pouco mais de vinte anos no território - vindo a falecer em Tokushima. Na cidade de Kobe, onde desempenhou funções de cônsul, ergue-se ainda hoje um monumento em sua justa homenagem. 









"Sondando os Mares com o Tenkei" (em recorte),
de Kobayashi Eitaku
(1843 - 1890)


quinta-feira, 28 de maio de 2020

Seis haikus primaveris de Bashô


I. (Em viagem pela província de Yamato, passei a noite numa quinta. O dono da casa era muito gentil e hospitaleiro.)

descansar em viagem
debaixo de ramos floridos
é como ouvir belas canções


II.

ver as cerejeiras em flor
é algo maravilhoso - 
mas o que eu tive de andar!


III.

se soubesse cantar
não pararia
até as flores murcharem



IV. (No Monte Kazuraki.)

quero contemplar uma flor
à primeira luz do dia - 
para ver a face de um deus


V. 

cansados
viajante e flores de glicínia 
batem à porta da hospedaria


VI. (Escrito em Nijikô.)

as pétalas de pequenas flores
caem em cascatas de sons - 
murmúrios sem fim






Matsuo Bashô (1644 - 1694)











(Tradução de Joaquim M. Palma, in "O Eremita Viajante", Assírio & Alvim, 2016.)














("Velha Romãzeira na Primavera", em pormenor 
- Masaaki Juseki.)


segunda-feira, 4 de maio de 2020

Três poemas de amor e de saudade de Al-Mu'tamid


I. (Ausência)

repeles-me!
porque deixas minh'alma abandonada?

se a tua ausência é uma longa noite
seja nosso abraço d'amor a alvorada.


II. (Separação)

só eu sei quanto me dói a separação!
na minha nostalgia fico desterrado
à míngua de encontrar consolação.

à pena, no papel, escrever não é dado
sem que a lágrima trace, caindo teimosa,
linhas de amor na página da face.

se o meu grande orgulho não obstasse
iria ver-te à noite: orvalho apaixonado 
de visita às pétalas da rosa.


III. (Alma Prisioneira)

sinto-me triste com a tua ausência
e ébrio por ti com o vinho da paixão.
anseiam sangue e coração
querendo beijar-te e abraçar-te.

não me queixo! pra quê ocultares-te?
juraram minhas pálpebras não cerrar-se
até que nosso reencontro se consume.

vem amor, confia e não temas:
bem sabes que minh'alma em lume
é a prisioneira das tuas algemas.



Al-Mu'tamid (1040 - 1095) ¹









(Tradução de Adalberto Alves in "Al-Mu'tamid, Poeta do destino", Althum.com, 2016.)



(Nota: Os poemas originais não possuem título. Os que se apresentam foram escolhidos pelo seu tradutor.)








(1) Foi o terceiro e último rei dos Abádidas, uma dinastia que se formou após a queda e desmembramento do Califado de Córdoba, no então designado Al-Andaluz - hoje, Península Ibérica. Foi deles a governação da chamada "Taifa de Sevilha", a mais poderosa da época, destacada pela alta classe cultural da sua corte, e que albergava as actuais cidades de Silves, Faro e Huelva, por exemplo. (Na realidade, chegou a ocupar toda a região sul de Portugal e estendia-se até ao estreito de Gibraltar.) 
Al-Mu'tamid era filho do principal responsável pela expansão de tal Taifa e o seu respeitoso poderio, um rei sanguinário e temível. Nasceu em Beja, o que, à parte do curioso acaso, o torna o primeiro rei-poeta mais destacado a nascer em território agora português. No seguimento da sua existência, revelaria-se um rei ambicioso e um mecenas generoso, mas igualmente um dos poetas mais famosos e amados de todo o Al-Andaluz, reformador até, em diversos sentidos, da poesia árabe então vigente. Não nos espantará tais feitos tendo em conta a educação que recebeu no palácio e as mais distintas figuras que à época o frequentavam. Alguns versos seus foram compilados na magnífica antologia "As mil e uma noites", que nos dias de hoje é ainda amplamente conhecida e admirada.
À faceta de poeta, que partilhou com seu pai, juntaria a de temerário guerreiro. Com apenas treze anos liderará uma expedição militar enviada para combater uma revolta que surge na cidade de Silves (Xilb), e o seu sucesso é total. Graças a tão brilhante vitória, o seu pai nomeia-o governador da cidade. É neste local que vem a conhecer Ibn'Ammar, um poeta que também terá nascido no actual território português, e com o qual desenvolve uma relação de intensa cumplicidade, que o seu pai nunca aprovará. Ainda hoje se especula se entre ambos terá existido uma relação de índole homossexual, embora Al-Mu'tamid se tenha enamorado por várias mulheres ao longo da vida, dentre elas uma escrava marroquina (que acabaria imortalizada pela sua pena).
Quando sobe ao trono, em 1069, nomeia o seu amigo íntimo vizir do reino. E se no começo tudo corria de feição, auxiliando este dedicadamente na contínua expansão do território, culminada com a conquista de Múrcia, Ibn'Ammar, cego pela sua ambição, não tardará a conspirar contra o rei-poeta. Acabará, por isso, morto às suas mãos, a golpes de machado.
Com a crescente ameaça dos reinos cristãos, nomeadamente de Afonso VI de Leão e Castela, Al-Mu'tamid vai perdendo o controlo de um território vasto e rico, que chegou até a contar com a sedutora cidade de Córdoba, até acabar traído, uma vez mais, por aliados islâmicos do norte de África. É precisamente para essa região que será desterrado, ocupando os cinco derradeiros anos de vida com o seu amor de sempre: a poesia.
Faleceu em Agmate, no sul de Marrocos, onde ainda hoje é possível visitar o seu mausoléu, que alberga as sepulturas do poeta, sua esposa e filha. 






(O Rei-Poeta Al-Mu'tamid - 
Autor desconhecido.)

sábado, 4 de abril de 2020

CANÇÃO LXXVIII


Kabir diz: Ó sadhu¹, escuta
as minhas imortais palavras!
Se desejas o teu próprio bem,
examina-as atentamente.

Afastaste-te do Criador, donde brotaste; 
perdeste a tua razão, compraste a morte.

Todas as doutrinas e ensinamentos
Dele despontam, Dele crescem:
faz disto a tua certeza e não temas.

Escuta de minha boca
as novas desta grandiosa verdade!

De quem é o nome que cantas,
e em quem meditas?
Oh, sai dessa confusão!

Ele reside no coração de todas as coisas;
porquê tomar refúgio numa desolação vazia?

Se deixares o Guru² a certa distância de ti,
então será apenas a distância
que honrarás; se o Mestre, de facto,
longe estiver, então quem é esse
que vai criando este mundo?

Quando julgas que Ele aqui não está,
deambulas para longe, cada vez mais longe
procurando-O em vão, cheio de lágrimas.

Sempre que O achares longe,
será inatingível; quando perto está,
é Ele o êxtase. 

Kabir diz: Para que o Seu servo não sofra,
Ele o permeia vezes sem conta.

Conhece-te a ti mesmo, então, ó Kabir;
pois Ele está em ti da cabeça aos pés.
Canta com alegria e mantém imóvel
o teu lugar no coração.





Kabir (1440 - 1518)











(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore em "Songs of Kabir", 1915).











(1) Um termo bastante comum para designar um asceta, um praticante de ioga, um monge itinerante ou um místico. Em suma, alguém que percorre uma via de transcendência da matéria, visando assim a sua comunhão com o divino. De modo mais corrente poderá ser entendido como "aprendiz" ou "devoto". Devido à variedade de significados que lhe são atribuídos, opta-se por deixar o termo na sua forma original. 



(2) Vulgo "Mestre". Kabir utiliza muitas vezes esta palavra para se referir a Deus ou, de modo mais generalizado, extrapolando conceitos religiosos rígidos, ao Divino.













(Gravura ilustrando Kabir no seu tear - aut. desc.)