quinta-feira, 4 de julho de 2019

Quatro poemas japoneses dos períodos Kamakura e Muromachi (1185 - 1603)


I.

O cuco cantou:
olhei na direcção do canto
mas só aí estava
a lua da madrugada.


Fujiwara No Sanesada (1139 - 1192)



II.

Dominado pela escuridão,
a sombra debaixo duma árvore,
construo a minha pousada;
e esta noite o meu estalajadeiro
será uma flor.


Taira Tadanori (1144 - 1184)



III. 

Tarde de chumbo.
Espero-te na praia
e tu não chegas.
Como a água que ferve
sob o sol - assim ardo.


Fujiwara No Sadaie (1162 - 1241)



IV.

Vejo uma flor caída
voltar para o ramo.
Ah! Uma borboleta.


Arakida Moritake (1473 - 1549)







(Traduções de Luís Pignatelli, in "A Pedra-que-mata, Poesia Japonesa" - Língua morta, 2016.)









(Pintura de Xu Xi, artista chinês (886 - 975))




domingo, 9 de junho de 2019

Seis haikus veranis de Bashô (Parte II)



I.

a borboleta só voa
no espaço 
onde há luz


II.

papoila branca - 
borboleta oferecendo uma das asas
como recordação


III.

visto roupa 
feita de asa de cigarra - 
agora já posso cantar! ¹


IV.

gota de água
esquecida por alguém - 
a flor do meloeiro


V.

embriagados
os cravos florescem
tombados sobre as pedras


VI.

não cabe num dia inteiro
o canto
da cotovia






Matsuo Bashô (1644 - 1694)










(Tradução e adaptação de Joaquim M. Palma, in "O Eremita Viajante", Assírio & Alvim, 2016.)












(1) Este haiku surge antecedido pelo seguinte comentário do seu autor: "O meu amigo Sanpu mandou-me, como prenda de Verão, um casaco de tecido muito fino."












("Bird on a plum blossom tree", em pormenor.)



quarta-feira, 22 de maio de 2019

Quatro breves poemas de Kahlil Gibran



I. Cantando No Silêncio

A vida canta nos nossos silêncios
e sonha no nosso sonho.
Mesmo quando nos sentimos abatidos e derrotados,
a vida senta-se num trono nas alturas.
E quando choramos,
a vida sorri ao dia
e é livre mesmo que
arrastemos as nossas correntes.



II. Entre

Para sempre caminho nestas praias,
entre a areia e a espuma do mar.
A maré alta apagará as minhas pegadas
e o vento levará a espuma.
Mas o mar e a praia
aqui ficarão para sempre.


III. Olhos De Coruja

A coruja, cujos olhos adaptados à noite
são cegos para o dia,
é incapaz de desvendar o mistério da luz.
Se queres realmente ver o espírito da morte,
abre o teu coração para o corpo da vida.
Pois a vida e a morte são uma só coisa,
tal como o rio e o mar são um só.


IV. As Árvores São Poemas

As árvores são poemas
que a terra escreve sob o céu.
Nós as derrubamos
e com elas fazemos papel,
onde registamos todo o nosso vazio.






Kahlil Gibran (1883 - 1931)











("Kahlil Gibran: O Livro da Vida", Albatroz, 2018 - e
dição de Neil Douglas-Klotz; à excepção do quarto poema, uma versão de Pedro Belo Clara a partir do original.)











(Kahlil Gibran)


terça-feira, 30 de abril de 2019

DE MIM NÃO OUVIREIS UMA SÓ


Um dia, o nosso Mestre passeava por um dos bairros de Cónia¹. 

Dois estranhos discutiam entre si, dizendo um ao outro coisas horríveis. Rumi interrompeu a sua marcha a uma certa distância e ouviu um deles dizer: «Não sabes com quem falas? Se dizes mais uma palavra sequer ouvirás mil em resposta!»

Então, Rumi aproximou-se da dupla em disputa: «Não, vinde a mim, direccionai até mim todas as palavras que guardais em vossa mente; pois mesmo que tenhais dez mil delas, de mim não ouvireis uma só.»

Os dois beligerantes tombaram a seus pés e imediatamente acertaram a paz entre ambos.







(Shams ud-Din Ahmad) Aflaki em Manāqib ul-Ārifīn, uma biografia de Rumi (Séc. XIV).













(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Andrew Harvey in "Teachings of Rumi" - Shambhala Pub., 1999)














(1) Cónia, no original Konya, é uma cidade turca situada na região da Anatólia Central. Historicamente conhecida por Icónio, esteve sob domínio romano e foi um dos locais eleitos pelo apóstolo Paulo para as suas pregações. Talvez por isso seja ainda hoje significativa a comunidade cristã na cidade.




















sábado, 20 de abril de 2019

CANÇÃO XL


É-me muito querido
aquele que consegue chamar
o vagabundo de volta a casa.

Na casa reside a verdadeira união,
o desfrutar da vida. Porque deverei
abandonar a minha casa
e deambular pela floresta?

Se Brahma me auxilia
a compreender a verdade, 
é certo que em casa encontrarei
tanto servidão como libertação.

É-me muito querido
aquele que tem o poder de mergulhar 
profundamente em Brahma,
cuja mente de si mesma brandamente 
se despega em sua contemplação.

É-me querido aquele que conhece Brahma
e pode residir na sua suprema verdade
em meditação; e aquele que pode tocar
a melodia do Eterno através da união,
em vida, do amor e da renúncia.

Kabir diz: A casa é o lugar da permanência;
em casa está a realidade; a casa auxilia 
a alcançar Aquele que é real.
Por isso, permanece onde estás
- e todas as coisas, no seu tempo, a ti virão.





Kabir (1440 - 1518)










(Versão de Pedro Belo Clara a partir da versão inglesa de Rabindranath Tagore em "Songs of Kabir", 1915).

















quarta-feira, 27 de março de 2019

Compreende os outros



Compreende os outros,
e serás sábio.
Compreende-te a ti mesmo,
e ficarás iluminado.

Vencer os outros exige força física.
A conquista de ti mesmo dá-te poder superior.

Viver com o que se tem,
é ser-se rico.
Persistir no caminhar
leva longe os teus passos.

Não percas o teu lugar,
e terás uma vida longa.

Assim, quando morreres,
não acabas.








Lao Tsé (séc. VI a.C. - ?)









(Tradução de Joaquim Palma, in "Tao Te Ching - O Livro do Caminho e da Sabedoria", Editorial Presença, 1º edição, Julho de 2010.)























sexta-feira, 15 de março de 2019

QUARENTA E CINCO ANOS


Idade: quarenta e cinco anos.
O seu cabelo, dos lados, tornou-se grisalho;
esguio e esbelto, é a poesia o seu maior falhanço;
brusco, caloroso, algo louco quando bebe.
Está agora mais velho, e ao destino tudo entrega;
a qualquer lugar confortável chama casa.
Quem sabe? No monte Lu¹, na próxima primavera,
talvez construa uma cabana com telhado de palha.




Bai Juyi (772 - 846)







(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Burton Watson.)








(1) O Monte Lu é por excelência o centro da vida espiritual chinesa. Durante séculos que assim tem sido. Palco de diversos templos, tanto taoístas como budistas, também se adorna de marcos do confucionismo. Lugar de retiro e de ensinamento da eleição de muitos mestres e mentores, além de ocasionais eremitas que buscavam paz interior, uma ligação profunda com o que os rodeava ou simplesmente uma existência frugal, longe das azafamas citadinas e das intrigas da corte. Devido à sua estonteante beleza natural, foi e ainda é um lugar que inspira diversos artistas. Situado na província chinesa de Jiangxi, em 1996 foi declarado património mundial da UNESCO.

Pelo que se lê no poema, que é um curioso auto-retrato do autor aos quarenta e cinco anos de idade, feito em pleno exílio (ano de 817), o poeta equacionava uma vida de eremita para o restante da sua vida, algo que pelo menos no imediato não se sucederia, pois em 819 foi convidado a reentrar no serviço administrativo do império. Contudo, os anos finais da sua existência foram realmente passados num templo, em Xianshang. É nesse local que ainda hoje se ergue um monumento fúnebre em sua memória. 










(Vista circundante a partir do Monte Lu)