domingo, 21 de março de 2021

PRIMAVERA (seguido de quatro haikus condizentes com a estação.)

 
Farrapos de névoa cobrem os campos e as colinas. Os dias são longos, comparados com os do inverno, e o vento menos cortante. Quando sobrevem a primavera, as águas nos vales, assim como as cotovias no céu azul, os pássaros nos bosques e as rãs - essa tribo solene e estridente - enchem o ar de cantos joviais. O mais celebrado é o do «uguisu», um pequeno pássaro do tamanho de um pardal, castanho, com manchas brancas no peito. Aparece quase sempre associado às flores de ameixoeira, da mesma forma que os pardais aos bambus.

Além das ameixoeiras, florescem também os pessegueiros, as cerejeiras e as japoneiras. As folhas destas são graciosas e os ramos adequados para os arranjos florais. As flores de cerejeira, com o seu leque de sugestões poéticas, são a flor emblemática desta estação e - mais do que isso - sinónimos do próprio Japão.



🌼🌼🌼🌼



I. 

Chuva de flores de ameixoeira
Um corvo procura em vão
o seu ninho


II.

Debaixo de uma cerejeira
tudo é servido
decorado com flores


III. 

Lua cheia:
para repousar os olhos
uma nuvem de tempos a tempos


IV.

Não esqueças nunca
o gosto solitário
do orvalho





Matsuo Bashô (1644 - 1694)












(Versões de Jorge Sousa Braga in "O Gosto Solitário do Orvalho (seguido de "O Caminho Estreito"), Assírio & Alvim, 2003.)














"Lago Kawaguchi",
de Tokuriki Tomikichiro.



domingo, 14 de março de 2021

Dois poemas de Du Fu em tempo de guerra (*) - Parte I

 
I. À aldeia chega o oficial recrutador



ao final do dia alojo-me na aldeia em pedra
pela noite, um oficial chega para recrutar os homens
o velho escala o muro e foge
a velha vai à porta
o oficial berra com ar furioso
a mulher chora com ar acabrunhado
ouço-a dizer
«os meus três rapazes partiram para combater em Yan-cheng¹
tenho uma carta de um deles a dizer que vai chegar em breve
os outros dois morreram em combate
em casa não há mais homens
só um menino ainda de colo
só um menino, a sua mãe está em casa
a saia rota, muito pobre
sou uma mulher velha, já não tenho forças
senhor oficial, posso seguir-vos e partir esta noite
se é urgente responder à chamada de Ho-yang
ainda vamos a tempo de preparar a refeição da manhã»
na noite que avança, as vozes calam-se
parece-me ouvir soluços bafados
de madrugada, quando começa a clarear, retomo o meu                      [caminho
ao velho digo adeus




II. Até ao céu


chegados ao céu, a viagem não tem retorno
ao final do dia chego à margem do grande rio de leste
          [e ponho-me a chorar
a oeste do Kan-su², desde o planalto de Ching-hai³ até                        [noroeste não se cultiva nada
os cavaleiros bárbaros e os guerreiros tártaros entraram no
          [país de Pa e de Shu
as vagas turbulentas chegam até ao céu, o vento arranca as
          [árvores
adiante fogem os grandes grous, atrás vêm os patos 
          [selvagens
repetidamente envio cartas para Lo-yang
há dez anos sem notícias dos meus irmãos 



Du Fu (712 - 770)








(Versões de Manuel Silva-Terra in "Tu Fu - Entre Céu e Terra", Ed. Licorne.)










(*) Referência ao sangrento conflito que decorreu entre 755 e 763: a revolta do general  An Lushan.


(1) Literalmente "Cidade Salgada", devido à produção e extração de sal marinho que se realiza nas suas imediações há mais de dois mil anos. Situa-se nas margens do Rio Amarelo, na província chinesa de Jiangsu.


(2) Província chinesa cuja capital é Lanzhou. É uma região historicamente importante graças à construção da célebre muralha da China, a duros conflitos com povos bárbaros aí registados e à famosa Rota da Seda, que em tal território tinha parte do seu caminho.


(3) Outra província chinesa que faz fronteira com a anterior, a nordeste. É uma região ampla e árida, de fraca densidade populacional, apesar de ser aí que uma maior variedade de raças e culturas se encontra. Deve o nome ao lago que nela se encontra, o maior de toda a China.


(4) Antigo estado chinês situado no vale de Jialing, na actual província de Sichuan.
 

(5) Um antigo estado independente que hoje integra a província de Sichuan, no sudoeste chinês.


(6) A capital oriental da China, perto da qual Du Fu nasceu, em 712.











(Retrato de Du Fu,
autor desconhecido.)
 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

CANÇÃO XCVII

 

O Senhor está em mim,
o Senhor está em ti
– como a vida está em toda a semente.

Oh, devoto: afasta o falso orgulho,
procura-O em ti.

Quando me sento no centro do mundo
milhões de sóis inflamam-se de luz,
um mar de azul espalha-se no céu,
a febre da vida acalma
e todas as manchas são limpas.

Escuta os sinos e os tambores
que soam sem que ninguém os toque!
Deleita-te no amor!
As chuvas tombam sem que água caia,
os rios são torrentes de luz.

Um só Amor permeia o mundo inteiro
– poucos há que o sabem verdadeiramente.
Cegos são os que esperam compreender
pela luz da razão, a mesma razão
que é a causa da separação.
A Casa da Razão está muito distante!

Quão abençoado é Kabir,
que no seio desta grande alegria
canta dentro do seu próprio receptáculo.

É a música do encontro de almas,
do esquecimento de todas as penas;
a música que transcende
tudo o que vem, tudo o que parte.





Kabir (1440 - 1518)








(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa de Rabindranath Tagore em "Songs of Kabir", 1915.)













(Nome e autor desconhecidos.)


quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

Seis breves poemas de Bai Juyi

 
I. A brisa no alaúde

Abandono o alaúde no banquinho
e quedo-me sereno, a pensar.
Não é preciso eu dedilhar as cordas,
acaricia-as a brisa, tocam sozinhas.


II. Tranquilidade

O homem feliz vê voar os dias,
o homem triste arrasta os anos, como o caracol.
Quem ignora vicissitudes, alegrias
olha, por igual, o viajar da lua e do sol.


III. Uma nuvem no alto da montanha

Uma nuvem branca no alto da montanha,
intacta face ao avançar da manhã.
O trigo ressequido no campo
perde o viço e o verde.
O homem cresce e murcha,
cumpre e concretiza o quê?
Não pode transformar-se em chuva
e seguir o vento Leste.


IV. Subindo ao terraço de Lingying, olhando para norte

Subindo à montanha,
entendo a pequenez dos domínios do homem,
olhando na distância,
entendo o vazio das coisas terrenas.
Volto a cabeça, regresso à corte e ao mercado,
como um bago de arroz caindo no grande celeiro.


V. Primavera em Luoyang

Ao olhar os arrozais, a Primavera em Luoyang é eterna. 
Regresso, vinte anos após a minha última visita.
Uma coisa não reencontrei, a minha juventude.
Tudo o mais permanece inalterado.


VI. Noite solitária no início do Outono

Ondulam folhas finas por detrás do poço,
lavadeiras batem roupa, o Outono começa a cantar.
Descubro um recanto sob os beirais, adormeço solitário.
Ao acordar tenho o leito inundado de luar. 




Bai Juyi (772 – 846)









(Traduções de António Graça de Abreu in "Poemas de Bai Juyi", Instituto Cultural de Macau, 1991.)








(Bai Juyi, 
num retrato de
Chen Hongshou 
(1598 - 1652))

sábado, 9 de janeiro de 2021

TAMBÉM A LUA ESTÁ OCUPADA

 
Curvo-me diante Deus em gratidão,
e vejo que também a lua
está ocupada a fazer o mesmo.

Curvo-me diante Deus em grande felicidade,
e aprendo donde os sóis,
as crianças e o meu coração
vão buscar a sua Luz.

Curvo-me ao Amigo em profunda reverência,
e descubro um maravilhoso segredo 
levado no vento:

todo este Universo é tão abençoado
e divinamente louco quanto eu,
e quanto eu tão perdido está
nesta Maravilhosa Dança Sagrada.

Meu querido,
depois duma longa, longa jornada,
Deus deu a liberdade a mais uma alma!

Agora, tudo o que Hafiz deseja fazer
é abrir uma bonita Taberna
onde o Vinho Sagrado 
da Verdade, Conhecimento e Amor de Deus
ser-te-á oferecido para sempre.

Oh, curva-te diante Deus em gratidão,
e um dia saberás 
como também a lua 
está ocupada a fazer o mesmo. 




Hafiz (1320 - 1389) ¹









(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução inglesa elaborada por Daniel Ladinsky in "I Heard God Laughing: Poems of Hope and Joy - Renderings of Hafiz", Penguin Books, 2006.)












(1) Nasceu Shams-ud-din Muhammad, na belíssima cidade jardim de Shiraz, no sul da Pérsia, lugar onde viveu praticamente a sua vida inteira.
Oriundo de uma família pobre, era o mais novo de três irmãos. O pai faleceu quando era ainda adolescente, e assim viu-se forçado a trabalhar como ajudante de padeiro para auxiliar a família e financiar os estudos que decidiu levar a cabo. Apesar das dificuldades, logrou adquirir uma educação notável.
Hafiz tornar-se-ia para a eternidade um dos mais excelentes poetas místicos que a Humanidade conheceu. Dado à poesia desde muito jovem, diz-se que terá escolhido o nome com que o mundo melhor o conhece quando começou a colocá-la no papel. Hafiz significa, literalmente, "memorizador", e era um título nobre dado aos indivíduos cultos que sabiam de cor o Corão inteiro. 
Apesar de célebre, nem sempre granjeou grandes simpatias dado o carácter herético, na óptica dos seus inimigos, da poesia que escrevia. Tanto que conheceu as agruras do exílio, embora nunca tivesse sido realmente efectivo. Na verdade, sendo um dos mais altos nomes do Sufismo, a "Pérola do Islão", notável aluno, primeiro, e mestre, depois, Hafiz destacava-se por uma poesia brilhante, bastante leve, cómica e até subversiva, o que incomodava de sobremaneira as hostes mais conservadoras da religião dominante. 
Mas Hafiz era mais que isso: um homem iluminado, dir-se-ia, que através das suas palavras tentou auxiliar cada Homem a mergulhar em si e a por si descobrir a sua verdade última, o divino dentro do humano que tudo permeia e a tudo subjaz, a real identidade muito para além dum nome, dum corpo ou duma existência que se julgaria levar. 
Terá casado e tido, pelo menos, um filho, mas a ambos Hafiz sobrevivera. Segundo a sua vontade, foi sepultado num dos seus lugares prediletos: junto a um cipreste que ele próprio plantara num roseiral existente às portas de Shiraz. O seu túmulo foi local de romaria durante certa de quinhentos anos.
Ainda hoje, o autor do célebre "Divan" é um dos poetas mais amados no Irão, para muitos um mestre espiritual de excelência, cujos ensinamentos continuam capazes de resgatar às teias das ilusões mundanas o coração mais extraviado e adormecido.









(Retrato de Hafiz,
por H. Shakiba)


segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

INVERNO (seguido de quatro haikus condizentes com a estação.)


O Inverno é a estação do frio; não só o frio que enregela os animais, mas também o frio de cujo significado profundo e interior nos apercebemos apenas em raros momentos de medo ou de solidão.

A lua no Inverno e a chuva fria no fim do Outono evocam diferentes sensações. Mas é a neve que no seu leque de significados e variedades de tratamento corresponde às flores de cerejeira na primavera, ao cuco no verão e à lua no Outono. Apesar das tarambolas, mochos, águias e aves aquáticas, a poesia do Inverno é sobretudo a poesia da imobilidade e do silêncio.




⛄⛄⛄




I. 

Primeira neve - 
as folhas dos junquilhos
quase vergadas



II.

Intempérie - 
infiltra-se o vento
até na minha alma


III.

A água é tão fria
Como pode a gaivota
adormecer?


IV.

Separados pelas nuvens
dois patos selvagens
dizem-se adeus






Matsuo Bashô (1644 - 1694)















(Versões de Jorge Sousa Braga in "O Gosto Solitário do Orvalho (seguido de "O Caminho Estreito"), Assírio & Alvim, 2003.)
















"Neve no Templo Toji",
de Takeji Asano (1900 - 1998).


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

REGRESSO AO CAMPO (O último de cinco poemas)

 
Entristecido
por caminhos escarpados e por matagais
apoiado no meu cajado reentro em casa sozinho
o carreiro de água da montanha
é límpido e pouco profundo
aí passo os pés por água
decanto um pouco de vinho novo
mato um frango e convido um vizinho

e de repente o Sol põe-se e a sala fica sombria
só a luz das brasas nos ilumina
mas quando a alegria reina
ah! como lamentamos
que o serão tenha passado tão depressa

agora que a madrugada ameaça amanhecer
é doce o modo como esta alegria nos invade. 





Tao Yuanming (365 - 427)












(Versão de Manuel Afonso Costa in "Poesia e Prosa - Tao Yuanming", Assírio & Alvim, outubro de 2019.)















(Gravura e autor desconhecidos.)