domingo, 8 de novembro de 2015
CONTEMPLANDO A LUA E PENSANDO SOBRE AQUELA QUE ESTÁ LONGE
Nasce a lua, brilhante sobre o mar.
Contemplamo-la, tu e eu,
nos dois extremos do país.
Melancólico, lamento
a longa imensidão da noite.
Apaixonado, solto um suspiro.
Cubro-me com a capa e saio.
Sinto-a molhada pelo orvalho.
Incapaz de colher um punhado
desta luz para te oferecer,
entristeço-me.
Volto para casa.
Deito-me na cama.
Talvez em sonhos
te encontre.
Zhang Jiuling (673 - 740) (*)
(Adaptação de Pedro Belo Clara a partir da tradução de Adelino Ínsua - "Pavilhão da Chuva", Antologia de Poesia Clássica Chinesa (2002))
(*) Zhang Jiuling, de origem cantonesa, desfrutou de uma existência de grande notoriedade.
Além de escolástico, foi um proeminente ministro e também chanceler durante o reinado do imperador Xuanzong - não obstante ter-se firmado como um dos maiores poetas românticos da dinastia em que viveu, a Tang.
A famosa antologia denominada "Trezentos Poemas da Dinastia Tang" conta com cinco poemas da sua autoria, um dos quais aquele que agora se apresenta.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
ELEGIA PARA OS MEUS FUNERAIS
Se há nascimento, tem de haver morte;
acabar cedo não significa vida breve.
A noite passada era ainda um homem,
esta manhã apareço na lista dos mortos.
A minha forma está numa caixa,
um leito côncavo de madeira;
mas por onde vagueia o meu espírito?
Os meus filhos choram a morte do pai;
os meus amigos, o desaparecimento do companheiro.
Não mais o fardo de perder ou ganhar,
não mais distinguir o certo do errado.
Nos próximos mil outonos, daqui a dez mil anos,
quem recordará minhas honrarias e fracassos?
O único desgosto que levo desta vida
é não ter bebido até saciar o coração.
Tao Yuanming (365 - 427) (*)
(Adaptado por Pedro Belo Clara da tradução de António Graça de Abreu in "Quinhentos Poemas Chineses", Nova Vega, 2014).
(*) Nascido em Jiujiang, Tao Qian, maioritariamente conhecido por Tao Yuanming, cresceu numa família de oficiais e letrados, embora em moderada pobreza. Apesar do benefício da sua educação, e tendo trabalhado ao serviço do estado por mais de dez anos, retirou-se da vida activa perto dos quarenta anos de idade. Uma frase sua tornar-se-ia famosa para a eternidade: «não me ajoelharei como um criado por cinco punhados de grão».
Cansado das sórdidas cenas políticas de então, preferiu a companhia da família, da Natureza e dos simples prazeres da vida - nomeadamente o vinho, como por esta elegia se poderá constatar sem que um bem humorado sorriso se não esboce.
Toda a sua vida foi praticamente vivida nos últimos anos de governação dos Dezasseis Reinos (ou Estados), um tempo de domínio estrangeiro na China antiga. Embora essa era se revelasse pobre sob o ponto de vista da produção poética, Yuanming foi de longe o seu poeta mais importante, para muitos o melhor poeta entre os quatrocentos anos que separam as dinastias Han e Tang.
Tendo sido um período marcado por agitações políticas, muitos poetas optaram por se exilar em zonas rurais, tendo até outros seguido uma via eremita. Naturalmente, os seus trabalhos passaram a reflectir paisagens e estilos de vida condizentes, pelo que se dirá que a escola de nome "Campo e Jardim" terá assim sido fundada. Considera-se Yuanming um dos seus aderentes, embora nos seus trabalhos também se incluam ensaios e homenagens a entes queridos.
Muito depois da sua morte seria reverenciado pelos imortais Li Bai e Du Fu.
sexta-feira, 16 de outubro de 2015
Três poemas de Han Shan
I.
Vive o homem a vida numa tigela de poeira
Como bichinhos dentro de um jarro
Todo o dia andando à volta
Nunca sai lá de dentro
Não nos calha a ventura
Só temos em sorte desgraças
O tempo parece um rio
Que corre. Um dia, acordamos velhos.
(Tradução de Gil de Carvalho)
II.
Habito a montanha,
ninguém me conhece.
Entre nuvens brancas,
o silêncio, sempre o silêncio.
(Tradução de António Graça de Abreu)
III.
Por sorte, habito solitário entre penhascos,
no rasto de pássaros, longe dos homens.
O que existe em redor do meu jardim?
Nuvens brancas abraçando rochas negras.
Habito por aqui há tantos anos,
quantas vezes o Outono deu lugar à Primavera?...
Hoje, compreendo melhor: riquezas, honrarias,
o nome, a fama, tudo inútil e vazio.
(Tradução de António Graça de Abreu)
Han Shan (circa 700 - 780) (*)
(Traduções retiradas de: "Poemas de Han Shan", A.G.A, Macau, Cod. Ed. 2009; "Uma Antologia de Poesia Chinesa", G. de C., Lisboa, Assírio & Alvim, 2010.)
(*) Para quem o considera uma entidade individual, eis uma enigmática figura sobre qual pouco se sabe, inclusive as datas exactas da sua existência material. É geralmente defendido tratar-se de um homem letrado que posteriormente optou por uma vida de eremita nas montanhas Tiantai, província de Zhejiang. Os seus poemas sobre essa "montanha fria" tornar-se-iam famosos. Grande parte da sua poesia hoje conhecida, aliás, parece ter sido produzida nesse eremitério, dada a centralidade que a sua paisagem assume, seja de modo directo ou mais subentendido.
Importa contudo ressalvar que o próprio nome, Han Shan, significa nada mais nada menos do que "montanha fria", o que levou muitos estudiosos a duvidar da hipótese de se tratar de um só homem, ao invés de um conjunto de pessoas que, remetidas a uma vida eremita nessas montanhas, com tal nome assinavam as suas criações. Na verdade, na antologia dos poemas de Han Shan existem algumas discrepâncias de tema e tom, o que leva a crer a existência de outras mãos imiscuídas na sua produção. Poderia até tratar-se, inicialmente, de um homem só, ao qual outros se seguiram, mas cujo nome deste primeiro adoptaram para si, dado o local do seu isolamento voluntário. O mesmo parece ter acontecido com o companheiro que historicamente lhe é atribuído, Shih Te ("O orfão").
Ainda assim, é visto como tendo sido um "mestre Zen", ou um "bodhisattva" (Manjusri), provavelmente devido ao aspecto sobrenatural que paira sobre a única história conhecida sobre si. Não obstante, é um facto que a sua poesia, tantas vezes espalhada nas árvores, pedras e muros de quintas rurais, torna-se na primeira a assimilar as influências do Budismo Zen, corrente de pensamento que surgiu algures no séc. VII no Império do Meio, durante o despontar da Dinastia Tang, com vincados salpicos que lembram a essência do pensamento taoísta.
Os poemas agora seleccionados atestam profundas observações sobre a existência humana, os logros do ego, a impermanência das coisas... No reverso, cintilam as virtudes do silêncio e de uma vida de isolamento, por forma a privilegiar um contacto mais directo e autêntico com a "verdadeira face da existência".
sexta-feira, 9 de outubro de 2015
NO CUME DA VERDE MONTANHA
Perguntas-me porque me quedo
no topo das verdes montanhas?
Solto uma gargalhada, não respondo;
meu coração está em paz.
Flores de pessegueiro tombam,
ao horizonte flutuam:
aqui, neste mundo sem Homem.
Li Bai (701 - 762)
(Tradução e adaptação da versão inglesa de Dongbo por Pedro Belo Clara).
Nota: Não se saberá ao certo onde Li Bai, um dos maiores poetas chineses do todos os tempos, escreveu este poema, mas acredita-se que o tenha feito algures nas montanhas Huangshan, a sul da província de Anhui (onde viria a falecer).
Uma visão que atesta estas montanhas como exemplares de estonteante beleza, encontra-se retratada na fotografia abaixo apresentada (fonte: travelwithoutborders.wordpress.com).
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
LAMENTO
Casou-me a minha família
nesta remota parte da terra.
Deu-me a estranhos,
ao bárbaro e longínquo rei.
A tenda redonda, o meu palácio;
são de feltro, os muros.
De comer, carne crua;
para beber, leite de égua.
Sonho sempre com a minha terra.
Tenho o coração pisado!
Oh, fosse eu o cisne amarelo
que retorna ao país natal...
(Poema anónimo - séc. I a.C. a séc. I) (*)
(Tradução de Gil Carvalho, adaptada por Pedro Belo Clara).
(*) Compilado na obra "Quinhentos Poemas Chineses" (Nova Vega, 2014), pouco se poderá dizer sobre este poema composto algures durante a vigência da dinastia Han ocidental. Apenas que o lamento duma jovem de então se perpetuou pelas eras, tornando-se certamente coevo de muitos outros entretanto suspirados por jovens em idêntica situação (salvo as naturais diferenças culturais e temporais, claro está).
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
O tempo foge, a cascata flui
O tempo foge, a cascata flui.
O carro dos quatro corcéis desaparece.
O destino é sagaz.
Mas o que ele não consegue
é restituir-me a vida quando morto eu for.
Já vivi bastante.
Caem-me os dentes, caem-me os cabelos.
Sou como uma maçã murcha no Inverno.
É esta a lei dos homens.
De que serve revoltar-me?
Mao Heng (séc. III ? ) (*)
(Tradução de António Ramos Rosa).
(*) Sobre este poeta pouco se sabe, desde as suas exactas datas de vida como muito daquilo que empreendeu ao longo da mesma. No entanto, foi o fundador de uma escola poética denominada "Mao Shi", que durante a dinastia Han atingiu uma considerável relevância. O seu papel como anotador do "Livro das Odes" (Shi Jing), considerado um dos "Cinco Clássicos" da literatura chinesa, merece igual destaque.
Pela leitura do poema apresentado, podemos compreender a inclinação deste obscuro escolástico para temas como a impermanência dos elementos mundanos e a efemeridade da vida, factos existenciais que lhe alimentavam uma completa aceitação dos seus efeitos. Pelo que se demonstra, certas influências do pensamento Taoísta em sua poesia não serão de descartar.
(reprodução da primeira ode do Shi Jing, transcrita pela própria mão do Imperador Qianlong (1711 - 1799))
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
A CANÇÃO DOS FANTOCHES
Em madeira são esculpidos.
Com figura de velhos,
movem-se por meio de fios.
Têm a pele cheia de rugas
e os cabelos são brancos.
Parecem mesmo
verdadeiros velhos.
Mas, acabada a comédia,
todos caem e ficam inertes.
Lembram os homens:
atravessando esta vida
como num sonho.
Tang Xuanzong (685 - 762) (*)
(Versão de Pedro Belo Clara a partir da tradução de B. Videira Pires)
(*) Nascido Li Longji, Xuanzong foi provavelmente o imperador mais famoso de toda a dinastia Tang, tendo o reinado mais longo (quarenta e três anos) e também, sem motivo que o questione, o mais conturbado. Afinal, testemunharia de perto a rebelião do general An Lushan, acto que viria a imergir o país num caos completo - do qual resultaram cerca de doze milhões (!) de mortes ao longo de sete anos.
Apesar dos desejos de poder do seu general, há quem atribua ao próprio imperador culpa pelo trágico sucedido. Afinal, graças à sua confiança cega no mesmo, e noutros indivíduos de personalidade dúbia, o império sofreria grandes danos. Uma surpresa, tamanha falha, dado que nos primeiros anos de reinado se revelara um governante astuto e diligente.
É curioso constatar o modo como este poema compara os fantoches à existência humana. A razão que a sustenta poderá ser mais pessoal do que em primeira análise se concluirá.
Na tentativa de garantir a máxima estabilidade política durante o período do conflito, o imperador Xuanzong procedeu ao perdão de diversos rebeldes, munindo-os de guarnições numerosas na esperança de que pudessem manter a estabilidade política e económica do nordeste do país. O acto, infelizmente, teve efeitos reversivos, deixando o imperador à mercê dos caprichos de tais figuras. O sentimento anotado não difere muito, como se vê, da condição conhecida por esses engraçados brinquedos, os fantoches.
Xuanzong, apesar de tudo, era um verdadeiro amante das artes - e da poesia, em particular.
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